terça-feira, 23 de novembro de 2010

Baile dos Alfaiates

As festas do Corpo de Deus da cidade e concelho de Penafiel, são conhecidas pelos seus contornos únicos no País!!!
Um desses exemplos são os Baile dos oficios, onde as profissões desfilam e encantam as multidões com os seus Bailes. Desde o baile dos Ferreiros, Pedreiros, Regateiras, Alfaiates, Sapateiros, Pauzinhos, Turcos, entre outros.
Actualmente recuperei o baile dos Pauzinhos.
Mas até há bem pouco tempo realizava-se o Baile dos Alfaiates, que se espera que nos próximos 2 anos, no máximo, volte as ruas, pois a Câmara está a recuperar todos os bailes.
Fotos deste baile não existem  mas tenho a encenação do baile:

"Marchava o Baile, formado por duas alas, que fechava com os seguintes figurantes: mestre, contra-mestre, dois rapazes, uma mulher puxando uma mesa redonda para talhar e outra com flores para distribuir aos vereadores, aquando do desfile da Cavalhada, na véspera do Dia do Corpo de Deus.
Os alfaiates vestiam apuradinhos, chapéu de palha na cabeça, fato preto e colete branco, ao pescoço uma meada de algodão de alinhavar e na lapela uma flor. Na mão direita uma tesoura, a mão esquerda segurava uma pequena cadeira do ofício.
Os dois rapazes de fechar ala, vestiam calças, blusa e cobriam a cabeça com um boné. No fim seguia um homem segurando grande ramo de laranjeira cheio de dourados pomos. A folhagem do ramo  encobria um grande aranhão que descia pela vara quando o homem disparava um dispositivo próprio do baile, era chamada no baile de bicha aranha. o Mestre vestia de chapéu alto, casaca, colete branco, calça prreta bem vincada, empunhando grande tesoura, apoiada no ombro como uma espada, e que servia para talhar a obra. O contra-mestre apresentava-se de chapéu de côco, fraque, colete branco, calça bm vincada, ao pescoço uma fita de medida.
Junto do Baile marcha a música, por contrabaixo, cornetim, trompa, trombone e barítono.
Chegados às ruas da cidade onde actuam, começa o baile com os alfaiates a cantar com grandes gestos:

"Ilustres Vereadores:
D`alfaiates o bailado
Vos trazemos aqui hoje;
recebei-o com agrado.

É popular esta festa;
e recorda antigas eras;
que ela muito agrade ao povo
nós desejamos deveras.

Mestre:
oficiais meus briosos,
assentar-vos já podeis!
vou cortar-vos muita obra;
é útil que trabalheis!

Alfaiates: (refrão do baile)
Vamos a isto rapazes!
do trabalho deu a hora;
toca a sentar que o mestre
assim nos manda agora.

Se alguém for até Lisboa
e a Santarém chegar!
Que fuja que a feia bicha
anda a todos assustar!

Eram quarenta alfaiates,
todos, todos em campanha
com as tesouras em punho
para matar uma aranha!
(fim do refrão)

Mestre:
Rapaz! vai buscar o ferro
ó rapaz anda depressa;
que eu não quero garotices!
trá-lo antes que arrefeça!

Alfaiates para o rapaz:
Faze o que o mestre manda,
sê diligente , procura;
Verás como depois canta
Recebendo a molhadura.

(cantam o refrão de novo)

Mestre para o contra-,mestre:
Senhor contra-mestre vá;
ver o que faz esse mono!
Que esta obra ainda hoje
tem d`ir pra casa do dono.

contramestre responde:
O rapaz é um maroto;
pois só anda no pião!
Precisava que lhe desse
nas orelhas um puxão!

(de novo o refrão....)

Contramestre:
o rapaz aqui trago
por uma orelha filado!
o pião, em vez do ferro,
é que o traz atarefado!

rapaz desculpa-se:
o ferro já estava quente
atirei com ele ao chão
enquanto arrefecia!
pus-me a jogar ao pião!

