sexta-feira, 22 de maio de 2009

Vida dedicada às capas de burel


Aos 72 anos, Aureliano Ri­beiro é o último de uma geração de alfaiates que ao longo de algumas cen­tenas de anos confeccio­naram a "sui generis" capa de honras mirandesa, uma das mais nobres peças do traje popular português. Ao longo dos mais de 60 anos em que se senta em fren­te à sua velha máquina de costura "Singer", o artesão já perdeu a conta ao número de capas que costurou. Recorda que a arte foi herdada do seu pai e do seu avô, mantendo-se fiel ao "estilo" con­cebido ao longo de mais de três gerações, "Agora já se fazem poucas ca­pas", lamenta. No entanto, "conti­nuam a ser muito apreciadas, não só por autóctones, mas também por quem vem de fora " refere Au­reliano Ribeiro. O artesão garan­te que a procura da capa de hon­ras mirandesa se deve "à riqueza e beleza desta peça única do traje português".
A capa é uma peça de grande valor etnográfico feita de pura lã de ovelha (burel) e requer um trabalho minucioso por parte de quem a confecciona, devido à sua complexidade. Uma capa de honras pode demorar mais de duas semanas a cortar, decorar e costurar.
Se no passado esta capa de ori­gem "medieval" serviu para pro­teger os pastores da região do Pla­nalto Mirandês da agressividade do clima, actualmente é uma peça apenas utilizada em cerimónias protocolares ou outros actos de importância relevante, sendo usual oferecer uma destas vestes a figuras distintas que visitam o município de Miranda do Douro.
Apesar do valor desta peça de vestuário, o artesão não esconde a mágoa de não ter seguidores masculinos na arte, já que só algu­mas costureiras na região confec­cionam as capas de honras. "Ain­da tentei fazer alguns cursos de aprendizagem, mas não há quem queira saber desta arte", garante Aureliano. Seguro de si, o artesão afiança que a confecção de uma capa é dos serviços mais duros de um al­faiate, devido ao peso das peças de burel e à força empregue du­rante a sua concretização. "No passado as capas de honras eram feitas só por alfaiates. É um servi­ço pesado. Actualmente só faço capas por encomenda. Longe vão os tempos em que se faziam cer­ca de 50 por ano", lembra o arte­são.
Na parede do seu pequeno e rústico ateliê é possível observar vários diplomas, sendo o mais importante o primeiro prémio do Concurso Nacional de Artesana­to, atribuído em 1992, a uma capa de honras desenhada e costura­da por este homem de Constantim, no concelho de Miranda do Douro.


FRANCISCO PINTO
braga @jn.pt

In Jornal de Notícias

terça-feira, 19 de maio de 2009

Museu da Lourinhã

A colecção de máquinas de costura

Até meados do século XIX todas as peças de vestir e calçar eram cosidas à mão. Chapéus, sapatos, cintos, meias, vestidos, calças e calções eram feitos manualmente. Nada de máquina de
costura para ajudar o alfaiate, a costureira, o correeiro, o peliqueiro, o sapateiro, o chapeleiro.
A invenção da máquina de costura foi feita em diversas etapas e por diversas pessoas.
A lançadeira, a agulha, os movimentos dos fios e da lançadeira foram etapas de descoberta e aplicação feitos ao longo dos anos. Na verdade, a nenhuma pessoa isolada se poderá dar
o crédito da sua invenção mas o nome de Isaac Merrit Singer distingue-se entre todos.
No fundo, Isaac Singer aproveitou as descobertas de outros e sugeriu modificações que a tornaram prática e eficiente.
A primeira patente da Singer data de 1858 e foi rapidamente comercializada, de tal modo que a maior parte de nós conheceu uma máquina Singer em casa dos pais ou avós.
Havia vários fabricantes de máquinas de costura. A Pfaff foi a primeira fábrica alemã a produzir e comercializar uma máquina de costura (1862). A Frister & Rossmann foi uma firma fundada em 1864 e que, a partir de 1892, começou também a comercializar máquinas de escrever.
Durante o século XIX foram, na Alemanha, os principais produtores de máquinas de costura mas,
após a Grande Guerra de 14-18, a firma entrou em falência e, em 1925, foi comprada pela Gritzner & Kayser. Em 1906, encontra-se a publicação de um anúncio n’ “O Imparcial”, que diz:
“Alberto Marques de Carvalho / Rua Grande – Lourinhan / Estabelecimento de mercador, fanqueiro, modas, mercearias, louça, quinquilharias, ferragens, tabacos, móveis de ferro, calçado, sola, cabedaes, vinhos finos e muitos outros artigos. / Máquinas de costura Kayser.”
Em 1925 a Oliva iniciou actividade em Portugal, como fundição, e a produção de máquinas de costura em 1948, actividade que manteve até 1972. Ainda se encontra um representante da Oliva na Lourinhã, bem perto do Museu.

Na sala das profissões, o Museu da Lourinhã tem representações do alfaiate, da dona de casa que era também a costureira da família, do correeiro e do sapateiro.
No alfaiate, as peças foram oferecidas pela viúva de José Dias e por Luís Santos mas as máquinas de costura, SINGER, uma que esteve exposta até 2006 e a que está exposta actualmente,
foram oferecidas, respectivamente, porJosé Filipe e Hélder Marques, de Mafra, e por Álvaro de Matos, de Vale Covo.
Na representação da dona de casa, a máquina exposta, do século XIX, é uma FRISTER & ROSSMANN.
Entre as peças doadas pelos familiares dos últimos correeiros, lá está uma máquina SINGER, de 1914, pronta a coser correias, cabedais e peles para arrear cavalos, éguas, machos.
No quarto da casinha regional encontramos mais uma máquina, desta vez uma KAISER pronta a fazer as pequenas costuras que toda a mulher sabia fazer: cuecas, combinações, saiotes ou
saias, vestidos, blusas e aventais.
Na representação do sapateiro não temos a máquina de costura. No entanto, na Lourinhã pode observar-se uma SINGER de 1910 nos sapateiros Rui e Pedro Gonçalves, da firma LouriGon.

