sábado, 5 de setembro de 2009
sábado, 23 de maio de 2009
Museu da Lourinhã
Antigas profissões – O alfaiate
O termo latino para alfaiate é sartor que, em Português, deu origem ao verbo sarcir, o qual significa coser, e às palavras sarcir, que se refere à técnica de remendar um tecido roto
com um pedaço de tecido do mesmo padrão, e de o coser de tal modo que não se perceba o remendo, e sarcideira, a mulher que usa essa técnica. Contrasta com fundilhar, ou seja, pôr
fundilhos, que consiste em tapar o roto ou reforçar o tecido, normalmentede calças ou de casacos de trabalho, com pano igual ou diferente, geralmente mais forte que o original.
Era uma arte importante que conferia um estatuto, diremos que confortável e bem remunerado, ao respectivo artesão. Tanto assim que os judeus, durante a
Idade Média, fizeram dela a principal actividade: “foi a profissão de alfaiate a que mais professaram (os judeus) na nossa Idade Média, durante os séculos XIV e XV. (…)
Esse ofício era, então, o que em Lisboa ocupava o maior número de Israelitas. (…) O alfaiate de D. Afonso V era um hebreu – mestre Latão –, e o de D. João II era outro – Mestre Abraão.”
Os alfaiates eram artesãos altamente especializados sujeitos a rigorosos exames e anos de prática, para obterem a carteira profissional. Tinham que saber talhar, alinhavar, chulear, casear, coser e fazer todos os acabamentos necessários e exigidos pelo cliente na confecção de
calças, casacos, coletes … E havia, ainda, aqueles ou aquelas que faziam ilhós, botões, plissados e, após o aparecimento das meias de vidro, apanhavam as malhas caídas.
Sedas, brocados, veludos, tafetás, cetins, damasco, linhos, lãs, ou, simplesm
A fita métrica para tirar as medidas ao cliente, as diversas tesouras para cortar e talhar os
tecidos, o giz para desenhar os cortes, os chumaços, a entretela, os botões, o ferro para assentar costuras e engomar eram os principais utensílios do alfaiate.
Até meados do século XIX todas as costuras eram feitas à mão.
A máquina de costura foi comercializada apenas a partir da segunda metade do século XIX.
No século XX, destacam-se, na Lourinhã, os alfaiates:
Luís Veríssimo, com alfaiataria na R. João Luís de Moura onde ensinou a arte a Luís Santos. Este
doou os casacos em duas fases de elaboração, entretelados e alinhavados, expostos no Museu da Lourinhã.
José Dias, que vivia na R. Miguel Bombarda, (a mulher, D. Adelaide, após a morte do marido, ofereceu parte do espólio ao Museu da Lourinhã) .
Os Mirandas (toda a família trabalhava na alfaiataria), também na rua João Luís de Moura,José Dias, que vivia na R. Miguel Bombarda, (a mulher, D. Adelaide, após a morte do marido, ofereceu parte do espólio ao Museu da Lourinhã) .
Pedro Marques de Carvalho (n. 28- 6-1879, f. 28-12-1952) que teve alfaiataria na rua da Misericórdia e, mais tarde, na Av. António José de Almeida. Foi mestre de alfaiates mais jovens, entre eles, o Miranda e o José Lourenço do Toxofal.
Isabel Mateus e Simão Mateus
Boletim 09 10/2008
http://www.museulourinha.org
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Vida dedicada às capas de burel

Aos 72 anos, Aureliano Ribeiro é o último de uma geração de alfaiates que ao longo de algumas centenas de anos confeccionaram a "sui generis" capa de honras mirandesa, uma das mais nobres peças do traje popular português. Ao longo dos mais de 60 anos em que se senta em frente à sua velha máquina de costura "Singer", o artesão já perdeu a conta ao número de capas que costurou. Recorda que a arte foi herdada do seu pai e do seu avô, mantendo-se fiel ao "estilo" concebido ao longo de mais de três gerações, "Agora já se fazem poucas capas", lamenta. No entanto, "continuam a ser muito apreciadas, não só por autóctones, mas também por quem vem de fora " refere Aureliano Ribeiro. O artesão garante que a procura da capa de honras mirandesa se deve "à riqueza e beleza desta peça única do traje português".
A capa é uma peça de grande valor etnográfico feita de pura lã de ovelha (burel) e requer um trabalho minucioso por parte de quem a confecciona, devido à sua complexidade. Uma capa de honras pode demorar mais de duas semanas a cortar, decorar e costurar.
Se no passado esta capa de origem "medieval" serviu para proteger os pastores da região do Planalto Mirandês da agressividade do clima, actualmente é uma peça apenas utilizada em cerimónias protocolares ou outros actos de importância relevante, sendo usual oferecer uma destas vestes a figuras distintas que visitam o município de Miranda do Douro.
Apesar do valor desta peça de vestuário, o artesão não esconde a mágoa de não ter seguidores masculinos na arte, já que só algumas costureiras na região confeccionam as capas de honras. "Ainda tentei fazer alguns cursos de aprendizagem, mas não há quem queira saber desta arte", garante Aureliano. Seguro de si, o artesão afiança que a confecção de uma capa é dos serviços mais duros de um alfaiate, devido ao peso das peças de burel e à força empregue durante a sua concretização. "No passado as capas de honras eram feitas só por alfaiates. É um serviço pesado. Actualmente só faço capas por encomenda. Longe vão os tempos em que se faziam cerca de 50 por ano", lembra o artesão.