Contramestre:
o rapaz é um daninho
ele é mesmo um jacaré!
foi Às laranjas do vizinho;
que grande garoto ele é!

Alfaiates:
Senhor mestre, senhor mestre,
perdão ao delinquente;
visto que o rapaz promete
ser agora diligente!

(cantam o refrão)

De repente desce a bicha pela haste da laranjeira!

Mestre aflito:
Meus oficiais às armas!
que a bicha quer`nos saltar!
agulhas, tesouras, tudo
tratemos de a espatifar!

Alfaiates:
Vamos a isto rapazes!
contra aquela bicha feia!
que o rapaz agora viu
em cima da laranjeira!

Mestre ainda:
sei que sois muito valentes
meus oficiais queridos;
na campanha nos mostrastes
uns soldados destemidos!

Alfaiates:
Tivemos enfim a glória!
desta batalha vencer!
sempre fomos corajosos!
valentes até morrer!

Finda assim o baile!!

Tiago Daniel Lopes
tiagodaniel04@hotmail.com

domingo, 31 de outubro de 2010

Os Alfaiates Portugueses estão mais pobres


Faleceu, no dia 2 de Setembro de 2010, o melhor Amigo dos Alfaiates

CARLOS GODINHO era um Homem bom, um grande Homem, com grande energia, alegre, divertido, simpático. Por onde passava fazia rir, estava sempre contente, não sabia dizer não. Amigo do Amigo.


CARLOS GODINHO fazia o que mais gostava, vender e cortar fazenda, trabalhar pelos Alfaiates. Profissão que defendia com todas as suas forças.

Há 21 anos que organizava o Encontro dos Alfaiates, no último fim-de-semana de Maio, com gosto e dedicação. Um Domingo bem passado onde nos conhecíamos melhor, trocávamos ideias, contavam-se histórias, defendia-se a profissão.

Com isto, GODINHO juntava os Alfaiates da Cidade e da Aldeia, os ricos e os pobres, os bons e os menos bons. Nesse dia éramos simplesmente Alfaiates. Todos iguais.

Vais ficar no nosso coração
Obrigado Amigo e até sempre.

Carlos e Avelino Ferreira

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A propósito de “Pronto-a-vestir” - A História por detrás das Estórias

Aqui há uns tempos, instado à regularização da minha situação tributária, desloquei-me a uma repartição de Finanças. Aí chegado, e enquanto aguardava a minha vez, entretive-me a fazer algo que raramente faço: a “olhar para os outros”, melhor dizendo, a observar a indumentária de cada um. E, meus amigos, que Carnaval! Desde camisas demasiado largas nos ombros a outras demasiado curtas nas mangas; desde calças três tamanhos acima a outras dois tamanhos abaixo; desde bainhas acima do tornozelo a outras a arrastar pelo chão; desde calças a apertarem a meio do cú a outras a fazerem fronteira com o peito; desde sapatos autênticas barcaças a sandálias a deixarem os dedos a bater no chão… Enfim, entre uns mais sujos e outros mais limpos, entre uns mais arranjados e outros com total falta de gosto, parecia eu que estava num circo do século XIX em pleno número de exibição de freaks e de mutantes, eu que por acaso nesse dia também estava de chinelos e com umas calças esgaçadas! …

Mas o que verdadeiramente me chamou a atenção foi que, independentemente do asseio, das marcas, do gosto e do corpo de cada um, praticamente ninguém estava a usar roupa ajustada ao seu corpo, às suas “medidas”, parecendo todos contudo muito satisfeitos dentro das suas peças, algumas delas desconfio que bem caras. Ninguém estava a usar roupa de corte, muito menos de bom corte. Naquele microcosmo, só havia Pronto-a-vestir! E a percepção desta realidade, na qual nunca reparara - porque também eu pertenço á geração do pronto-a-vestir -, não só de repente se me tornou clara e luminosa, como ainda mais se acentuou quando me recordei de algumas fotografias do século XIX e da primeira metade do século XX, todas elas bem reveladoras de como nessa época as pessoas faziam questão de se apresentar em público com aprumo, com garbo, com roupa “á medida”, mandada fazer escrupulosamente e a preceito. E diga-se que não eram só os ricos a aparecer com esta elevação, porque também os mais humildes, nas suas obrigações sociais, apresentavam-se o mais impecavelmente vestidos possível, dando descanso, por um dia que fosse, aos seus tamancos, se não mesmo aos seus andrajos.