GEAL 238 Etn.: Máquina de costura SINGER 45K1

Manufactura: “Singer Manufacturing Co.”, Elisabeth, New
Jersey, USA.
Ano de fabrico: 1914
Concebida para coser tecidos duros como peles ou cabedal.
Muito pesada, é de ferro, com tampo de madeira. Tem um
braço com rebobinador curto, um pino para carreto de linha,
porta-agulhas, guia de linha, esticador de linha, barra de
suporte de sapatilha, sapatilha e alavanca de sapatilha.
A manivela-volante com correia de transmissão que envolve o
volante, é accionado pelo pé através de um pedal e roda
transmissora.
Pertenceu ao correeiro Ambrósio Andrade e foi oferecida ao
Museu pelos netos Hermínia, José e Álvaro Andrade de
Carvalho


GEAL 382 Etn.: Máquina de costura SINGER F261467
Manufactura: “The Singer Manufacturing Co.”, Clydebank,
Escócia
Ano de fabrico: 1909
Mesa com tampo de madeira e gaveta, roda pedaleira, pedal, e
correia de transmissão de cabedal. A cabeça tem manivela volante
em que o volante é envolvido pela correia de
transmissão, 1 pino de carretel, e suporte frontal para encher
canelas. A lançadeira é de barquinha.

Está pintada de preto com desenhos a ouro. O topo do braço é
em prata com gravura de um ramo de videira com 2 cachos de
uva, 10 parras, 13 gavinhas e moldura de laços. A tampa da
zona de lubrificação dos diversos elementos do braço é,
também, em prata e com os mesmos motivos cinzelados.

Oferta de Hélder Marques e José Filipe, de Mafra.


GEAL 553 Etn.: Máquina de costura FRISTER &
ROSSMANN em ferro e madeira.
Manufactura: Berlim, Alemanha
Idade: Anterior a 1914, provavelmente, Século XIX

Tem braço com 2 pinos de carretel, barra de suporte de agulha,
guia de linha, porta-agulhas, barra de suporte de sapatilha,

sapatilha e alavanca de sapatilha. Não apresenta esticador de
fio. A manivela-volante é de mão com maceta em madeira. O
rebobinador é grande e frontal.

Não tem desenhos decorativos mas apenas duas chapas, uma
do vendedor que diz “Máquinas de costura de todos os
sistemas. Reparações. Antiga Casa Peixoto (1891) José da
Mata Pereira. Torres Vedras” e outra do construtor
“NAEHMASCHINEN FABRIK VORM FRISTER & ROSSMANN.

FABRIK MARVE ACTIEN-GESELISCHAFT. BERLIN RF”.
Não tem pedal, roda transmissora, correia de transmissão nem
mesa de suporte. É totalmente manual.
Oferta de Rosa Conceição Gomes, Seixal.

Comercializada por José da Mata Pereira, Torres Vedras.

GEAL 936 Etn.: Máquina de costura KAISER 415165
Manufactura: Kaiserslautern, Alemanha
Idade: Século XIX. O número de série indica datação anterior a 1890.
Em ferro, apoiada em mesa com tampo de madeira e pés
de ferro. Accionada por pedal
ligado à manivela-volante através de correia decabedal.
Tem uma chapa que diz “PFÄLZISCHE / A H MASCHINEN &
FAHRRÄDERFABRIK / VORM / GEBRÜDERKAYSER / KAISERSLAUTERN”,
com dois ramos de loureiro, duas coroas ligadas por uma fita
e uma águia.




GEAL 569 Etn.
Idade: Século XX, década de 40.
Máquina de costura. Brinquedo em lata.
Tamanho: 12x15x5 cm.
Oferta de Maria de Lourdes Alves.






GEAL 1429 Etn.: Máquina de costura SINGER C93
Manufactura: “Singer Manufacturing Co.”, Wittenberg, Prússia
(Alemanha)
Ano de fabrico: 1905
É uma máquina, em ferro, com manivela-volante e braço com
bobinador frontal, 1 pino de carretel, esticador e guia de linha,
porta-agulha, pé, agulha, lançadeira de barquinha e canela.
Tem mesa de apoio com tampo e gaveta de madeira, roda
pedaleira, pedal e correia de transmissão. A cabeça da máquina
é pintada a preto com desenhos em amarelo, ouro e prata, com
desenho de uma esfinge.
Comercializada por “Santos e Beirão & Cª. Lisboa”.
Oferta de Álvaro Matos, de Vale Covo
.


SINGER 29K1, F4351375
Manufactura: Clydebank, Escócia
Ano de fabrico: 1910
Máquina de sapateiro
pertença da firma LouriGon. É
em ferro, com pintura a ouro.







GEAL 566 Etn.
Idade: Século XX, década de 40.
Máquina de costura. Brinquedo em lata.
Tamanho: 12x11x7cm.
Oferta de Maria de Lourdes Alves.





Isabel Mateus e Horácio Mateus
Boletim 10 11/2008

www.museulourinha.org


sábado, 25 de abril de 2009

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Estabelecimento (fora) de moda com odor a museu

A Casa Girão, estabelecimento de moda, em plena Baixa setubalense, continua a resistir, 51 anos após a fundação, ao pronto-a-vestir, sendo hoje, reconhece um dos proprietários, “mais museu do que loja”.