Na parede do seu pequeno e rústico ateliê é possível observar vários diplomas, sendo o mais importante o primeiro prémio do Concurso Nacional de Artesanato, atribuído em 1992, a uma capa de honras desenhada e costurada por este homem de Constantim, no concelho de Miranda do Douro.
FRANCISCO PINTO
braga @jn.pt
In Jornal de Notícias
terça-feira, 19 de maio de 2009
Museu da Lourinhã
A colecção de máquinas de costura
Até meados do século XIX todas as peças de vestir e calçar eram cosidas à mão. Chapéus, sapatos, cintos, meias, vestidos, calças e calções eram feitos manualmente. Nada de máquina de
costura para ajudar o alfaiate, a costureira, o correeiro, o peliqueiro, o sapateiro, o chapeleiro.
A invenção da máquina de costura foi feita em diversas etapas e por diversas pessoas.
A lançadeira, a agulha, os movimentos dos fios e da lançadeira foram etapas de descoberta e aplicação feitos ao longo dos anos. Na verdade, a nenhuma pessoa isolada se poderá dar
o crédito da sua invenção mas o nome de Isaac Merrit Singer distingue-se entre todos.
No fundo, Isaac Singer aproveitou as descobertas de outros e sugeriu modificações que a tornaram prática e eficiente.
A primeira patente da Singer data de 1858 e foi rapidamente comercializada, de tal modo que a maior parte de nós conheceu uma máquina Singer em casa dos pais ou avós.
Havia vários fabricantes de máquinas de costura. A Pfaff foi a primeira fábrica alemã a produzir e comercializar uma máquina de costura (1862). A Frister & Rossmann foi uma firma fundada em 1864 e que, a partir de 1892, começou também a comercializar máquinas de escrever.
Durante o século XIX foram, na Alemanha, os principais produtores de máquinas de costura mas,
após a Grande Guerra de 14-18, a firma entrou em falência e, em 1925, foi comprada pela Gritzner & Kayser. Em 1906, encontra-se a publicação de um anúncio n’ “O Imparcial”, que diz:
“Alberto Marques de Carvalho / Rua Grande – Lourinhan / Estabelecimento de mercador, fanqueiro, modas, mercearias, louça, quinquilharias, ferragens, tabacos, móveis de ferro, calçado, sola, cabedaes, vinhos finos e muitos outros artigos. / Máquinas de costura Kayser.”
Em 1925 a Oliva iniciou actividade em Portugal, como fundição, e a produção de máquinas de costura em 1948, actividade que manteve até 1972. Ainda se encontra um representante da Oliva na Lourinhã, bem perto do Museu.
Na sala das profissões, o Museu da Lourinhã tem representações do alfaiate, da dona de casa que era também a costureira da família, do correeiro e do sapateiro.
No alfaiate, as peças foram oferecidas pela viúva de José Dias e por Luís Santos mas as máquinas de costura, SINGER, uma que esteve exposta até 2006 e a que está exposta actualmente,
foram oferecidas, respectivamente, porJosé Filipe e Hélder Marques, de Mafra, e por Álvaro de Matos, de Vale Covo.
Na representação da dona de casa, a máquina exposta, do século XIX, é uma FRISTER & ROSSMANN.
Entre as peças doadas pelos familiares dos últimos correeiros, lá está uma máquina SINGER, de 1914, pronta a coser correias, cabedais e peles para arrear cavalos, éguas, machos.
No quarto da casinha regional encontramos mais uma máquina, desta vez uma KAISER pronta a fazer as pequenas costuras que toda a mulher sabia fazer: cuecas, combinações, saiotes ou
saias, vestidos, blusas e aventais.
Na representação do sapateiro não temos a máquina de costura. No entanto, na Lourinhã pode observar-se uma SINGER de 1910 nos sapateiros Rui e Pedro Gonçalves, da firma LouriGon.
GEAL 238 Etn.: Máquina de costura SINGER 45K1
Manufactura: “Singer Manufacturing Co.”, Elisabeth, New
Jersey, USA.
Ano de fabrico: 1914
Concebida para coser tecidos duros como peles ou cabedal.
Muito pesada, é de ferro, com tampo de madeira. Tem um
braço com rebobinador curto, um pino para carreto de linha,
porta-agulhas, guia de linha, esticador de linha, barra de
suporte de sapatilha, sapatilha e alavanca de sapatilha.
A manivela-volante com correia de transmissão que envolve o
volante, é accionado pelo pé através de um pedal e roda
transmissora.
Pertenceu ao correeiro Ambrósio Andrade e foi oferecida ao
Museu pelos netos Hermínia, José e Álvaro Andrade de
Carvalho

GEAL 382 Etn.: Máquina de costura SINGER F261467
Manufactura: “The Singer Manufacturing Co.”, Clydebank,
Escócia
Ano de fabrico: 1909
Mesa com tampo de madeira e gaveta, roda pedaleira, pedal, e
correia de transmissão de cabedal. A cabeça tem manivela volante
em que o volante é envolvido pela correia de
transmissão, 1 pino de carretel, e suporte frontal para encher
canelas. A lançadeira é de barquinha.