Entendamo-nos. Aquilo para que eu chamo a atenção não é para a forma como cada um veste. Quanto a isso, nada tenho a dizer. Sou, por respeito à diferença, tolerante para com todas as modas, tendências, “tribos”. O que é surpreendente é como actualmente a maioria das pessoas veste mal, mesmo quando ostenta grandes marcas, parecendo, aliás, em muitos casos, que a roupa que usam foi roubada, ou, pelo menos, definitivamente não dimensionada/feita para o seu corpo. A razão já sabem qual é. Nos dias de hoje, praticamente todos nós vestimos do chamado pronto-a-vestir. São muito poucas as pessoas que ainda mandam fazer a roupa no alfaiate ou na costureira. Não só porque é mais dispendioso e também mais demorado, mas sobretudo porque para as gerações mais novas, nascidas nos últimos trinta, quarenta anos, a questão nem se coloca, não só pelas tendências actuais da moda e pelo estilo casual/desportivo hoje reinante - que tornam inconcebível o recurso a tal prática -, mas talvez, e até mais, porque com o tempo o hábito de ir “tirar as medidas” foi ficando “careta”, anquilosado e definitivamente arredado dos tempos modernos.

O facto é que até aos anos 50 o Pronto-a-vestir era algo pouco difundido e a maior parte das pessoas, que usava um estilo clássico, não tinha outra alternativa que não fosse recorrer primeiro às casas de tecidos e, de seguida, solicitar os serviços de um alfaiate, de uma costureira ou de uma modista. O Pronto-a-vestir e o seu imediatismo não existiam.

Ora a grande diferença entre estas duas modalidades de confecção é que na alfaiataria o cliente tira as medidas primeiro, e só mais tarde, após várias provas, é que vai buscar o fato, a camisa ou o vestido, desta forma adquirindo uma peça ajustada à sua silhueta, feita para si e a contar com as suas imperfeições; não para milhares de seres, imaginados ideal e proporcionalmente perfeitos. A massificação do Pronto-a-vestir é, aliás, traduzida em números, embora muitas vezes já nem isso se verifique, substituídos que foram entretanto por letras: S, M, L, XL. Dou-vos o meu exemplo. De blazer “visto” o 50! Por causa dos ombros. Porque, pelos braços, mais curtos, vestiria e o 48. De modo que quando compro um blazer já sei que tenho que comprar o 50, embora as mãos fiquem quase escondidas nas mangas do casaco. Contudo, se comprar antes o 48, já sei que pareço enfiado numa jaqueta de primeira comunhão. (Aqui descomplexadamente vos revelo o meu drama). De qualquer modo, sempre que questionado a tal respeito, afirmo peremptoriamente que o meu número é o 50!!. Mas é mesmo? Pelo que ainda agora disse o meu número deveria ser um 50 de ombros e um 48 de manga, mas isso não há em lado nenhum… só no alfaiate!

Desta difusão do Pronto-a-vestir várias consequências negativas advieram. Primeiro, o quase desaparecimento da alfaiataria. Depois, o menor aprumo mesmo da parte de quem ainda veste de forma clássica, porque também esses já não vestem roupa por medida; vão antes comprá-la à loja. Mas, sobretudo, a ditadura dramática dos números que, em última instancia, conduz muitas adolescentes a espirais de desequilíbrio, depressão, ansiedade e angústia, totalmente amedrontadas pela ideia de já não se conseguirem meter dentro do “seu” número, e receando a ilação obvia: - “que estão umas baleias!” Recordo a este propósito um anúncio televisivo recente em que uma jovem bastante ansiosa afirma-se preparada, parece-me que após uma dieta, a passar a “prova do botão”, porque, claro, aquele botão seria a final a prova da sua elegância. E pensar na frequência com que até há uns anos atrás as pessoas mandavam apertar ou alargar a sua roupa, num processo natural de ajustamento da roupa ao corpo e às suas metamorfoses…