No tempo do pronto-a-vestir, em que modistas e alfaiates caíram em desuso, há um estabelecimento de moda em Setúbal que insiste, há mais de meio século, em vender tecidos a metro, medidos em cima de balcões de madeira, cujos tampos escondem pequenas gavetas que já guardaram artigos de retrosaria.
O odor a passado não se fica por aí. Estende-se pela forma como os manequins são vestidos, com panos soltos, que mãos habilidosas transformam, aparentemente, em peças de vestuário. Também pelas prateleiras recheadas de maços de fazendas, algumas das quais da época da fundação da casa, entre elas a que os comerciantes, antes do 25 de Abril, eram obrigados, por lei, a ter à venda. Não admira, pois, que forasteiros ao passarem em frente à “Girão” - é a ela que nos referimos - parem, com olhar de espanto, e peçam para entrar... e ver de olhos arregalados.
Por tudo isto, um dos fundadores desta raridade - fotógrafo nas horas vagas - não hesita em afirmar que este local de comércio é mais museu do que loja e que somente com subsídios sobreviveria.
Único estabelecimento em Setúbal, cujos manequins são vestidos com a “arte antiga”, que o pronto-a-vestir atirou para fora de moda, a Casa Girão – que em 1 de Outubro de 2003 comemorou as bodas de ouro – vai definhando, é o termo, impotente à força dos ventos da modernidade, onde tudo é comprado já feito, a dispensar tempo perdido em provas e a folhear figurinos.
José de Oliveira Pinho – 79 anos, nascido nas Fontainhas – um dos dois fundadores do estabelecimento, o único vivo, não tem dúvidas, quando afirma, voz embargada, olhos espelhados de lágrimas reprimidas para não rolarem pelo rosto sereno, que a “salvação da casa passava por subsídios”.
Mas, logo, ciente da realidade, adianta uma pergunta, em forma de quem sabe a resposta: “Mas onde é que eles estão?!”
Ao falar em subsídios, Oliveira Pinho não o faz porque está na moda, nem por defender o que quase se tornou instituição nacional. É o dia-a-dia, que os olhos lhe mostram, a porem-lhe as palavras na boca, ao ver, principalmente, em época de férias, os forasteiros pararem “boquiabertos em frente do estabelecimento”, pedirem para entrar e “admirarem as prateleiras recheadas de maços de tecidos, alguns do tempo da fundação da casa”.
De fora, aos menos atentos, a loja pode parecer mais um estabelecimento, igual a tantos outros de venda de artigos de vestuário, mas basta transpor a porta e olhar em redor, com olhos de ver, para perceber que quando o proprietário fala em museu não exagera.
Ele próprio (se) questiona “quantos jovens e crianças sabem que há alguns anos não havia fatos, calças e vestidos prontos a serem comprados e usados quase de imediato, que a roupa era quase toda mandada fazer em alfaiates e modistas”.
O estabelecimento, que antes de ser loja de fazendas, foi talho – visível nos mármores que ainda ostenta - e serviu de comércio a conhecida marca de máquinas de costura, 'cheira', efectivamente, a museu, não apenas pelas prateleiras repletas de tecidos – alguns que já nem se fabricam - vendidos à necessidade de quem compra e medidos com metro de madeira, mas pelos próprios balcões - com gavetinhas, por baixo do tampo, que já guardaram artigos de retrosaria - e pela forma própria de vestir os manequins com tecidos soltos, que mãos engenhosas transformam, aparentemente, em peças de vestuário.
Mas o estabelecimento não é apenas a loja minúscula que está à vista. Por trás, com separação de porta, há um pequeno armazém, também ele com aroma de saudade. Em mais prateleiras, há mais peças, muitas, de tecidos e caixas e caixas de botões, que não foram vendidos quando ainda eram comprados.

Tentativas falhadas

A Casa Girão, a exemplo de outras do género, algumas das quais acabaram, entretanto, por fechar, começou a sentir, de forma mais acentuada, a crise entrar pela porta, quando as grandes superfícies comerciais apareceram em Setúbal, com argumentos maiores, até então desconhecidos na cidade, a fazer concorrência ao pequeno comércio.
Mas, afirma Oliveira Pinho, “já antes, há coisa de 30 anos”, o esboço do retrato actual ganhava os primeiros traços.
Nessa altura, a 'Girão' procurou adaptar-se às circunstâncias e, nunca abdicando da venda de tecidos a metro, optou, em paralelo, pela comercialização de outros artigos, como camisas de homem e fatos de banho de senhora, mas o “espaço exíguo da loja, sem sítio para provas”, pontapeou as esperanças para a rua da desistência.
Mesmo assim, até porque as “outras lojas que vendiam a metro acabaram ou transformaram-se”, a 'Girão' não atirou a toalha ao chão, continuando de portas abertas, apesar de haver “dias sem um único cliente”.

