quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Mãos de Tesoura

OS HOMENS "DE BERÇO" CONTINUAM A ENCOMENDAR OS SEUS FATOS POR MEDIDA. DAS GRANDES FAMÍLIAS TRADICIONAIS, A POLÍTICOS E EMPRESÁRIOS, A TRADIÇÃO É A PALAVRA DE ORDEM. EM NOME DA ELEGÂNCIA. UMA VIAGEM PELOS "ATELIERS" DE LISBOA E PORTO QUE INSISTEM EM DESENHAR OS CORPOS.





O pudor aristocrático de Augusto Saldanha impede-o de falar de dinheiro.
" Os
botões de um bom fato por medida podem ser mais caros do que um mau fato"

"O gabinete de provas é um confessionário." Augusto Saldanha, o autor da frase, é alfaiate esta­belecido no Porto, na Rua de Trindade Coelho, perto da Estação de S. Bento. "As pessoas contam--me muitos problemas da vida, aqui." Augusto Saldanha, nascido em Freixo de Espada à Cinta, 54 anos, alfaiate desde os 12, é um homem das Arábias. Pequeno, agitado, repete vezes sem conta: "Orgulho-me do meu trabalho." Sente orgulho dos fatos feitos por medida, em que as golas dos casacos não dependem de cortes--padrão, os botões das mangas têm casas reais e não fingidas, os pespontos evitam aquele ar industrial do pronto-a-vestir, as riscas ou os quadrados da fazenda acertam nos ombros e nos bolsos. Orgulha-se também de ver os clientes pas­sarem na rua bem vestidos. Orgulha-se ainda dos nomes sonantes para quem corta os fatos: Pessanhas, Pinheiros Torres, famílias consideradas do Porto: "Encomendam pouco, mas bom. São gente de berço e tratam-me bem." Há três anos conquistou um novo cliente, o ex--ministro da Defesa e ex-presidente do CDS-PP: Paulo Portas. Nem precisa de afirmar o orgulho que sente nesta aquisição; uma fotografia do político e do alfaiate, ambos sorridentes, tirada no Forte de S. Julião da Barra, reina numa estante da sala de provas, imagem que ele não deixou repro­duzir. "Trabalho com ele e com pessoas amigas dele." O que mudou na imagem de Portas nestes últimos três anos ele recusa dizê-lo, com humil­dade formal: "Isso são vocês, jornalistas, que devem notar." Mas adianta que nunca mais se viu o antigo ministro com casacos de três botões (limitam-se a dois) ou de ombros largos. Em contrapartida, cada manga passou a andar com a última casa desabotoada para transmitir um ar casual. E os forros podem ir do azul-psicadélico ao vermelho-comunista: "Chamei-lhe a atenção, mas o dr. Portas respondeu-me que o sangue de Cristo também era vermelho..."




O ambiente do Rosa & Teixeira é altamente fotogénico, misturando o requinte da faia, da brecha da Arrábida, com o luxo dos tecidos naturais

A empresa de alfaiataria Rosa & Teixeira trans­formou-se num ícone nacional. As instalações principais estão hoje na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e há também uma loja no Porto. Para roupa por medida, os clientes devem deslocar-se, porém, à capital. A história desta casa é já cen­tenária. No século XIX, Manuel Amieiro aper­feiçoa a sua arte na parisiense Rue Royale - então centro mundial da moda - e regressa a Lisboa. O rei D. Carlos e os infantes foram seus clientes, tal como o conde de Paris, pretendente à coroa de França. O seu discípulo Francisco Rosa associa-se ao genro António Teixeira. Estava encontrado o nome da firma. Agora, a empresa - com loja de porta aberta para a rua onde se vende também pronto-a-vestir de luxo - pertence a José João de Castro, antigo gerente do Pestana & Brito, que ficou dono absoluto depois da saída voluntária da família do sócio Miguel Ribeiro. De remodelação em remodelação - 1981, 1985, 1996 -, a casa foi afinando o seu cenário de alta costura: tornou as instalações mais clássicas onde era necessário e preservou o que estava bem, como o fantástico gabinete de provas. O 'atelier', composto por 15 costureiras, 20 ofi­ciais e um mestre, é chefiado por Eugênio Fernandes Gomes, 61 anos, homem simpático e tímido. Nascido na freguesia de Ribeira Dio, concelho de Oliveira de Frades, foi chamado para a profissão por um tio que vivia no Seixal. Nunca mais parou. Dono de oficina própria, levou para o Rosa & Teixeira as suas empregadas. Entende-se: Gomes é sensível e fica transtornado quando se lhe pergunta porque deixou a sua oficina para trabalhar por conta de outrem: "Ainda nem perce­bi bem. Não gosto de falar disso' Comove-se. Rosa & Teixeira dispõe ainda de outra oficina, com sete pessoas, para acertos em fatos de pronto--a-vestir. O ambiente é altamente fotogénico, mis­turando o requinte da faia, da brecha da Arrábida, do latão, com o luxo dos tecidos naturais: seda pura lã, linho. Na retaguarda, estruturas do ar condicionado que combatem o calor do pesadís­simo ferro-de-engomar; condutas que libertam o ar do pó das fazendas; rolinhos contendo os moldes e as medidas de cada freguês, com os nomes destes colados dão ao canto de uma sala um vago ar japonês. "Quando engordam ou ema­grecem, chamamo-los cá para rectificar medidas", explica Eugênio Gomes. Nem toda a gente se permite um fato por medida no Rosa & Teixeira. Os preços, pendurados nos cortes de fazenda e nas peças de pronto-a-vestir da loja, são vertiginosos. "Os melhores clientes têm bom gosto e podem usufruir desse bom gosto. Trazem os filhos quando eles fazem o primeiro fato. Promovem a cultura de bem--vestir", comenta Maria do Carmo, relações públicas e há 23 anos na casa. No Porto, Augusto Saldanha navega nas mesmas águas: "Um bom fato por medida pode ficar mais barato do que um bom fato de confecção industrial. Os botões de um bom fato por medida podem ser mais caros do que um mau fato de confecção inteiro/' Uma espécie de pudor aristocrático impede que se fale de dinheiro.