Como digo muitas vezes, a História não se repete, mas não deixa de laborar continuamente sobre reminiscências do passado. É muito curioso, talvez até inesperado, mas a alfaiataria está hoje de novo na moda, muito por iniciativa, pasme-se, das grandes Empresas de Pronto-a-vestir. Hão-de reparar, por exemplo, no final dos telejornais: entre as marcas que surgem a apoiar a produção encontramos por exemplo esta - Massimo Duti - Personal tailoring. Em muitas lojas da Dielmar, já se veêm modelos com este dístico - Alfaiataria por Medida. Nas lojas Mistic shirt, marca portuguesa com mais de 50 anos, lê-se nas montras esta informação: Fazemos camisas por medida. Insignes personalidades do nosso meio confessam que já só mandam fazer os seus fatos no Rosa & Teixeira – alfaiates. Não configura isto uma lenta mas segura recuperação de hábitos e tradições antigas?

Há cinco anos comprei um blazer que, apesar de ser o 50, me ficava um pouco largo. Não liguei. Resignei-me a usá-lo. Era o 50! Há meses, falando com uma pessoa de mais idade, sugeriu-me que o levasse a um alfaiate para o apertar. Pois bem, amigos, o blazer é outro, e eu próprio fiquei outro!

Paulo Coutinho
paulodavidcoutinho@gmail.com
 In Jornal Beira Vouga

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Alfaiates não resistem à moda do pronto-a-vestir

                        
  
        Contam-se pelos dedos de uma mão os mestres com porta aberta na cidade.
 
   Quatro a cinco mestres de alfaiataria, dois em actividade regular, tentam resistir em Viseu, à crise ditada pela moda do pronto a vestir. Uma moda que ganhou novo fôlego a partir da década de setenta e que, aos poucos, vai obrigando muitos a fechar as portas por falta de clientela.
    "O Governo tem de aproveitar os artistas ainda no activo para incutir nos jovens o gosto por esta actividade. Uma tarefa que terá de passar pela atribuição de incentivos financeiros que viabilizem a planificação de acções de formação", sugere Avelino Ferreira, um dos alfaiates da cidade, que promete resistir enquanto as forças não o abandonarem.
    Natural de Vale de Cambra, no distrito de Aveiro, Avelino Ferreira, 63 anos, passou quase toda a sua vida entre Portugal e Luanda (Angola), a confeccionar fatos por medida. Alturas houve, em anos recuados, em que chegou a produzir dez por mês. "Agora se fizer 20 por ano já é uma boa média", diz com tristeza.
       300 euros por fato
      Apesar da crise que afecta o sector, Avelino Ferreira consegue ver uma luz ao "fundo do túnel": "Tenho um filho, licenciado em Gestão de Empresas, que decidiu pôr o canudo de lado e abraçar esta belíssima profissão. Está em Londres a fazer formação", partilha com visível orgulho.
     A exemplo de outros colegas, Avelino Ferreira acredita que os alfaiates ainda têm futuro. "Os fatos feitos por medida terão sempre mercado" garante o empresário, que elenca três segmentos de clientes fiéis: as pessoas que exigem qualidade no talho, na confecção, nos tecidos e acessórios; os que têm dificuldade em encontrar no pronto a vestir fatos que  lhes fique bem e os portadores de deficiência.
    Um fato feito por medida podia custar, há algumas décadas, 300 escudos. " Hoje aquele dinheiro daria para comprar um botão. Um fato razoável não custa menos de 300 euros. E se o tecido for de muita qualidade pode ir aos mil euros e mais", declara Avelino Ferreira.