Bailes de finalistas e casamentos

Por isso mesmo, porque os clientes escasseiam - ao ponto de em Julho o proprietário não ter levado “um tostão para casa” - é preciso aproveitar todos os dias, “procurar ganhar para as despesas que não encurtam”, a 'Girão', este ano, contrariamente ao que sempre aconteceu, não encerrou para férias de 15 de Agosto a 15 de Setembro.
A estratégia, que, salienta Oliveira Pinho, contou com a “compreensão do empregado, na casa há quase 40 anos”, não resultou.
Perante este cenário, construído pelo acumular de desilusões, reflectidas na fita da caixa registadora que não vê forma de ficar gasta, a Casa Girão pode deixar de o ser, num epílogo de sonho que chegou a ser verdade.
Até lá, a esperança vai sendo renovada, diariamente, por patrão e empregado, com o caminhar constante, de passos curtos, entre o balcão e a porta, na ânsia de ver aparecer um cliente, antes das festas de finalistas!
Nessas alturas, a “faixa etária dos clientes, maioritariamente senhoras, desce” e, à loja, “vem gente jovem que quer aparecer no baile vestida de forma original”.
No resto do ano, pelos mesmos motivos, “sucede, de maneira espaçada, o mesmo com os convidados dos casamentos”.
A pensar, essencialmente, nestes casos especiais, a 'Girão' dispõe, sempre, de figurinos actualizados, tendo já comprado os da época Outono/Inverno. É que, “muitas vezes”, explica Oliveira Pinho, as “pessoas quando entram no estabelecimento não sabem bem o que querem e vendo modelos actuais têm a vida facilitada”.
Naturalmente, os tecidos também foram adquiridos. O risco, afinal, sempre foi uma constante do negócio e se “mesmo acompanhando a moda é o que é”, o que seria se tal não acontecesse.

E depois do adeus?

Oliveira Pinho, por mais voltas que dê à cabeça, não encontra forma de a loja não vir a encerrar as portas. O trespasse e a venda são soluções que, atendendo ao local e ao espaço –além da loja, os dois andares de cima também são da 'Girão' – pequeno para o ramo a que se dedica, mas, provavelmente, a servir para outra actividade, não devem ser difíceis de encontrar.
Ao falar do assunto, porém, Oliveira Pinho deixa, outra vez, a emoção transparecer, na voz presa na garganta e nos olhos húmidos, pelo fim do projecto sonhado há mais de meio século, é verdade, mas, também, pela incerteza quanto ao futuro do empregado.
O empregado, afiança, “tem de receber o mesmo” do que ele e do que a sócia – viúva do homem que, com ele, fez da 'Girão' a “casa de referência que sempre foi” – “por uma questão de justiça e de moral”.
Quanto ao recheio, não tem dúvidas, “não vale nada”, que, “agora, nem os ciganos compram os restos de tecidos para os negociar, já vendem pronto-a-vestir”.
Depois, pergunta e responde, em voz sumida, como se falasse consigo próprio, “quem é que compra, por exemplo, tecido para mandar fazer um fato, quando por menos dinheiro, e sem perdas de tempo com provas, pode ter um logo feito? Nem eu”.
A propósito, lembra que, há tempos, lhe ofereceram um corte de fazenda para um e que “só no alfaiate ficaram 25 contos, dinheiro para poder, então, comprar quase dois, prontos a vestir”.
Por tudo isto, não o “surpreende que as fábricas de têxteis estejam a encerrar e que as lojas tenham amontoados de tecidos, alguns, os mais antigos, vendidos apenas, de longe em longe, a retalho, aos ranchos folclóricos”.
Com a certeza de que os tempos que já foram melhores não voltam, Oliveira Pinho, enquanto espera pelos bailes de finalistas, espreita a porta, na esperança de ver entrar uma senhora que queira ir a um casamento com a certeza de que o vestido que leva é único, de que um rancho folclórico precise de um retalho ou que forasteiros lhe peçam para visitar um estabelecimento de moda... fora de moda, quase museu.

O nascer do sonho

A Casa Girão, inaugurada em 1 de Outubro de 1953, começou a ser sonhada por José de Oliveira Pinho e por Cipriano Martins, já falecido, quando ambos trabalhavam numa loja, no Largo da Ribeira Velha.
Oliveira Pinho, que entrou para o estabelecimento – conhecido como a 'loja das bolas' - do padrinho, aos 11 anos, por “especial favor, sem ordenado, para aprender”, deixou a casa, que, também, “vivia fase menos boa”, passados 17, a ganhar 600 escudos mensais.
Mesmo tendo em conta que na altura a importância valia incomparavelmente mais do que hoje, não dava para juntar grande coisa. Por isso, ele e o futuro sócio tiveram de pedir, emprestados, 50 contos cada um.
Pelo trespasse do estabelecimento de venda de máquinas de costura, na Antão Girão, onde instalaram a loja, que ganhou o nome à rua, pagaram 30 contos e, volvidos cinco anos, embora, de início, os “apuros fossem pequenos”, compraram, por 90, os três andares do prédio.
Ainda estavam para vir, sem se vislumbrarem, os tempos de se olhar para a Casa Girão como olhos – e respeito - de quem observa um museu.

Artigos obrigatórios


Dos tecidos em prateleira, na 'Girão' – alguns já nem se fabricam, do tempo da fundação da casa – há os que, antes do 25 de Abril, os estabelecimentos comerciais eram obrigados, por lei, a ter.
Eram os chamados 'artigos tabelados' - chitas, riscados, pano cru –, referenciados com um rótulo vermelho e verde e loja que o não tivesse, lembra Oliveira Pinho, era multada, sendo que a “fiscalização era feita por agentes da PSP, prepotentes, sem qualquer preparação”.
A Casa Girão, também nisso, é um museu.
Tal patrão, tal empregado
A exemplo de Oliveira Pinho, o empregado – António Duarte Alves, de 49 anos – começou a trabalhar aos 11, mantendo-se, desde então, na 'Girão'.
Tal como o patrão, continua a atender os clientes de gravata, como era hábito no tempo em que a loja começou a “ser casa de referência”.