Está pintada de preto com desenhos a ouro. O topo do braço é
em prata com gravura de um ramo de videira com 2 cachos de
uva, 10 parras, 13 gavinhas e moldura de laços. A tampa da
zona de lubrificação dos diversos elementos do braço é,
também, em prata e com os mesmos motivos cinzelados.
Oferta de Hélder Marques e José Filipe, de Mafra.
GEAL 553 Etn.: Máquina de costura FRISTER &
ROSSMANN em ferro e madeira.
Manufactura: Berlim, Alemanha
Idade: Anterior a 1914, provavelmente, Século XIX
Tem braço com 2 pinos de carretel, barra de suporte de agulha,
guia de linha, porta-agulhas, barra de suporte de sapatilha,
sapatilha e alavanca de sapatilha. Não apresenta esticador de
fio. A manivela-volante é de mão com maceta em madeira. O
rebobinador é grande e frontal.
Não tem desenhos decorativos mas apenas duas chapas, uma
do vendedor que diz “Máquinas de costura de todos os
sistemas. Reparações. Antiga Casa Peixoto (1891) José da
Mata Pereira. Torres Vedras” e outra do construtor
“NAEHMASCHINEN FABRIK VORM FRISTER & ROSSMANN.
FABRIK MARVE ACTIEN-GESELISCHAFT. BERLIN RF”.
Não tem pedal, roda transmissora, correia de transmissão nem
mesa de suporte. É totalmente manual.
Oferta de Rosa Conceição Gomes, Seixal.
Comercializada por José da Mata Pereira, Torres Vedras.
GEAL 936 Etn.: Máquina de costura KAISER 415165
Manufactura: Kaiserslautern, Alemanha
Idade: Século XIX. O número de série indica datação anterior a 1890.
Em ferro, apoiada em mesa com tampo de madeira e pés
de ferro. Accionada por pedal
ligado à manivela-volante através de correia decabedal.
Tem uma chapa que diz “PFÄLZISCHE / A H MASCHINEN &
FAHRRÄDERFABRIK / VORM / GEBRÜDERKAYSER / KAISERSLAUTERN”,
com dois ramos de loureiro, duas coroas ligadas por uma fita
e uma águia.
GEAL 569 Etn.
Idade: Século XX, década de 40.
Máquina de costura. Brinquedo em lata.
Tamanho: 12x15x5 cm.
Oferta de Maria de Lourdes Alves.
GEAL 1429 Etn.: Máquina de costura SINGER C93
Manufactura: “Singer Manufacturing Co.”, Wittenberg, Prússia
(Alemanha)
Ano de fabrico: 1905
É uma máquina, em ferro, com manivela-volante e braço com
bobinador frontal, 1 pino de carretel, esticador e guia de linha,
porta-agulha, pé, agulha, lançadeira de barquinha e canela.
Tem mesa de apoio com tampo e gaveta de madeira, roda
pedaleira, pedal e correia de transmissão. A cabeça da máquina
é pintada a preto com desenhos em amarelo, ouro e prata, com
desenho de uma esfinge.
Comercializada por “Santos e Beirão & Cª. Lisboa”.
Oferta de Álvaro Matos, de Vale Covo .
SINGER 29K1, F4351375
Manufactura: Clydebank, Escócia
Ano de fabrico: 1910
Máquina de sapateiro
pertença da firma LouriGon. É
em ferro, com pintura a ouro.
GEAL 566 Etn.
Idade: Século XX, década de 40.
Máquina de costura. Brinquedo em lata.
Tamanho: 12x11x7cm.
Oferta de Maria de Lourdes Alves.
Isabel Mateus e Horácio Mateus
Boletim 10 11/2008
Boletim 10 11/2008
www.museulourinha.org
sábado, 25 de abril de 2009
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Estabelecimento (fora) de moda com odor a museu
A Casa Girão, estabelecimento de moda, em plena Baixa setubalense, continua a resistir, 51 anos após a fundação, ao pronto-a-vestir, sendo hoje, reconhece um dos proprietários, “mais museu do que loja”.
No tempo do pronto-a-vestir, em que modistas e alfaiates caíram em desuso, há um estabelecimento de moda em Setúbal que insiste, há mais de meio século, em vender tecidos a metro, medidos em cima de balcões de madeira, cujos tampos escondem pequenas gavetas que já guardaram artigos de retrosaria.
O odor a passado não se fica por aí. Estende-se pela forma como os manequins são vestidos, com panos soltos, que mãos habilidosas transformam, aparentemente, em peças de vestuário. Também pelas prateleiras recheadas de maços de fazendas, algumas das quais da época da fundação da casa, entre elas a que os comerciantes, antes do 25 de Abril, eram obrigados, por lei, a ter à venda. Não admira, pois, que forasteiros ao passarem em frente à “Girão” - é a ela que nos referimos - parem, com olhar de espanto, e peçam para entrar... e ver de olhos arregalados.
Por tudo isto, um dos fundadores desta raridade - fotógrafo nas horas vagas - não hesita em afirmar que este local de comércio é mais museu do que loja e que somente com subsídios sobreviveria.
Único estabelecimento em Setúbal, cujos manequins são vestidos com a “arte antiga”, que o pronto-a-vestir atirou para fora de moda, a Casa Girão – que em 1 de Outubro de 2003 comemorou as bodas de ouro – vai definhando, é o termo, impotente à força dos ventos da modernidade, onde tudo é comprado já feito, a dispensar tempo perdido em provas e a folhear figurinos.
