sábado, 25 de agosto de 2012

Espaço museológico aberto à população mostra a arte da confecção

Mesmo ao lado daquela que foi uma das mais conceituadas alfaiatarias da cidade, encontra-se um espaço museológico onde Vítor Gaspar reuniu, e tem patente, vária documentação, materiais, esboços e livros de formação de uma profissão que caiu em desuso.


Ao longo de quase 50 anos de actividade, a Alfaiataria Gaspar vestiu algumas das figuras mais conhecidas desta cidade, numa época em que a roupa era feita por medida e ter um fato era sinónimo de posição social ou de festejo importante. Os anos passaram e a evolução social deu lugar ao pronto-a-vestir, fazendo com que alfaiates e costureiras fossem caindo em desuso.

No entanto, na rua do Almocreves, em pleno centro histórico de Setúbal, no primeiro andar do n.º 8, Vítor Gaspar transformou o espaço numa galeria onde expõe as suas pinturas, para além de vários objectos e documentos que foi guardando ao longo dos muitos anos em que exerceu a profissão de alfaiate.
Subidos ao primeiro andar daquele espaço, somos “recebidos” por uma máquina de costura “Singer” onde se encontram expostos artigos indissociáveis desta profissão, tais como a almofada de alfinetes, a tesoura de corte, o giz e outros tantos que faziam parte do dia-a-dia de um alfaiate. Sobre uma mesa de trabalho, um corte de bombazine, bem esticado e já devidamente marcado pelas mãos do mestre, mostra a primeira fase do que iria ser um par de calças de homem, certamente para o aconchego de mais um Inverno. A um canto da área de trabalho, os apontamentos mais preciosos de um alfaiate: as medidas de cada um dos clientes, devidamente identificadas e minuciosamente apontadas para que, ao envergar o fato, o mesmo caísse no corpo de quem o encomendou como uma segunda pele.
Mesmo ali ao lado, um expositor mostra as melhores fazendas e as escolhas a fazer pelo freguês que só tem que imaginar como irá ficar vestido nos vários tons que a casa oferece.
Junto ao varandim da habitação, numa outra mesa estão recordações de uma vida: a sebenta de um curso de 10 meses, tirado em Lisboa em 1955, que final era avaliado por mestres alfaiates, que definiam o resultado, individual, de cada um dos futuros profissionais; fotos diversas, entre elas a presença de Vítor Gaspar em Congressos de Mestres Alfaiates realizados um pouco por todo o mundo; uma outra foto já com o mestre na sua loja – então situada no n.º 10 da referida rua -, tendo por detrás um dos fatos oficiais que, feitos naquela alfaiataria, foram usados pela comitiva do Vitória de Setúbal na sua digressão pelos Estados Unidos, entre muitas outras peças que compõem esta exposição de uma profissão que os mais novos, certamente, pouco terão ouvido falar e muitos nem saberão que alguma vez tenha existido.
No entanto, esta mostra completa-se com uma outra exposição que preenche as paredes deste atelier/galeria, constituída por quadros, a óleo sobre tela, da autoria de Vítor Gaspar e que o mesmo intitulou de “O alfaiate através dos tempos” e que, tal como a designação indica, mostra a arte da alfaiataria aos longos dos séculos.
Aliás, esta exposição pretende, segundo Vítor Gaspar, dar a conhecer “principalmente aos mais novos, uma profissão quase extinta e que muitos nem saberão o que era, como se fazia e quais as fases por que passava a confecção de uma peça de roupa”. Questionado sobre a extinção desta arte, Vítor Gaspar diz que a mesma “era previsível. Os tempos mudaram e as pessoas já não têm tempo, nem paciência, para estarem vários dias a espera de uma peça de roupa, que ainda tinha que passar por provas antes de estar concluída”. Por outro lado, o ex-alfaiate diz que actualmente “existem no nosso pais bons estilistas, que apresentam trabalho de grande qualidade e que não tenho dúvidas que poderão ter muito sucesso a nível internacional”.
A exposição sobre esta profissão está, tal como já referimos, patente no 1.º andar do n.º 8 da rua dos Almocreves e quem a pretenda visitar, nomeadamente, grupos escolares, poderá fazê-lo a partir de marcação através do número 933151662.