Um fotógrafo entre tecidos

Uma das grandes paixões de Oliveira Pinho, além dos tecidos, é a fotografia, com participação em cerca de uma vintena de salões, publicado um livro -'Rio Sado/ Ouro Azul' – e tendo outro na forja.
'Rio Sado- Ouro Azul', editado em 1996, é composto por 93 fotografias, a cores, todas legendadas.
O próximo 'álbum', com fotos obtidas nos anos 60 e 70, anteriores às inseridas no primeiro livro, todas a preto e branco, também ligadas ao Sado e às suas gentes, “mostram a escravidão em que viviam os que, no tempo da ditadura, dependiam do rio”.
Sem querer levantar muito a 'ponta do véu', o artista revela que o livro “deve sair, se tudo correr normalmente, este ano, editado pela Universidade Popular Bento de Jesus Caraça”.

In "www.mun-setubal.pt"

Alfaiate, uma profissão que vai desaparecendo


A liberalização dos têxteis e a alteração na forma de vestir são razões apontadas pelo decréscimo na procura dos alfaiates. Actualmente, os mestres alfaiates que existem são poucos e,
não existem jovens a entrar na profissão.
Não fosse dedicar-se, em parceria com a esposa, também à confecção já Francisco Vidal não sobrevivia da alfaiataria. “Desde 2007 se não tivesse a parte da confecção era muito difícil. Ganhava para as despesas e pouco mais”, adianta o alfaiate joanense.
Francisco Vidal considera que vai haver sempre alguma coisa para fazer mas “nunca mais vai ser um actividade rentável”. De resto, o organizador do 19º Encontro Nacional de Mestres Alfaiates, Carlos Godinho dá 20 anos à arte da alfaiataria para desaparecer.
Aliás, actualmente, os alfaiates não proliferam como outrora. Francisco Vidal tem apenas 49 anos e, será um dos mais novos do concelho. Pois, os “mestres” que se dedicam a esta actividade são usualmente mais velhos.
Godinho aventou que deverão existir “20 ou 30” alfaiates na faixa etária dos 40 anos.
Vidal diz que nos últimos cinco anos a actividade começou a “abrandar” devido à liberalização dos têxteis e, que nos últimos dois anos diminuiu cerca de 80%.
“Acho que este decréscimo da procura dos alfaiates tem a ver com a moda e, hoje em dia é propício ir ao pronto a vestir”, aponta Francisco Vidal apontando que as pessoas já não optam tanto pelo clássico e, preferem por exemplo as gangas.
O mesmo disse Carlos Godinho, avançando que há uns anos toda a gente tinha o seu fato.
Este alfaiate considera que a indústria do vestuário está muito desenvolvida podendo ser muito perfeita. Mas, “não é roupa feita à medida”. “Há pessoas que gostam de pequenos pormenores e, só recorrendo a nós conseguem”, adianta, acrescentando que os seus clientes são “exigentes a esse nível”.
Actualmente, um alfaiate é procurado por jovens que pretendam um fato para cerimónias, executivos e, pessoas que normalmente usam fato para trabalhar. “Um fato dura muito tempo”, diz.
Numa outra perspectiva e, na tentativa de encontrar as razões do decréscimo da procura dos alfaiates , Francisco Vidal nota que só depois de confeccionada é que o cliente pode ver o resultado final. “As pessoas estão agora mais habituadas a ir à loja, ver, experimentar e compram se lhes agrada”, afirma, sublinhando que há dez anos atrás nas épocas festivas toda a gente queria roupa nova o que agora não acontece.
Por outro lado, Vidal refere que foi tentando aliar o tradicional ao moderno de modo a facilitar as tarefas.
Godinho lamentou que nunca se tenha criado um estatuto, por exemplo de artesão, para o alfaiate.

A concepção de um fato
Fazer um fato implica uma série de tarefas prévias. Primeiro tiram-se as medidas ao cliente. Depois pegam-se nos moldes e, desenha-se no tecido, seguindo-se o corte das entretelas e dos forros. Há quem coza tudo à mão mas Francisco Vidal diz que cose quase tudo à máquina havendo apenas alguns pormenores que cose à mão. Este hábito foi uma das atitudes que tomou em busca “de um caminho que era a modernidade, de modo a haver mais eficácia”.
A prova do fato vem a seguir e, finalmente os acabamentos. Por isso, fazer um fato poderá levar 20 a 24 horas. “Mas como não é uma coisa standarizada pode demorar mais mas também pode demorar menos tempo”, salvaguarda Vidal, explicando que muitas vezes, um pequeno pormenor pode levar a que se demore muito tempo.
Alfaiate há 34 anos, Francisco Vidal começou a trabalhar no ramo em par-time já que a sua ocupação principal era a indústria têxtil. “Com 15 anos já trabalhava por minha conta”, narra, acrescentando que sempre fez part-times já que trabalhava das 6 às 14 horas.
Inicialmente, começou por fazer apenas calças mas decidiu aprender a fazer casacos. Assim começou a fazer fatos e, faz vestuário quer seja para homem quer seja para senhora.

Por: Alexandra Lopes

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O alfaiate dos toureiros


Manuel Marques faz casacas para cavaleiros tauromáquicos há quase meio século. Ele é um exemplo vivo de uma tradição que teima em manter-se


