terça-feira, 8 de novembro de 2011

Lisboa - A «janela indiscreta» do alfaiate Brito

     Faltavam 11 dias para a «Revolução dos Cravos» de 1974. Facto que o alentejano Francisco Brito não poderia antecipar. Na altura comprava a alfaiataria onde já trabalhava, em pleno Rossio. Sem o saber adquiria uma janela com vista para um dos palcos da Revolução. Indiferente, Francisco continuou a marcar os tecidos com giz, a cortar e a coser. Passados 37 anos, o alfaiate mantém viva a sua arte no mesmo local.


 É do corte e costura que Francisco Sabino Brito faz arte e profissão desde os tempos da meninice, quando os horizontes eram alentejanos, os de Almodôvar. Aos 17 anos, Francisco parte para Lisboa onde o seu percurso de alfaiate havia de se cruzar com uma janela cobiçada.

«Comecei na actividade como aprendiz, aos 14 anos, ainda em Almodôvar. Naquela altura aprendiam-se ofícios como o de alfaiate, sapateiro ou carpinteiro», conta Francisco Sabino Brito na sua alfaiataria, a mesma onde se iniciou ao vir para Lisboa. «Cheguei à capital aos 17 anos. Depois, aos 20 fui para a tropa. Regressei aqui e a 14 de Abril de 1974 comprei a casa ao meu patrão. Isto 11 dias antes da Revolução», diz o alfaiate.

O número 93 da Praça D. Pedro IV (Rossio) tem vista privilegiada para a rua através da pequena janela da sala de corte e costura. A morada da Alfaiataria Brito ganha, assim, uma vista privilegiada para uma das mais cosmopolitas praças de Lisboa. Onde hoje há carros em buliço, turistas descontraídos e esplanadas de pendor estival, outrora anteciparam-se algumas movimentações para o dia que marcaria no calendário da História a «Revolução dos Cravos».

Francisco Brito, 61 anos carregados de genica, baixa o tom de voz quando refere a data da compra e as movimentações em torno da dita janela. Passados 37 anos sobre o fim do regime salazarista, Francisco sussurra quando remete as palavras para esse passado.
Na época a sorte como alfaiate esteve do seu lado, refere Francisco Brito. «No quarto onde vivia quando cheguei a Lisboa, morava também um alfaiate. Ele tinha a par do seu emprego, uma carteira de clientes. À noite no quarto ia costurando os fatos, ajudado por algumas costureiras. E ensinou-me muita coisa. Eu aprendia de noite e de dia. Isto fez com que chegasse a oficial muito rapidamente», explica Francisco Brito.

De aprendiz de alfaiataria, Francisco completou a sua passagem a oficial. O topo da carreira viria mais tarde como contra-mestre, «aquele que apenas corta». Um percurso rápido feito entre paredes caiadas de branco, onde a luz da rua entra pela única janela, aquela que dá vista para o Rossio.
A conversa faz-se na sala de espera, pequena. Aqui o cliente aguarda a sua vez, ocupando o tempo, provavelmente, com um dos inúmeros catálogos com amostras de tecido.
Da famosa janela, chega o burburinho da rua. Há quem apregoe a sorte contida numa fracção da lotaria. Há quem ponha a conversa em dia numa esplanada. Francisco Brito confessa que não gostava da fama da sua janela noutros tempos. «Nunca deixava vir aqui ninguém, sobretudo se era dia de muitas movimentações», conta, retomando o tom sussurrado.
«Houve, contudo, um dia que apareceu aqui uma moça sueca, com uma perna engessada. Pediu para fazer uma filmagem. Hesitei, mas ao ver o estado da moça e o esforço que terá feito para subir as escadas deixei-a entrar. Passou todo o dia na janela a filmar», pormenoriza o alfaiate.
Enquanto a «moça sueca» filmava a Praça do Rossio na década de 1970, Francisco Brito e os nove funcionários que naquela altura empregava, estendiam o tecido sobre a mesa. Gestos que se repetem hoje. Giz branco e mão certeira para desenhar o formato da roupa com o auxílio de uma régua e esquadro. A tesoura, grande e afiada, retira o excedente de tecido. As costureiras, com máquinas de coser e à mão, unem o restante e a roupa ganha forma.