Centena e meia no país
Avelino Ferreira calcula que o número de
        alfaiates no activo não ultrapasse, actualmente, 
a centena e meia em todo o país.
Cerca de metade estarão hoje em Viseu,
         com as respectivas famílias, para participar no 
XVIII Encontro dos Mestres Alfaiates.
Um momento de convívio, entre artesões 
              do mesmo ofício, e de troca de experiências sobre 
os avanços no sector.
          Um momento cultural no Museu de Grão Vasco,
      servirá de "aperitivo", para o almoço regional,
      num restaurante da periferia. "Somos poucos. 
                Temos de estar unidos.Estes encontros ultrapassam, 
    de longe,  o mero convívio.Recordamos os 
primeiros tempos da nossa profissão,
as primeiras máquinas que compramos, 
os clientes famosos que não prescindiam
- e muitos continuam a não prescindir- 
do nosso trabalho.
           Um fato feito à medida é garantia de bem vestir.
Acredito que os bons velhos tempos 
              acabarão por regresssar", vaticina Avelino Ferreira.

 Teresa Cardoso
 in JN

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"O alfaiate é como o barbeiro. Se servir bem, é para a vida"

Maria de Lurdes Almeida, braço direito do marido, Fernando Almeida, na alfaiataria de Aveiro


Diz-se que não há nada como um fato executado a partir de um modelo real. O i falou com os mestres nacionais na arte do corte e costura e tirou a prova de que estão cá para ficar.

Hoje em dia é fácil encontrar fatos por medida em lojas como a Massimo Dutti ou a Hugo Boss, mas se procura o real deal o melhor é ir à origem da confecção. Na década de 30 eram os alfaiates os responsáveis pelo trajar clássico da alta roda nacional. Em 2010 são os filhos desses mesmos artesãos a dar continuidade a uma arte em vias de extinção. A escassez de técnicos especializados é hoje o elefante na sala de qualquer ateliê. São por isso os habitués (e jovens com sentido estético apurado) - que não abdicam de ter no armário peças únicas e personalizadas - que dão alento à sobrevivência do corte e costura por medida. "Quer um fato bem feito? Vá a um alfaiate!", diz João Teodósio, que sabe do que fala.

João Milheiro Teodósio. A falta de mão-de-obra contribuiu para o encerramento da alfaiataria com o mesmo nome. "Trabalho não falta, já não há é pessoal." Aos 73 anos está reformado, mas por "amor à profissão" - a única que conhece desde os 11 anos - mantém o ateliê em casa. A clientela, "homens nos 50 anos, porque a mocidade já não liga a estas coisas", é seleccionada, mas deixa saudades dos tempos em que bastava passar nos Pastéis de Belém, perguntar pelo "João alfaiate e toda a gente sabia onde era". João promete executar um fato clássico, "à antiga, feitinho à mão", em duas semanas. Mas só porque está sozinho, porque antes ele e a mulher, "a melhor costureira de Lisboa", eram a "dupla temível" da alfaiataria nacional. Rápidos, eficientes e perfeitos.

Travessa de Santo António, 23, Lisboa;
Tel: 213 625 280. Preço: 500€

Camisaria Pitta. "Somos a camisaria mais antiga da Península Ibérica, com 123 anos de existência." Quem o diz é o Sr. Vasco, responsável pela loja desde 1977 e defensor da ideia de que "um bom fato é como um quadro", sendo o alfaiate o artista por excelência. Excelência é, aliás, o fio condutor da imagem da casa. A oficina tem um leque completo de serviços: tiradas as medidas, resta escolher a fazenda disponível no catálogo da loja e, se for o caso, levar uma camisa que faça pendant. Depois é esperar um mês e meio para conhecer o resultado. E como a história da moda é feita de regressos à origem, nesta alfaiataria o "clássico" é transversal a todas as épocas: "Os fatos que se vendem nas lojas saem de moda rapidamente. Aqui não. Confeccionamos os fatos de sempre e para sempre."