Com uma infinidade de reflexos ao sabor da luz, as casacas de cetim bordadas a fios de ouro e prata evocam os cavalos correndo de melenas ao vento pela lezíria. Biscainho não é o centro do mundo, sequer do Ribatejo, mas esta aldeia per­to de Coruche acolhe, numa das suas ruas, um pequeno atelier que abriga um tesouro de sapiên­cia. Uma alfaiataria que há 40 anos é conhecida até nos continentes mais longínquos. Ali se ves­tem os cavaleiros da corrida à portuguesa. Além do ritual de vestir, entre provas, supersti­ções e preparação, há o momento em que o ca­valeiro exige elegância e agilidade para facilitar o espectáculo que se quer perfeito. Esta arte de vestir toureiros teme, no entanto, o fim, pois os 75 anos já pesam a Manuel Marques, que ainda garante continuar a costura "até o corpo deixar". Depois dele não se sabe. Não tem aprendiz nem quem queira aprender.
Neste quase meio século, pela sua casa passaram quase todos os cavaleiros portugueses. Só um não entrou lá: Paulo Caetano, "porque ele tinha um cunhado que era estilista e lhe fazia as casacas". Manuel Marques tem grande admiração pelos cavaleiros, fez bons amigos nos muitos anos de relacionamento profissional, conhece as suas vidas e sofrimentos, sabe que muitas delas se escreveram com sangue, suor e lágrimas. Diz que, "ao contrário do que muita gente ima­gina", o meio dos cavaleiros é pobre. "Gastam aquilo que não deviam, os cavalos, o vestuário, é tudo caro", portanto, é preciso fazer magia, à semelhança da história do touro azul: "É comer e beber e trazer o lanche todo para casa." Apesar disso, a vida dos homens que se dedicam à cria­ção de gado não é um rol de choros e lamenta­ções porque a simplicidade e a esperança são partes marcantes do seu carácter.
Se um dia as touradas acabarem? "Pode acon­tecer. Não pelo gosto mas pelo fim das ganada­rias. Aquele animal de arena existe em condi­ções únicas. Não se pode sequer classificá-lo como carne. É bravio." As castas foram-se aper­feiçoando até se alcançar o touro de lide. "Aca­bando as ganadarias, acabam-se as touradas. Sem um animal com um instinto de vida ou de morte não há corrida." Foi para a festa brava que Manuel Marques trabalhou 40 anos entre cetins, tesouras e bor­dados. Homem simples e bastante comunicativo, o alfaiate já foi várias vezes alvo de prémios e condecorações. Na parede do atelier tem emol­durado o Prémio Nacional de Artesanato Tradi­cional, referente a uma menção honrosa por um casaco de cavaleiro tauromáquico. "Foi em Julho de 1993. Daquela vez não ganhei o primeiro prémio por não ter lá o traje com­pleto", explica.
Nasceu no Biscainho, em 1933. Filho de agri­cultores, quando chegou a uma idade em que a grande maioria dos meninos começava uma vida dura no campo, Manuel Marques, com 12 anos, sentiu a vocação de acordeonista. Chegou aos 17 não profissionalizado mas a fa­zer profissão da música. Quis o destino cruzar «o seu caminho um mestre do acordeão que também era alfaiate. "Pelas dificuldades, talvez a luta ou por ser uma profissão muito picuinhas, achei muita graça", afirma com um certo brilho nos olhos. E nesse tempo, sem frequentar colégio nem universi­dade, viu na costura "uma maneira de sobres­sair e subir um bocadinho na vida". Foi aprender para alfaiate com as dificuldades inerentes à profissão "porque não havia quem quisesse ensinar. Hoje é diferente: quer-se en­sinar e não querem aprender". O professor era muito pouco sabido, mas foi dessa forma que Manuel percebeu a fadiga de uma profissão aparente­mente fácil, vista por quem está de fora. Isso não o esmo­receu. Partiu para Lisboa rumo à Academia Maguidal, só para alfaiates, na rua da Palma. "Eram 250 alfaiates... isto nos anos 40", recorda. Estabeleceu-se na terra natal mas não calou o acordeão. O trabalho como alfaiate começou por desenvolver-se no trivial - nos trajes tradi­cionais usados no Ribatejo - sempre com ten­dências e com vontade de aprender. Quando viu que tinha muitos lavores, fez uma escolha para que os ensaios musicais não o roubassem ao corte e costura.
Sem esperar, o alfaiate que na época vestia os toureiros, Alberto Armindo - há 50 anos na Rua Augusta, em Lisboa -, atingiu uma idade muito avançada e abandonou a arte. Vivendo perto da Herdade da Torrinha, "os Ribeiro Telles começa­ram a influenciar-me para aprender e aproveitei a deixa", conta. A curiosidade nasceu e Manuel Marques deixou a vontade falar mais alto. Voltou à Academia para procurar a ciência do corte da casaca. Com a característica garra das gentes ribatejanas, entregou-se de corpo e alma à função e pouco tempo depois a sua determi­nação dava frutos. "Arranjei as bordadeiras em Coruche e iniciei a primeira casaca para o João Telles", vermelha, estreada numa corrida em Algés. "Os nervos eram mais que muitos e a experiência nula, desconhecia os produtos e cal­hei desastradamente a fazer uma mancha na casaca, pensei que era o fim da minha vida." A solução que encontrou naquela ocasião passou por "molhá-la e ficou toda igual... mas nessa noite não dormi, era uma pressão desgraçada". O desaire não manchou a sorte e a casaca "foi um sucesso", numa vida que os juntou e uma amizade que os uniu. Ficou "com tudo na mão"; como alfaiate dos cavaleiros da corrida à portuguesa. Essa primeira casaca custou 25 contos. Hoje um trabalho daqueles custa mais de 1500 euros, e se for bordada a canotiIho - bordado feito em fino arame dourado - pode chegar aos três mil euros.