Ana Maria Santos

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Trajes de tourear em exposição em Coruche



"Linhas Toureiras - A arte de Manuel & Margarida Marques" é o tema de uma interessante exposição que pode visitar a partir de 15 de Agosto no Museu Municipal de Coruche.
Iniciativa do Núcleo Tauromáquico do Museu, com o apoio da Câmara Municipal, esta mostra de trajes de toureiros da autoria dos alfaiates locais Manuel e Margarida Marques ficará patente ao público até ao próximo dia 7 de Outubro.A não perder.

 Foto D.R.
in Blog "Farpas"

terça-feira, 24 de julho de 2012

Dia do Alfaiate e da Modista




Longe vão os tempos em que a costureira, na aldeia, era uma figura de estilo! Andava de casa em casa, a prestar o seu serviço, às famílias, fazendo-se acompanhar da sua ferramenta de trabalho – a máquina de costura, normalmente uma Singer.
Costureira era uma profissão de topo, numa sociedade rural em que na hierarquia feminina, a mulher era uma trabalhadora indiferenciada, que nem sequer conquistara o título de camponesa! Este, só no Alentejo, associado a uma certa conotação política, personificado na figura de Catarina Eufémia!
Cada família tinha a sua costureira, que ia confecionar a roupa necessária, por medida e ao gosto particular da mãe e dona de casa.
O alfaiate, figura de destaque, no local onde residia, era um costureiro, por isso, devia acompanhar a moda e atualizar os modelos e tecidos das roupas. Mulheres que exigiam modelos exclusivos ou homens que desejassem usar um figurino elegante procuravam o alfaiate para compor seu estilo. O prêt-à-porter, ou “pronto a vestir”, vai na contramão do alfaiate, pois produz roupas em linhas de montagem, enquanto o alfaiate trabalha com modelos exclusivos.
Pode-se dizer que não há muita diferença entre o alfaiate e o costureiro ou costureira comum. Mas os alfaiates que ficaram famosos, por costurar para pessoas da elite social, dão certo glamour à palavra.
Os profissionais da área, geralmente, trabalham num atelier e, quando precisam de ajuda, contratam aprendizes.
Reportando-me à minha meninice e juventude, recordo a cena da costureira que vinha a nossa casa, fazer os vestidos para as meninas, as calças para os homens e toda a espécie de indumentária. A mesa da sala de jantar era o palco das operações, já que aí se estendia o tecido, se talhava a roupa e se procedia a todos os passos. A máquina que viera com a costureira ou já fazia parte do espólio da família, trabalhava, trabalhava, naquele som característico da agulha a deslizar no tecido, movida pelo pé no pedal.
Havia casas que dispunham já da máquina de costura, na altura considerada um pequeno luxo, pois só alguns tinham posses para tal. Em famílias, como a do Zé da Rosa, com cinco mulheres em casa, a compra desse apetrecho fora uma aposta na profissão de costureira. Uma das quatro filhas, poderia enveredar por aí!
Tem tanto empenho nesse objeto, que a velha máquina, quase abandonada a um canto da casa, foi recuperada para o mundo dos vivos, mandada restaurar e levada para casa desta criatura, que não sendo costureira, sabe estimá-la e... usá-la quando mais não seja, para matar saudades dos velhos tempos em que a usava, frequentemente, nas longas férias de verão.... a fazer roupa para as bonecas!
A minha relação com esta profissão foi sempre muito próxima já que me sinto privilegiada... gostava de criar os meus próprios modelos de roupa, com alguma originalidade e... descobri, na Invicta, na minha passagem por lá, a pessoa talhada para me satisfazer todos os meus caprichos de moda – a Menina Maria!
Apesar de ser uma pessoa madura na idade e na experiência, todas as suas clientes a tratavam carinhosamente pelo diminutivo e confiavam-lhe todos os seus gostos, por mais exigentes que fossem. A Menina Maria sabia dar conta de todo o tipo de peça de vestuário, que lhe vinha parar às mãos: vestidos, saias, casacos de toda a forma e feitio, vestidos de noiva, enxovais, etc, etc. Nunca antes, na juventude, encontrara umas mãos tão sábias no corte, nunca vira tanta competência na arte de confecionar roupa. Aí, eu sentia-me, verdadeiramente abençoada, pois tinha encontrado alguém que sabia interpretar os meus anseios e os meu desejo de requinte!!! E... conseguia, assim, ter modelos absolutamente exclusivos! Eu desenhava-os e a menina Maria executava!
Quando punha a roupa em prova, lá me chamava a sua casa e tinha tanta paciência comigo! Nunca a vi esboçar qualquer enfado nem protesto com alguma coisa mais exigente que lhe pedisse. Quando provava o decote, já sabia... não poderia exceder a medida do razoável, isto é, a minha medida... pois não tinham ainda chegado os dias de hoje, em que a liberalização do decote... não tem medida!
Nunca foi meu lema de vida “Maria vai com as outras” e apesar de a moda ditar as suas leis, estas como todas as outras, para os anarquistas... só servem para violar!
Era assim, naquele tempo e... continua a ser assim, nos dias de hoje, pois não é do meu feitio exibir os “dons” que a natureza me deu!