Rua Augusta, 193 2.º, Lisboa;
Tel: 213 427 526; Preço: 2000€

Américo Gonçalves. Américo, o pai, abriu o ateliê em 1973. Hoje são os filhos a dar continuidade ao negócio. Víctor, 52 anos, é um dos mais novos mestres portugueses na arte da costura. Lembra com orgulho uma das páginas do livro de honra da Casa Gonçalves, na qual um rapaz de 19 anos descreveu o seu primeiro fato por medida como uma "experiência fabulosa". Apesar de não impor o seu gosto pessoal aos clientes, admite que prefere que a roupa fique com um aspecto "fofo", fugindo à traça quase exclusivamente clássica da concorrência. Ao contrário de outros colegas de profissão, a procura é de tal forma heterogénea que não lhe permite definir um cliente-tipo. "É que os alfaiates são como os barbeiros. Se servirem bem, é para vida."

Rua Galeria de Paris, 36-1.º Esq. Porto;
Tel: 222 059 695. Preço: 800€

Lourenço & Santos, Lda. Em Outubro, a loja celebra o primeiro centenário. A gerência mudou há uns anos, mas o nome ficou para sempre. Agora, sob a alçada do grupo Diniz & Cruz, é Paula Cruz a dar a cara pela marca. Situada no coração da Baixa lisboeta, pela porta entram diariamente "executivos, bancários e até jogadores de futebol" da nossa praça. O método tradicional (de confecção artesanal) continua a dar cartas nas vendas, mas o semitradicional (com algumas entretelas coladas) é o mais indicado para os clientes apressados. É a diferença entre esperar uma semana e um mês pela execução de um fato por medida. Por enquanto o target é masculino, mas Paula admite "vir a alargar o leque de vendas à roupa feminina por medida". Mas não há pressa. É que a Diniz & Cruz já está no mercado de pronto-a-vestir para mulheres, representada pela marca Dalmata.

Praça dos Restauradores, 47-A e B, Lisboa;
Tel: 213 462 570. Preço: 500€

Fernando Martins Almeida. Aprendeu a ser alfaiate durante a escola primária, mas só depois do serviço militar é que se especializou na confecção industrial para outras marcas. Hoje, aos 60 anos, trabalha em parceria com a mulher, Maria de Lurdes. "Tiro as medidas, faço as provas, o corte e os acertos. Depois a minha mulher fica responsável pela confecção." Homem de dois ofícios, relata com entusiasmo a viagem, há dois anos, a Basileia "para tirar medidas à selecção suíça de hipismo". Trabalha com tecidos importados de Inglaterra e Itália e até tem em stock alguns catálogos "da marca que fornece os tecidos à Casa Branca".

Rua Dias Cainarim, 15, Esgueira, Aveiro;
Tel: 234 311 528 Preço: 700€

Nelma Viana
in Jornal i

domingo, 4 de julho de 2010

sábado, 5 de junho de 2010

XXI Encontro Nacional dos Mestres Alfaiates


A mestria dos alfaiates 

Carrazeda de Ansiães ­recebeu o XXI encontro que reuniu cerca de 53 artesãos oriundos de diversos pontos do País