José de Oliveira Pinho – 79 anos, nascido nas Fontainhas – um dos dois fundadores do estabelecimento, o único vivo, não tem dúvidas, quando afirma, voz embargada, olhos espelhados de lágrimas reprimidas para não rolarem pelo rosto sereno, que a “salvação da casa passava por subsídios”.
Mas, logo, ciente da realidade, adianta uma pergunta, em forma de quem sabe a resposta: “Mas onde é que eles estão?!”
Ao falar em subsídios, Oliveira Pinho não o faz porque está na moda, nem por defender o que quase se tornou instituição nacional. É o dia-a-dia, que os olhos lhe mostram, a porem-lhe as palavras na boca, ao ver, principalmente, em época de férias, os forasteiros pararem “boquiabertos em frente do estabelecimento”, pedirem para entrar e “admirarem as prateleiras recheadas de maços de tecidos, alguns do tempo da fundação da casa”.
De fora, aos menos atentos, a loja pode parecer mais um estabelecimento, igual a tantos outros de venda de artigos de vestuário, mas basta transpor a porta e olhar em redor, com olhos de ver, para perceber que quando o proprietário fala em museu não exagera.
Ele próprio (se) questiona “quantos jovens e crianças sabem que há alguns anos não havia fatos, calças e vestidos prontos a serem comprados e usados quase de imediato, que a roupa era quase toda mandada fazer em alfaiates e modistas”.
O estabelecimento, que antes de ser loja de fazendas, foi talho – visível nos mármores que ainda ostenta - e serviu de comércio a conhecida marca de máquinas de costura, 'cheira', efectivamente, a museu, não apenas pelas prateleiras repletas de tecidos – alguns que já nem se fabricam - vendidos à necessidade de quem compra e medidos com metro de madeira, mas pelos próprios balcões - com gavetinhas, por baixo do tampo, que já guardaram artigos de retrosaria - e pela forma própria de vestir os manequins com tecidos soltos, que mãos engenhosas transformam, aparentemente, em peças de vestuário.
Mas o estabelecimento não é apenas a loja minúscula que está à vista. Por trás, com separação de porta, há um pequeno armazém, também ele com aroma de saudade. Em mais prateleiras, há mais peças, muitas, de tecidos e caixas e caixas de botões, que não foram vendidos quando ainda eram comprados.
Tentativas falhadas
A Casa Girão, a exemplo de outras do género, algumas das quais acabaram, entretanto, por fechar, começou a sentir, de forma mais acentuada, a crise entrar pela porta, quando as grandes superfícies comerciais apareceram em Setúbal, com argumentos maiores, até então desconhecidos na cidade, a fazer concorrência ao pequeno comércio.
Mas, afirma Oliveira Pinho, “já antes, há coisa de 30 anos”, o esboço do retrato actual ganhava os primeiros traços.
Nessa altura, a 'Girão' procurou adaptar-se às circunstâncias e, nunca abdicando da venda de tecidos a metro, optou, em paralelo, pela comercialização de outros artigos, como camisas de homem e fatos de banho de senhora, mas o “espaço exíguo da loja, sem sítio para provas”, pontapeou as esperanças para a rua da desistência.
Mesmo assim, até porque as “outras lojas que vendiam a metro acabaram ou transformaram-se”, a 'Girão' não atirou a toalha ao chão, continuando de portas abertas, apesar de haver “dias sem um único cliente”.
Bailes de finalistas e casamentos
Por isso mesmo, porque os clientes escasseiam - ao ponto de em Julho o proprietário não ter levado “um tostão para casa” - é preciso aproveitar todos os dias, “procurar ganhar para as despesas que não encurtam”, a 'Girão', este ano, contrariamente ao que sempre aconteceu, não encerrou para férias de 15 de Agosto a 15 de Setembro.
A estratégia, que, salienta Oliveira Pinho, contou com a “compreensão do empregado, na casa há quase 40 anos”, não resultou.
Perante este cenário, construído pelo acumular de desilusões, reflectidas na fita da caixa registadora que não vê forma de ficar gasta, a Casa Girão pode deixar de o ser, num epílogo de sonho que chegou a ser verdade.
Até lá, a esperança vai sendo renovada, diariamente, por patrão e empregado, com o caminhar constante, de passos curtos, entre o balcão e a porta, na ânsia de ver aparecer um cliente, antes das festas de finalistas!
Nessas alturas, a “faixa etária dos clientes, maioritariamente senhoras, desce” e, à loja, “vem gente jovem que quer aparecer no baile vestida de forma original”.
No resto do ano, pelos mesmos motivos, “sucede, de maneira espaçada, o mesmo com os convidados dos casamentos”.
A pensar, essencialmente, nestes casos especiais, a 'Girão' dispõe, sempre, de figurinos actualizados, tendo já comprado os da época Outono/Inverno. É que, “muitas vezes”, explica Oliveira Pinho, as “pessoas quando entram no estabelecimento não sabem bem o que querem e vendo modelos actuais têm a vida facilitada”.
Naturalmente, os tecidos também foram adquiridos. O risco, afinal, sempre foi uma constante do negócio e se “mesmo acompanhando a moda é o que é”, o que seria se tal não acontecesse.