Por Maria Donzília Almeida

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Imagens do XXIII Encontro Nacional de Mestres Alfaiates




Penalva do Castelo - A localidade escolhida para o XXIII Encontro Nacional de Mestres Alfaiates


                                                                                   
                                  




                 Ponto de encontro




Recepção na Câmara Municipal 









O aspecto religioso 





Hotel Casa da Ínsua

  O belíssimo local do encontro










O lado cultural









Aspectos do convívio





Aspectos do convívio









Sr. Fernando Lima, o mestre alfaiate mais idoso presente, com 86 anos









João Paulo Rodrigues, o alfaiate mais jovem presente, com 24 anos









Passagem de testemunho





O lado recreativo








Sr. António Pinto
 O organizador do encontro de 2012








No próximo ano estaremos juntos novamente, no XXIV Encontro Nacional de Mestres Alfaiates.

sábado, 19 de maio de 2012

Sérgio Alfaiate ainda faz fatos como antigamente

               A loja situa-se na Ajuda, em Lisboa (foto ASF)

Se há profissões em vias de extinção, o alfaiate é uma delas. Mas como para alguns a tradição ainda é o que era, tem de haver também quem satisfaça os pedidos daqueles que procuram fatos feitos à medida e pode encontrá-los no «Sérgio Alfaiate», na Ajuda, em Lisboa.

Há 38 anos que Sérgio Marques e a sua mulher Maria da Conceição vestem os lisboetas mais exigentes que não usam “qualquer trapinho” nem se contentam com os fatos comprados numa loja qualquer e procuram um alfaiate, como já há poucos na capital portuguesa.

De (quase) padre, a alfaiate
Mas se em 1959, com 16 anos, Sérgio Marques chegou de Douro Calvo, em Viseu, para trabalhar para o primeiro patrão na mesma loja de que hoje é dono, foi por pouco que as fitas métricas e as tesouras não lhe passaram ao lado e se tornou padre. Mas Sérgio acabou por se tornar alfaiate, com medo de ser... capado.
«Naquele tempo os missionários iam às escolas nas terras mais pequenas para 'recrutar' miúdos para irem para padres, eu andava na quarta classe quando lá foram e me disseram que eu era um dos que ia ser padre e eu tive vergonha de dizer que não queria», conta Sérgio Marques, confessando o que o fez mudar de ideias:
- Um dia depois das aulas, estava na mercearia a ajudar o meu pai quando uns senhores começaram a gozar comigo a dizer que quem ia para o seminário era capado e eu no dia seguinte perdi logo a vergonha e disse ao missionário que afinal não queria ser padre, mas nem lhe disse porquê.
Não querendo ser padre nem podendo ficar a trabalhar na mercearia, como realmente gostava, porque o pai dizia que não era futuro, acabou por se tornar alfaiate.
«Quando me tiraram da mercearia para ir para a alfaiataria até chorava, porque o que eu gostava era de estar no balcão, mas agora não me via a fazer mais nada senão isto», conta Sérgio, o mais velho de seis filhos.