A arte de fazer trajes por medida tem perdido força, mas os mestres que dão vida a esta profissão continuam mostrar a perfeição e o bom gosto dos fatos que são confeccionados nas típicas alfaiatarias portugueses.
No distrito de Bragança, esta arte tem os dias contados, visto que não há jovens a aprender esta profissão, que foi passando de geração em geração.
Para conviverem e trocarem experiências sobre o negócio, alfaiates de todo o País reúnem-se, anualmente, numa cidade portuguesa. Anteontem, Carrazeda de Ansiães foi o palco do XXI Encontro Nacional dos Mestres Alfaiates, onde estiveram reunidos mais de meia centena de artesãos, oriundos de diferentes ponto do País.
“Já somos uma família. Quem vem uma vez, faz questão de participar sempre”, realça Luís Moutinho, um alfaiate de Carrazeda de Ansiães, que participou na organização do evento.
Aprendeu a arte aos 14 anos e desde então tem-se mantido fiel ao corte e costura à moda artesanal. As técnicas são antigas, mas a evolução dos tempos obrigaram os alfaiates a moldarem-se aos pedidos e, nos dias que correm, tanto costuram para homem, como para mulher. “Antes, o trabalho dos alfaiates era mais para homens, mas, actualmente, tanto faço fatos para homens como para senhoras. Temos que fazer o que aparece”, confessa o artesão.
Também Durbal Carvalho, de 72 anos, afirma, com orgulho, que é ele que veste a mulher, mas lamenta a quebra no volume de encomendas. “Hoje a maioria das pessoas já compra a roupa feita. Nas lojas compra-se um fato por 100 ou 125 euros, eu tenho que levar 150 ou 200 euros, porque faço tudo de forma artesanal e por medida”, realça o alfaiate.
Alfaiates são cada vez mais solicitados para fazer os ajustes à roupa comprada no pronto-a-vestir
A quebra no negócio ronda os 50 por cento, pelo que estes mestres do corte e costura viram-se obrigados a recorrer aos arranjos da roupa que as pessoas já compram feita. “As pessoas já compram a roupa feita, mas cá está o alfaiate para dar o acerto final. Fazer as bainhas, apertar ou alargar”, salienta Luís Moutinho.
Mesmo assim, há clientes fiéis à alfaiataria, que perduram no tempo. “Tenho pessoas que solicitam os meus serviços desde o tempo do meu falecido patrão, ou seja, há mais de 39 anos”, recorda o alfaiate.

Por: Teresa Batista




segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ao Arsénio Alfaiate

Com tanto pronto-a-vestir
Há quem teime em resistir
No limiar do milénio
Numa quase extinta arte
O Arsénio Alfaiate
Bem pode chamar-se um génio.

Junto à praça das palmeiras
Homem de finas maneiras
Até botões prega à mão
Calça, colete, casaco
As componentes dum fato
Cuja marca é distinção.

Fita, tesoura, dedal
Linhas, máquinas a pedal
Quanto basta ao artesão
O resto é competência
Dedicação, experiência
E o lema perfeição.

Hoje, fazer fato à mão
É uma rara profissão
Que enobrece quem a tem
Quando acabar este génio
A quem chamamos Arsénio
Não ficará mais ninguém.

Das profissões liberais
É a que respeito mais
Pois requer carinho e arte
Condenada à extinção
Tem no Arsénio um bastião
Um exímio Alfaiate.


António Tavares Chula
www.chuladeagueda.com

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Alfaiates: arquitectos da elegância (III)



O contorno do molde é traçado diretamente sobre o tecido com um giz de alfaiate. Geralmente se corta cada parte do terno com uma pequena margem de folga. Isso permite que pequenos ajustes sejam feitos no futuro, caso o cliente venha adquirir peso.


STYLUS ET CAETERA

Alfaiates: arquitectos da elegância (II)



Uma vez que as medidas para o seu terno tenham sido tomadas, é preciso então escolher o material da construção: o tipo de tecido. As opções são diversas: linho, lã, algodão, mohair, vicuña, shantung... A essa altura deve estar claro que um gentleman jamais escolherá uma fibra sintética para a confecção seu terno sob medida. A palavra "polyester" simplesmente não faz parte do seu vocabulário. Afinal, quem gostaria de morar em uma casa feita de plástico... Ao escolher o tecido (muitos alfaiates preferem a expressão "fazenda"), é preciso também levar em consideração sua cor, padronagem e, evidentemente, seu peso, conforme se tenha em mente um terno mais para o verão, para o inverno, ou para o período entre estações. Outro factor que se deve levar também em consideração é se o terno será utilizado na cidade, em ocasiões mais formais, ou em regiões de veraneio ou a passeio.

Em seguida, você vai para casa, e seu alfaiate começará então a traçar a planta da construção: o molde. Como uma planta de arquitecto, o molde é desenhado em papel, e, com sorte, ficará ainda vários anos em poder de seu alfaiate. Com o tempo, às vezes são necessários pequenos ajustes no molde, mas ele será basicamente o mesmo a ser empregue na execução de seus próximos projetos sartoriais.


STYLUS ET CAETERA