E depois do adeus?
Oliveira Pinho, por mais voltas que dê à cabeça, não encontra forma de a loja não vir a encerrar as portas. O trespasse e a venda são soluções que, atendendo ao local e ao espaço –além da loja, os dois andares de cima também são da 'Girão' – pequeno para o ramo a que se dedica, mas, provavelmente, a servir para outra actividade, não devem ser difíceis de encontrar.
Ao falar do assunto, porém, Oliveira Pinho deixa, outra vez, a emoção transparecer, na voz presa na garganta e nos olhos húmidos, pelo fim do projecto sonhado há mais de meio século, é verdade, mas, também, pela incerteza quanto ao futuro do empregado.
O empregado, afiança, “tem de receber o mesmo” do que ele e do que a sócia – viúva do homem que, com ele, fez da 'Girão' a “casa de referência que sempre foi” – “por uma questão de justiça e de moral”.
Quanto ao recheio, não tem dúvidas, “não vale nada”, que, “agora, nem os ciganos compram os restos de tecidos para os negociar, já vendem pronto-a-vestir”.
Depois, pergunta e responde, em voz sumida, como se falasse consigo próprio, “quem é que compra, por exemplo, tecido para mandar fazer um fato, quando por menos dinheiro, e sem perdas de tempo com provas, pode ter um logo feito? Nem eu”.
A propósito, lembra que, há tempos, lhe ofereceram um corte de fazenda para um e que “só no alfaiate ficaram 25 contos, dinheiro para poder, então, comprar quase dois, prontos a vestir”.
Por tudo isto, não o “surpreende que as fábricas de têxteis estejam a encerrar e que as lojas tenham amontoados de tecidos, alguns, os mais antigos, vendidos apenas, de longe em longe, a retalho, aos ranchos folclóricos”.
Com a certeza de que os tempos que já foram melhores não voltam, Oliveira Pinho, enquanto espera pelos bailes de finalistas, espreita a porta, na esperança de ver entrar uma senhora que queira ir a um casamento com a certeza de que o vestido que leva é único, de que um rancho folclórico precise de um retalho ou que forasteiros lhe peçam para visitar um estabelecimento de moda... fora de moda, quase museu.
O nascer do sonho
A Casa Girão, inaugurada em 1 de Outubro de 1953, começou a ser sonhada por José de Oliveira Pinho e por Cipriano Martins, já falecido, quando ambos trabalhavam numa loja, no Largo da Ribeira Velha.
Oliveira Pinho, que entrou para o estabelecimento – conhecido como a 'loja das bolas' - do padrinho, aos 11 anos, por “especial favor, sem ordenado, para aprender”, deixou a casa, que, também, “vivia fase menos boa”, passados 17, a ganhar 600 escudos mensais.
Mesmo tendo em conta que na altura a importância valia incomparavelmente mais do que hoje, não dava para juntar grande coisa. Por isso, ele e o futuro sócio tiveram de pedir, emprestados, 50 contos cada um.
Pelo trespasse do estabelecimento de venda de máquinas de costura, na Antão Girão, onde instalaram a loja, que ganhou o nome à rua, pagaram 30 contos e, volvidos cinco anos, embora, de início, os “apuros fossem pequenos”, compraram, por 90, os três andares do prédio.
Ainda estavam para vir, sem se vislumbrarem, os tempos de se olhar para a Casa Girão como olhos – e respeito - de quem observa um museu.
Artigos obrigatórios
Dos tecidos em prateleira, na 'Girão' – alguns já nem se fabricam, do tempo da fundação da casa – há os que, antes do 25 de Abril, os estabelecimentos comerciais eram obrigados, por lei, a ter.
Eram os chamados 'artigos tabelados' - chitas, riscados, pano cru –, referenciados com um rótulo vermelho e verde e loja que o não tivesse, lembra Oliveira Pinho, era multada, sendo que a “fiscalização era feita por agentes da PSP, prepotentes, sem qualquer preparação”.
A Casa Girão, também nisso, é um museu.
Tal patrão, tal empregado
A exemplo de Oliveira Pinho, o empregado – António Duarte Alves, de 49 anos – começou a trabalhar aos 11, mantendo-se, desde então, na 'Girão'.
Tal como o patrão, continua a atender os clientes de gravata, como era hábito no tempo em que a loja começou a “ser casa de referência”.
Um fotógrafo entre tecidos
Uma das grandes paixões de Oliveira Pinho, além dos tecidos, é a fotografia, com participação em cerca de uma vintena de salões, publicado um livro -'Rio Sado/ Ouro Azul' – e tendo outro na forja.
'Rio Sado- Ouro Azul', editado em 1996, é composto por 93 fotografias, a cores, todas legendadas.
O próximo 'álbum', com fotos obtidas nos anos 60 e 70, anteriores às inseridas no primeiro livro, todas a preto e branco, também ligadas ao Sado e às suas gentes, “mostram a escravidão em que viviam os que, no tempo da ditadura, dependiam do rio”.
Sem querer levantar muito a 'ponta do véu', o artista revela que o livro “deve sair, se tudo correr normalmente, este ano, editado pela Universidade Popular Bento de Jesus Caraça”.