Antes dos 30, Manuel Marques conhece o amor, nos olhos de Margarida. Costureira no atelier, o alfaiate fala para a mulher sempre em tom de chalaça. "Hoje só faz o que ela quer", graceja. Sem deixar de referir toda a ajuda e dedica­ção que Margarida lhe tem dado ao longo da sua vida profissional. "Prepara o meu trabalho e tam­bém tenho um alfaiate que me ajuda quando estou atrapalhado nos arreios de cortesia." Cos­turam tudo o que se relaciona com o cavaleiro. Sempre bem-disposto, explica que faz "a casaca, a camisa, o colete, o calção, o tricórnio e os arreios de cortesia. Só não faço as botas e o cava­lo", apesar de também o vestir. A montaria traja os arreios de cortesia: a cobertura, as abas, a rabadilha, a capa de cela e o charel. "É uma obra que demora cem horas, que tem trabalho de correei­ro e leva tanto tecido como uma casaca e mais bordado." Ainda assim, os apetrechos do cavalo custam sempre menos 5OO euros que a casaca. Habitualmente, os cavaleiros ao encomendarem uma casaca pedem também os arreios para que o traje combine na perfeição.
A primeira das tarefas do alfaiate é afiar o giz. Com regra, traça os cetins especiais, normalmen­te estrangeiros e muito caros. Após tirar as medi­das, corta o modelo escolhido pelo cliente, alin­hava a casaca no manequim, manda bordar e entretelar; já montadas as peças, são depois ana­lisadas juntamente com o tricórnio e os arreios, revistas as casas de botão adornadas em soutax prata (um cordão espalmado), faz uma última prova e um mês depois a obra está pronta. Os bordados são à mão ou à máquina, em linhas de várias cores, a ouro ou prata. A memó­ria dos desenhos para bordados está arquivada em cartões antigos, guardados numa estante, tesouros mudos, até serem chamados a desem­penhar uma tarefa. A empreitada hoje já não esta a cargo das mulheres. A comandar as "bordadeiras" na realização de um motivo estão as máquinas e os computado­res. Cada desenho, ou mo­delo, pode ser realizado em três ou quatro jogos de cores diferentes, de forma mais perfeita e mais barata. Nu­ma mistura bizarra entre o arcaico e a alta tecnologia, o atelier está em condições de satisfazer qualquer enco­menda especial, quer em termos de colorido quer de motivo, em lante­joulas, missangas ou a canotilho. "Com as bordadeiras era tudo manual. Hoje temos os com­putadores que fazem os trabalhos com um software que permite novidades", explica Manuel. No tempo em que a mão-de-obra era barata, eram bordados até em Espanha pelas freiras, mas tudo isso acabou. "Agora para bordar a canotilho são pessoas com muita idade e nem paga o trabalho", garante.

A costura já não é tão exigente como antiga­mente, as novas tecnologias facilitam o tempo e as mãos, que manejam menos horas a agulha em riste. Mesmo assim, a vida de alfaiate não é para qualquer um, é preciso ter vocação, por isso, Manuel está certo que "daqui a 20 anos não há um alfaiate em Portugal". Acredita, contudo, que os processos modernos não deixam nada ficar para trás, diz que outras técnicas virão e por certo será encontrada uma alternativa... Talvez a carência seja motivo de atracção para os cos­tureiros no futuro. No entanto, parece que tal não tem vindo a acontecer.
Nem sempre as casacas de uma corrida à por­tuguesa tiveram a actual configuração. Na pri­meira geração, os cavaleiros toureavam com uma casaca solta, um traje Luís XV, que desde então sofreu modificações. Actualmente tem dois machos atrás, é uma obra de silhueta com borda­dos imaginados pelo ante­cessor de Alberto Armindo, o alfaiate Rosado e Pires. Am­bos antecessores de Manuel Marques, conceberam dese­nhos que se enquadravam na personalidade portuguesa mais tradicional. Pelo contrá­rio, "os bordados espanhóis não possuem uma sequência tão completa". O colete - que também é bordado - possui o mesmo desenho da casaca ou variado. A mo­dernidade trouxe mais liberdade à expressão artística e já nada é tão formal. Contudo, a tradi­ção das rendas nos punhos da camisa e no bolso direito do colete permanece. Atrás, a casaca tem um laço preto que vem do tempo do marquês de Marialva, que impôs algumas regras no século XVIII, proibindo a morte das reses na arena. Dizia-se que o laço negro na casaca do cavaleiro era em sinal de luto pela atitude do marquês, mas Manuel Marques garante que não. "Acabou o laço que prendia o cabelo do cavaleiro e veio com Rosado e Pires para a casaca. O cabelo já não se usava empolado mas sim com o tricórnio." Pa­ra o enfeitar aplica-se os brasilhões em canotilho, doutrina do senhor Azevedo, que tinha uma chapelaria na Baixa de Lisboa, e as penas de aves­truz transformadas em belas plumas brancas. E é ao ritmo sabiamente cadenciado da tesoura no cetim que o alfaiate, sentado em frente ao teflon mágico, que não mancha os tecidos, vigia a sua obra, à caça do mínimo defeito, até atingir a perfeição desejada. Tal grau de exigência limi­ta a produção a não mais de uma a duas casacas por mês. Mas a busca da perfeição começa bem antes, quando o cavaleiro escolhe a cor do teci­do, porventura uma cor que lhe tenha dado sorte noutras corridas. Na verdade, as casacas têm cores tradicionais, as mais acentuadas: o verde, o azul, o vermelho e o bordeaux. Só que a modernidade chegou também à paleta das cores e a variedade já inclui tons pastel. Na arte de bem vestir na arena está ainda a camisa. Essa peça tem um plastron - tipo de gravata com umas presilhas - inspirado nas usadas pelas famílias burguesas. Por ser pouco confortável, os alfaiates modificaram a camisa optando por um colarinho forrado a piqué com a dita gravata com o mesmo ponto, mais fun­cional. Basta-lhe pregar um alfinete dourado e está pronta para a lide.
Manuel Marques usa um segredo nas suas casa­cas que não revela - diz apenas que aprendeu com um amigo em Saragoça. "É alfaiate do ape­ado que conhece o segredo das chaquetillas e das luces. Aplico-o nas casacas e nas jaquetas." Mais não faz, os toureiros a pé portugueses são por isso obrigados a ir comprar os fatos a Espanha. Por cá, cavaleiros como António Ribeiro Telles, Rui Salvador, Ana Batista, Sônia Matias ou Luís Rouxinol preferiram, e ainda preferem, a expe­riência e elegância que Manuel Marques passa para as suas obras.
"No campo da alfaiataria, o trivial está morto." Entre uma parafernália de cores e tecidos, fora da época das touradas, Manuel aplica-se nas jaquetas e nos fatos à portuguesa usados nos festivais e na feira da Golegã. Às vezes aparecem trabalhos diferentes. "Há tempos costurei as capas para a Confraria do Torricado de Samora Correia." Um hábito que pegou. •