A Labrador tem um clientela selecta de administradores de bancos, advogados, economistas e políticos. "Também jornalistas", acrescenta José Pinheiro

Durante anos, o pronto-a-vestir roeu o mercado aos alfaiates tradicionais. Muitos abandonaram, reformando-se, ou foram contratados por 'ateliers' industriais. Mas os que resistiram parecem afogados em trabalho. Saldanha - com uma operária fixa e duas colaboradoras em casa - afirma que está melhor: trabalha para o teatro; corta togas para advogados e becas para juizes; responde a encomendas de estilistas; desenha casacas para os bailes de debutantes do Porto. No Rosa & Teixeira, ufanam-se de grande clientela, tanto nacional como de estrangeiros que vivem em Portugal. Mas toda a gente lamenta a crise do sector, provocada sobretudo pela falta de profissionais. Não há pessoal, queixava-se já no século XIX o conde de Gouvarinho, personagem do romance 'Os Maias', Eça de Queirós. No entender dos mestres que restam, faltam aprendizes e não há porque as escolas são escassas e as que existem preparam profissionais para a indústria e não para o artesanato. "O único estabelecimento de ensino que nos pediu para trazer alunos a visitar as oficinas foi a Casa Pia", conta Maria do Carmo. A Labrador - empresa de pronto-a-vestir de quali­dade, com duas lojas em Lisboa, uma no Porto e outra em Madrid - tem oficinas para fazer acertos personalizados na roupa vendida: cortar calças, des- manchar ombros e ilhargas de casacos, refazer os pontos, abrir casas falsas de botões. José Joaquim Pinheiro é o mestre do principal 'atelier', com cinco funcionários, situado num quintal sempre florido nas traseiras da loja, na Rua Braancamp, em Lisboa. Nascido há 66 anos, em Pinhel, começou aos sete como aprendiz. Chegou à Labrador em 1997 e tem saudades de "trabalhar na medida, de levar a obra do princípio ao fim". Casa dirigida às classes médias e altas, não oferece essas alterações (gratuitas) a todos os clientes. "Só a alguns, os mais impor­tantes", sorri José Pinheiro, que propagandeia uma clientela selecta de administradores de bancos, advogados, economistas, como o professor António Borges, e políticos como Correia de Campos, ministro da Saúde. "Também jornalistas", sorri de novo: "Mário Bettencourt Resendes, Luís Delgado."





Herança - Os mestres devem estar atentos a todos os pormenores. O perfeccionismo é a sua arma. Carlos Mendes, uma espécie de sindicalista da classe, gostava que a arte perdurasse com os filhos. «Talvez seja utópico»

Regresso ao artesanato. Carlos Mendes, 56 anos, natural de Pampilhosa da Serra, é uma espécie de sindicalista dos mestres alfaiates. Lamenta a inexistência de escolas, o autodidactismo da classe, a loucura dos impostos: "Esta firma, que é minha e da minha mulher, paga impostos como se fosse uma indústria." Segundo Carlos Mendes, a alfaiataria deveria ser taxada como arte­sanato. Com uma loja na Praça da Alegria, em Lisboa, onde emprega duas costureiras, chegou a Lisboa como aprendiz, em 1965. Oriundo de uma família de alfaiates - pai e irmão mais velho -, o des­tino estava traçado: "Acabada a instrução primária, não havia outro futuro." Estabeleceu-se por conta própria em 1971. Lembra-se de quando aprendizes e oficiais eram muitíssimo mal remunerados, o que afastou gente da profissão, por isso os impostos deveriam baixar para que ele lhes pudesse pagar melhor. "Talvez seja utópico." Utopia que o leva a participar como presidente da assembleia geral da Comissão de Melhoramentos da sua aldeia natal, Lomba do Barco, junto ao Zêzere: "Sou regionalista. O interior do País está a ficar deserto." Como deserta está a profissão. Todos estes mestres alfaiates - nascidos na província, em famílias pobres - têm filhos. Nenhum quis seguir a arte dos pais.

ns

Texto -Torcato Sepúlveda

Fotos - Dora Nogueira



1 comentário:

Anónimo disse...

Estes alfaiates estão a sofrer por causa da peneiras que propagandeiam. Quem é o comum dos mortais que quer entrar em semelhantes templos de nobreza? Credo, ainda vamos conspurcar o ar que respiram. Fiquem-se lá com os figurões que servem, que eu não vos incomodo. Longe vão os tempos dos antigos alfaiates de bairro, humildes e simpáticos, que tanto faziam fato para o senhor doutor como para um humilde trabalhador, com o mesmo brio.