In "www.mun-setubal.pt"
No tempo do pronto-a-vestir, em que modistas e alfaiates caíram em desuso, há um estabelecimento de moda em Setúbal que insiste, há mais de meio século, em vender tecidos a metro, medidos em cima de balcões de madeira, cujos tampos escondem pequenas gavetas que já guardaram artigos de retrosaria.O odor a passado não se fica por aí. Estende-se pela forma como os manequins são vestidos, com panos soltos, que mãos habilidosas transformam, aparentemente, em peças de vestuário. Também pelas prateleiras recheadas de maços de fazendas, algumas das quais da época da fundação da casa, entre elas a que os comerciantes, antes do 25 de Abril, eram obrigados, por lei, a ter à venda. Não admira, pois, que forasteiros ao passarem em frente à “Girão” - é a ela que nos referimos - parem, com olhar de espanto, e peçam para entrar... e ver de olhos arregalados.
Por tudo isto, um dos fundadores desta raridade - fotógrafo nas horas vagas - não hesita em afirmar que este local de comércio é mais museu do que loja e que somente com subsídios sobreviveria.
Único estabelecimento em Setúbal, cujos manequins são vestidos com a “arte antiga”, que o pronto-a-vestir atirou para fora de moda, a Casa Girão – que em 1 de Outubro de 2003 comemorou as bodas de ouro – vai definhando, é o termo, impotente à força dos ventos da modernidade, onde tudo é comprado já feito, a dispensar tempo perdido em provas e a folhear figurinos.
José de Oliveira Pinho – 79 anos, nascido nas Fontainhas – um dos dois fundadores do estabelecimento, o único vivo, não tem dúvidas, quando afirma, voz embargada, olhos espelhados de lágrimas reprimidas para não rolarem pelo rosto sereno, que a “salvação da casa passava por subsídios”.
Mas, logo, ciente da realidade, adianta uma pergunta, em forma de quem sabe a resposta: “Mas onde é que eles estão?!”
Ao falar em subsídios, Oliveira Pinho não o faz porque está na moda, nem por defender o que quase se tornou instituição nacional. É o dia-a-dia, que os olhos lhe mostram, a porem-lhe as palavras na boca, ao ver, principalmente, em época de férias, os forasteiros pararem “boquiabertos em frente do estabelecimento”, pedirem para entrar e “admirarem as prateleiras recheadas de maços de tecidos, alguns do tempo da fundação da casa”.
De fora, aos menos atentos, a loja pode parecer mais um estabelecimento, igual a tantos outros de venda de artigos de vestuário, mas basta transpor a porta e olhar em redor, com olhos de ver, para perceber que quando o proprietário fala em museu não exagera.
Ele próprio (se) questiona “quantos jovens e crianças sabem que há alguns anos não havia fatos, calças e vestidos prontos a serem comprados e usados quase de imediato, que a roupa era quase toda mandada fazer em alfaiates e modistas”.
O estabelecimento, que antes de ser loja de fazendas, foi talho – visível nos mármores que ainda ostenta - e serviu de comércio a conhecida marca de máquinas de costura, 'cheira', efectivamente, a museu, não apenas pelas prateleiras repletas de tecidos – alguns que já nem se fabricam - vendidos à necessidade de quem compra e medidos com metro de madeira, mas pelos próprios balcões - com gavetinhas, por baixo do tampo, que já guardaram artigos de retrosaria - e pela forma própria de vestir os manequins com tecidos soltos, que mãos engenhosas transformam, aparentemente, em peças de vestuário.Mas o estabelecimento não é apenas a loja minúscula que está à vista. Por trás, com separação de porta, há um pequeno armazém, também ele com aroma de saudade. Em mais prateleiras, há mais peças, muitas, de tecidos e caixas e caixas de botões, que não foram vendidos quando ainda eram comprados.
Tentativas falhadas
A Casa Girão, a exemplo de outras do género, algumas das quais acabaram, entretanto, por fechar, começou a sentir, de forma mais acentuada, a crise entrar pela porta, quando as grandes superfícies comerciais apareceram em Setúbal, com argumentos maiores, até então desconhecidos na cidade, a fazer concorrência ao pequeno comércio.
Mas, afirma Oliveira Pinho, “já antes, há coisa de 30 anos”, o esboço do retrato actual ganhava os primeiros traços.
Nessa altura, a 'Girão' procurou adaptar-se às circunstâncias e, nunca abdicando da venda de tecidos a metro, optou, em paralelo, pela comercialização de outros artigos, como camisas de homem e fatos de banho de senhora, mas o “espaço exíguo da loja, sem sítio para provas”, pontapeou as esperanças para a rua da desistência.
Mesmo assim, até porque as “outras lojas que vendiam a metro acabaram ou transformaram-se”, a 'Girão' não atirou a toalha ao chão, continuando de portas abertas, apesar de haver “dias sem um único cliente”.
Bailes de finalistas e casamentos
Por isso mesmo, porque os clientes escasseiam - ao ponto de em Julho o proprietário não ter levado “um tostão para casa” - é preciso aproveitar todos os dias, “procurar ganhar para as despesas que não encurtam”, a 'Girão', este ano, contrariamente ao que sempre aconteceu, não encerrou para férias de 15 de Agosto a 15 de Setembro.
A estratégia, que, salienta Oliveira Pinho, contou com a “compreensão do empregado, na casa há quase 40 anos”, não resultou.