Casamento sem namoro dura 47 anos...
Em Lisboa desde 1959, onde estudou na Academia de Corte Maguidal e conheceu a mulher, com quem casou sem namorar, Sérgio deixou a Ajuda de 1968 a 1974, altura em que foi fazer fatos por medida para Angola, onde tinha família, e diz nunca ter trabalhado tanto quanto em Luanda. Porém, foi obrigado a voltar devido à situação política. Regressou já com uma filha e abriu a loja onde trabalhou pela primeira vez na capital portuguesa, agora como proprietário.
«Conheci a Maria da Conceição quando íamos buscar fatos ou entregar na alfaiataria, ela era costureira de calças. Passeámos e conversámos muito mas nunca namorámos. Um dia estávamos a passear em Queluz, passámos por uma capela e decidimos entrar para casar. O padre tratou dos papéis e passado um tempo casámos e fizemos uma festa. Quando se gosta não é preciso perder tempo a namorar», diz Sérgio, considerando que talvez seja esse o segredo para um casamento que dura já 47 anos.
Além de dois filhos, Sérgio e Maria partilham a paixão pelas agulhas e máquinas de costura, trabalhando juntos no «Sérgio Alfaiate», onde muitos dos clientes passaram a ser também amigos. Um dos mais antigos é um cliente a quem Sérgio já fazia fatos em Luanda, tendo inclusive ido ao casamento do filho dele e feito fatos para vários dos convidados.
Mas nem todos os clientes são amigos e há mesmo aqueles que são para esquecer, pelas exigências sem sentido ou críticas descabidas de quem não percebe do assunto ou nem sabe bem o que quer. Esse é o segredo do sucesso neste negócio, conseguir agradar e satisfazer 'o mais chato' dos clientes, numa altura em que cada vez menos gente dá ou percebe o valor de um fato feito à medida, sendo também cada vez menos a procurá-los.
«Antigamente se calhar fazia 150 fatos por ano, agora se calhar são preciso três ou quatros anos para fazer o mesmo», lamentou Sérgio, que tão cedo não pensa deixar o giz e espera continuar a trabalhar para os outros durante muitos e bons anos, a fazer fatos como antigamente...


Por Rita Ferro Baptista
Fotos de Álvaro Isidoro/ASF
Jornal "A Bola.pt"

terça-feira, 15 de maio de 2012

Técnica


Alguns processos operatórios de confecção de casaco de homem
  
(Método alfaiate)


1 - Entretelamento. 
 Concluídos os alinhavas da cinta para cima, suspende-se a obra com a mão direita. A aba do casaco cairá naturalmente. Pegamos juntamente fazenda e entretela pela bainha e, colocando depois sobre a mesa de trabalho, para alinhavar da cinta para baixo.


2 - A prova.
Ajustar ao corpo, com dois ou três alfinetes e tombar para a direita as bandas e o trespasse, fixando com um alfinete em cima no extremo superior das bandas e com outro alfinete na linha de cinta. Evita­-se assim que as pontas das bandas incomodem o cliente, roçando a cara. Notar o perfil de Mestre Guilherme de Almeida na sombra projectada na parede.
                                                   


 3 - Prova do ombro. 
Verificar se os golpes de "deslace" do decote e dos ombros estão bem localizados 
e se abrem o suficiente.



4 - Acerto da obra.
 Antes de se tirarem os alfinetes, dar um traço a giz junto  da beira do traseiro, conforme o resultado da prova. Depois são dados dois traços transversais que limitam o "metido".




 5 - Alinhavado da gola.  
A gola alinhava-se certa, somente na zona da costura do ombro, na curvatura mais acentuada do decote, se deve dar um "leve metido".



 6 - Acerto da gola. 
 A gola acerta-se com a largura adequada e depois de riscada é aparada.



7 - Encapamento da gola.  
Depois da gola "orlada" seguem-se as escalas com o cuidado de que a capa de gola não fique com falta de fazenda nas pontas. Finalmente "orlam-se" os extremos.



 8 - Alinhavar das mangas.
Começa-se por alinhavar a manga a partir da "costura do sangradouro" e continua a ser alinhavada à vontade, sem "branduras", depois alinhava-se pelo lado de dentro, com alguma brandura que se vai aumentando até chegar à parte superior da "cabeça" da manga em que a brandura passa a ser menos acentuada e segue assim até à costura do cotovelo.



                                       
9 - Treladado da manga. 
 A fase de "treladado", logo a seguir ao "apontado" é um trabalho que deve ser feito com linha dobrada e que serve para fixar a fazenda, a entretela, a paleta ou ombreira e o forro e vai depois servir de guia para se guarnecerem os forros das mangas.


                                      
10 - Passar a ferro.
  "Esmagar" bem (vinco da gola) o "quebrado" da gola até quase a meio de cada banda.

                             



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