PAULA MOURATO
GONÇALO BORGES DIAS


In "Notícias de Sábado"


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Trabalho minucioso à sua medida

Carlos Sousa dedicou toda a sua vida a uma arte que poucos conhecem. Desde que se lembra que queria ser alfaiate e começou a concretizar este sonho aos 14 anos. Hoje é um dos melhores a nível nacional e internacional, estando neste momento a trabalhar para outros países. Para além disso, tem uma boutique onde encontra todos os acessórios necessários para se vestir bem, com a qualidade de uma reconhecida marca italiana


Se se deslocar até ao Porto, vai encontrar um local diferente, que não está habituado a ver regular­mente. Falamos do Carlos Sousa Alfaiate, onde a arte da alfaiataria continua em prática, aliada ainda a uma boutique de alta gama, onde encontrará peças de uma marca ita­liana. Carlos Sousa começou a trabalhar como alfaiate ainda antes de completar l4 anos de idade em Vila Meã, terra onde nasceu. Costuma­va passar pela casa do seu primo, que praticava esta profissão, enquanto ainda era estudante, e costumava dizer-lhe que era esta arte que que­ria fazer no futuro. "Vim depois para o Porto e trabalhei com vári­os alfaiates, com quem aprendi bastante. O primeiro lugar foi em Sá da Bandeira e depois fui per­correndo outros espaços", começa por contar o entrevistado. Depois de cumprir o serviço militar obrigató­rio, voltou ao Porto onde ficou res­ponsável por um outro espaço, "estava responsável pelo corte, pelas provas e pelo atendimento ao cli­ente e, passada um ano, tornei-me sócio de uma empresa ligada à área".
No entanto, foi há quatro anos que Carlos Sousa decidiu que esta­va na altura de ter um espaço só seu, que se divide em duas áreas distin­tas: alfaiataria e boutique. Nesta se­gunda área, o cliente pode encon­trar todas as peças necessárias para sair vestido "dos pés à cabeça". A marca, essa, é italiana, uma vez que a qualidade é um dos parâmetros es­senciais para o sucesso. Já o calçado provém de um espaço localizado perto da loja, existindo uma parce­ria entre este alfaiate e a proprietária da loja de calçado. "Aqui estamos direccionados para uma classe média alta. Verificamos que cá existem bastantes casas que têm oferta para as outras classes sociais e, por isso, era importante para mim po­der disponibilizar algo acima da média. Para além disso, não existem muitos locais com o apoio de um alfaiate", afirma o entrevistado. Segundo Carlos Sousa, acaba por não existir concorrência neste sector, uma vez que poucos são aqueles que ainda aprendem este oficio, Aliás este alfaiate faz parte de uma geração que começou a aprender muito cedo esta arte, já que na maior parte dos casos, depois de se completar o quarto ano de escolaridade, homens e mulheres começavam a trabalhar, o que faz com que o interlocutor conte já com mais de 30 anos de experiência. "Esta não é uma arte fácil de aprender, é extre­mamente minuciosa, exige empe­nho e vontade de aprender. Tem que se gostar muito disto para en­veredar por este ramo de activida­de e são cada vez menos os alfaia­tes em todo o país. Os jovens de hoje não se interessam por esta pro­fissão porque querem algo que possam aprender mais rapidamen­te", sublinha o entrevistado. Desta forma, concorrência não é um vocábulo que faça parte dos dicionários dos alfaiates que existem no nosso país, uma vez que já são muito poucos aqueles que sabem trabalhar nesta área, que poderá es­tar em vias de extinção daqui a al­guns anos. "No entanto, ainda exis­tem mesmo muitas pessoas que gostam de mandar fazer um fato por medida, notei muito isso quando abri este espaço.

Apesar de ter fatos por medida, também execu­tados manualmente e de uma gran­de marca italiana, a verdade é que muitos são aqueles que preferem mandar fazer de raiz e acabam por acompanhar todo o processo com as provas. Aliás, por vezes tenho que pedir auxilio a alguns colegas alfaiates, porque as encomendas são cada vez maiores", refere. E se não se puder deslocar até este espaço, não se acanhe, até por­que o profissionalismo é, tal como as peças, da mais alta gama. Como tal, Carlos Sousa desloca-se, sem­pre que necessário, até junto do cliente, seja em Portugal ou no estrangeiro. "Neste momento estou tam­bém a trabalhar para alguns mi­nistros estrangeiros com bastante regularidade, recebo também bas­tantes encomendas,. Para além dis­so, há a possibilidade de me expan­dir para outros países em breve", conclui este alfaiate que recebe cada cliente com a sua simpatia e a sua arte, à qual dedicou toda uma vida.

In "O Primeiro de Janeiro"