Perante este cenário, construído pelo acumular de desilusões, reflectidas na fita da caixa registadora que não vê forma de ficar gasta, a Casa Girão pode deixar de o ser, num epílogo de sonho que chegou a ser verdade.
Até lá, a esperança vai sendo renovada, diariamente, por patrão e empregado, com o caminhar constante, de passos curtos, entre o balcão e a porta, na ânsia de ver aparecer um cliente, antes das festas de finalistas!
Nessas alturas, a “faixa etária dos clientes, maioritariamente senhoras, desce” e, à loja, “vem gente jovem que quer aparecer no baile vestida de forma original”.
No resto do ano, pelos mesmos motivos, “sucede, de maneira espaçada, o mesmo com os convidados dos casamentos”.
A pensar, essencialmente, nestes casos especiais, a 'Girão' dispõe, sempre, de figurinos actualizados, tendo já comprado os da época Outono/Inverno. É que, “muitas vezes”, explica Oliveira Pinho, as “pessoas quando entram no estabelecimento não sabem bem o que querem e vendo modelos actuais têm a vida facilitada”.
Naturalmente, os tecidos também foram adquiridos. O risco, afinal, sempre foi uma constante do negócio e se “mesmo acompanhando a moda é o que é”, o que seria se tal não acontecesse.
E depois do adeus?
Oliveira Pinho, por mais voltas que dê à cabeça, não encontra forma de a loja não vir a encerrar as portas. O trespasse e a venda são soluções que, atendendo ao local e ao espaço –além da loja, os dois andares de cima também são da 'Girão' – pequeno para o ramo a que se dedica, mas, provavelmente, a servir para outra actividade, não devem ser difíceis de encontrar.
Ao falar do assunto, porém, Oliveira Pinho deixa, outra vez, a emoção transparecer, na voz presa na garganta e nos olhos húmidos, pelo fim do projecto sonhado há mais de meio século, é verdade, mas, também, pela incerteza quanto ao futuro do empregado.
O empregado, afiança, “tem de receber o mesmo” do que ele e do que a sócia – viúva do homem que, com ele, fez da 'Girão' a “casa de referência que sempre foi” – “por uma questão de justiça e de moral”.
Quanto ao recheio, não tem dúvidas, “não vale nada”, que, “agora, nem os ciganos compram os restos de tecidos para os negociar, já vendem pronto-a-vestir”.
Depois, pergunta e responde, em voz sumida, como se falasse consigo próprio, “quem é que compra, por exemplo, tecido para mandar fazer um fato, quando por menos dinheiro, e sem perdas de tempo com provas, pode ter um logo feito? Nem eu”.
A propósito, lembra que, há tempos, lhe ofereceram um corte de fazenda para um e que “só no alfaiate ficaram 25 contos, dinheiro para poder, então, comprar quase dois, prontos a vestir”.
Por tudo isto, não o “surpreende que as fábricas de têxteis estejam a encerrar e que as lojas tenham amontoados de tecidos, alguns, os mais antigos, vendidos apenas, de longe em longe, a retalho, aos ranchos folclóricos”.
Com a certeza de que os tempos que já foram melhores não voltam, Oliveira Pinho, enquanto espera pelos bailes de finalistas, espreita a porta, na esperança de ver entrar uma senhora que queira ir a um casamento com a certeza de que o vestido que leva é único, de que um rancho folclórico precise de um retalho ou que forasteiros lhe peçam para visitar um estabelecimento de moda... fora de moda, quase museu.
O nascer do sonho
A Casa Girão, inaugurada em 1 de Outubro de 1953, começou a ser sonhada por José de Oliveira Pinho e por Cipriano Martins, já falecido, quando ambos trabalhavam numa loja, no Largo da Ribeira Velha.
Oliveira Pinho, que entrou para o estabelecimento – conhecido como a 'loja das bolas' - do padrinho, aos 11 anos, por “especial favor, sem ordenado, para aprender”, deixou a casa, que, também, “vivia fase menos boa”, passados 17, a ganhar 600 escudos mensais.Mesmo tendo em conta que na altura a importância valia incomparavelmente mais do que hoje, não dava para juntar grande coisa. Por isso, ele e o futuro sócio tiveram de pedir, emprestados, 50 contos cada um.
Pelo trespasse do estabelecimento de venda de máquinas de costura, na Antão Girão, onde instalaram a loja, que ganhou o nome à rua, pagaram 30 contos e, volvidos cinco anos, embora, de início, os “apuros fossem pequenos”, compraram, por 90, os três andares do prédio.
Ainda estavam para vir, sem se vislumbrarem, os tempos de se olhar para a Casa Girão como olhos – e respeito - de quem observa um museu.
Artigos obrigatórios
Dos tecidos em prateleira, na 'Girão' – alguns já nem se fabricam, do tempo da fundação da casa – há os que, antes do 25 de Abril, os estabelecimentos comerciais eram obrigados, por lei, a ter.
Eram os chamados 'artigos tabelados' - chitas, riscados, pano cru –, referenciados com um rótulo vermelho e verde e loja que o não tivesse, lembra Oliveira Pinho, era multada, sendo que a “fiscalização era feita por agentes da PSP, prepotentes, sem qualquer preparação”.
A Casa Girão, também nisso, é um museu.
Tal patrão, tal empregado
A exemplo de Oliveira Pinho, o empregado – António Duarte Alves, de 49 anos – começou a trabalhar aos 11, mantendo-se, desde então, na 'Girão'.
Tal como o patrão, continua a atender os clientes de gravata, como era hábito no tempo em que a loja começou a “ser casa de referência”.
Um fotógrafo entre tecidos
Uma das grandes paixões de Oliveira Pinho, além dos tecidos, é a fotografia, com participação em cerca de uma vintena de salões, publicado um livro -'Rio Sado/ Ouro Azul' – e tendo outro na forja.
'Rio Sado- Ouro Azul', editado em 1996, é composto por 93 fotografias, a cores, todas legendadas.
O próximo 'álbum', com fotos obtidas nos anos 60 e 70, anteriores às inseridas no primeiro livro, todas a preto e branco, também ligadas ao Sado e às suas gentes, “mostram a escravidão em que viviam os que, no tempo da ditadura, dependiam do rio”.
Sem querer levantar muito a 'ponta do véu', o artista revela que o livro “deve sair, se tudo correr normalmente, este ano, editado pela Universidade Popular Bento de Jesus Caraça”.
In "www.mun-setubal.pt"
Alfaiate, uma profissão que vai desaparecendo
A liberalização dos têxteis e a alteração na forma de vestir são razões apontadas pelo decréscimo na procura dos alfaiates. Actualmente, os mestres alfaiates que existem são poucos e,
não existem jovens a entrar na profissão.
Não fosse dedicar-se, em parceria com a esposa, também à confecção já Francisco Vidal não sobrevivia da alfaiataria. “Desde 2007 se não tivesse a parte da confecção era muito difícil. Ganhava para as despesas e pouco mais”, adianta o alfaiate joanense.
Francisco Vidal considera que vai haver sempre alguma coisa para fazer mas “nunca mais vai ser um actividade rentável”. De resto, o organizador do 19º Encontro Nacional de Mestres Alfaiates, Carlos Godinho dá 20 anos à arte da alfaiataria para desaparecer.
Aliás, actualmente, os alfaiates não proliferam como outrora. Francisco Vidal tem apenas 49 anos e, será um dos mais novos do concelho. Pois, os “mestres” que se dedicam a esta actividade são usualmente mais velhos.
Godinho aventou que deverão existir “20 ou 30” alfaiates na faixa etária dos 40 anos.
Vidal diz que nos últimos cinco anos a actividade começou a “abrandar” devido à liberalização dos têxteis e, que nos últimos dois anos diminuiu cerca de 80%.
“Acho que este decréscimo da procura dos alfaiates tem a ver com a moda e, hoje em dia é propício ir ao pronto a vestir”, aponta Francisco Vidal apontando que as pessoas já não optam tanto pelo clássico e, preferem por exemplo as gangas.
O mesmo disse Carlos Godinho, avançando que há uns anos toda a gente tinha o seu fato.
Este alfaiate considera que a indústria do vestuário está muito desenvolvida podendo ser muito perfeita. Mas, “não é roupa feita à medida”. “Há pessoas que gostam de pequenos pormenores e, só recorrendo a nós conseguem”, adianta, acrescentando que os seus clientes são “exigentes a esse nível”.
Actualmente, um alfaiate é procurado por jovens que pretendam um fato para cerimónias, executivos e, pessoas que normalmente usam fato para trabalhar. “Um fato dura muito tempo”, diz.
Numa outra perspectiva e, na tentativa de encontrar as razões do decréscimo da procura dos alfaiates , Francisco Vidal nota que só depois de confeccionada é que o cliente pode ver o resultado final. “As pessoas estão agora mais habituadas a ir à loja, ver, experimentar e compram se lhes agrada”, afirma, sublinhando que há dez anos atrás nas épocas festivas toda a gente queria roupa nova o que agora não acontece.
Por outro lado, Vidal refere que foi tentando aliar o tradicional ao moderno de modo a facilitar as tarefas.
Godinho lamentou que nunca se tenha criado um estatuto, por exemplo de artesão, para o alfaiate.
A concepção de um fato
Fazer um fato implica uma série de tarefas prévias. Primeiro tiram-se as medidas ao cliente. Depois pegam-se nos moldes e, desenha-se no tecido, seguindo-se o corte das entretelas e dos forros. Há quem coza tudo à mão mas Francisco Vidal diz que cose quase tudo à máquina havendo apenas alguns pormenores que cose à mão. Este hábito foi uma das atitudes que tomou em busca “de um caminho que era a modernidade, de modo a haver mais eficácia”.
A prova do fato vem a seguir e, finalmente os acabamentos. Por isso, fazer um fato poderá levar 20 a 24 horas. “Mas como não é uma coisa standarizada pode demorar mais mas também pode demorar menos tempo”, salvaguarda Vidal, explicando que muitas vezes, um pequeno pormenor pode levar a que se demore muito tempo.
Alfaiate há 34 anos, Francisco Vidal começou a trabalhar no ramo em par-time já que a sua ocupação principal era a indústria têxtil. “Com 15 anos já trabalhava por minha conta”, narra, acrescentando que sempre fez part-times já que trabalhava das 6 às 14 horas.
Inicialmente, começou por fazer apenas calças mas decidiu aprender a fazer casacos. Assim começou a fazer fatos e, faz vestuário quer seja para homem quer seja para senhora.
Por: Alexandra Lopes
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