No terceiro andar da Alfaiataria Brito, não há corredores. Da sala de espera a porta abre-se, dando imediatamente acesso à sala de provas. Um espaço rectangular com o espelho e um manequim para colocar os casacos.
«É aqui que um alfaiate mostra o que vale», adianta Francisco no espaço pequeno, abrigo das vaidades dos clientes. «Um bom alfaiate é aquele que faz bons ajustes. Repare, posso fazer um casaco de medida de peito 48, com um molde de 52, porque é aqui, quando o cliente prova, que ajusto», diz, entusiasmado.
«O corpo das pessoas varia muito, há uns que têm a barriga para fora, outros para dentro. Há ajustes nas mangas, muita coisa», conclui.

Uma das portas da sala de provas dá por fim acesso ao espaço de trabalho. Aqui, há máquinas de coser, tábuas de passar a ferro, pedaços de tecido caídos no chão, roupa alinhavada à espera da costureira. Há a famosa janela.
«Tenho clientes diversos. Há curiosamente uma geração nova com 30 a 35 anos que gosta de ter os seus fatos por medida. Tenho também muitos clientes de Angola. Neste caso, por exemplo, já tenho os moldes previamente feitos. Muitas vezes os clientes ligam e dizem: ‘quero um fato desta e da outra forma’. Estou aí no dia X. E eu faço. Quando eles chegam é experimentar, acertar pormenores e levar».

A confecção de fatos por medida, à distância, é possível porque Francisco tem moldes de todos os clientes. «Quando o cliente aqui vem pela primeira vez tiro, com uma fita métrica, as medidas de peito, anca, ombros, altura, tudo. Depois faço moldes em tecido». Este método de trabalho possibilita que o cliente faça encomendas. «E depois se aparecer aqui um cliente com medidas semelhantes é mais rápido, porque, cá está, o segredo vem depois na prova», acrescenta.
Hoje, Francisco conta com a ajuda de três costureiras, que alternam entre si. «Já ninguém procura o ofício. Isto é artesanal e demora a aprender», confessa.

Em média um cliente compra quatro a cinco fatos por ano, feitos com o preceito de mãos portuguesas que trabalham tecidos estrangeiros, sobretudo italianos. «Repare, uma pessoa vem aqui e paga a mão-de-obra que claro não é barata porque tudo isto é artesanal, não vai agora empregar o dinheiro numa fazenda ruim e as portuguesas estão muito más», remata o alfaiate.
As fibras não entram nesta casa. Francisco diz que «trabalha lã com caxemira, seda». A última tarefa na alfaiataria é o passar a ferro. Neste ponto, Francisco Brito mantém igualmente as tradições. O ferro é aquecido com carvão, «porque deixa o fato muito melhor», confessa. 


 Sara Pelicano
 Café Portugal

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ensino


Após alguns anos de estagnação no ensino da Alfaiataria, surgiu a oportunidade de darmos um curso prático de ponto e prova de alfaiate a convite da Escola de Moda do Porto (GUDI). Com esta iniciativa pretendemos não só formar jovens e profissionais da área de moda, em manualidades quase extintas no nosso pais, como também dar nova vida ao trabalho por medida, através do ensino da arte que celebramos todos os dias. Nesta apresentação fica o convite a que se juntem a nós, num movimento ao qual daremos certamente nova dimensão tanto em Portugal como no exterior. As inscrições já estão abertas e terá inicio dia 5 de Novembro de 2011. O custo mensal é de €150 com a duração de 6 meses. Para inscrições e mais informações podem contactar das seguintes formas:
. Ayres Gonçalo - +351 914 471 671
. Paulo Rodrigues - +351 916 774 287
. labdisartoria@gmail.com


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Homenagem




Não posso prestar uma homenagem pública ao meu mestre por tudo o que ele me ensinou, posso no entanto continuar por muitos anos a sua linha, o seu preceito, a sua arte. Vou sentir muito a sua falta Sr. Fernando Gonçalves.

João Paulo Rodrigues

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Em tempos modernos ainda existe tradição



Longe vão os tempos em que ir ao alfaiate era um hábito comum a todos os homens, que procuravam nestes artistas verdadeiras obras de arte que se adaptassem na perfeição ao seu corpo. Para os mais novos, a geração dos centros comerciais e das grandes superfícies, este tema pode causar algum espanto mas acima de tudo uma dúvida: ainda existem alfaiates? A resposta é sim, existem! São mais escassos que antigamente e muitos vêem os seus negócios ameaçados pela indústria comercial e pelas novas tecnologias de corte e costura que se desenvolveram e continuam a desenvolver, mas alguns sobrevivem, principalmente em Lisboa e no Porto.
A alfaiataria nasceu no Renascimento, quando a roupa deixou de ter como única função esconder o corpo para passar a dar destaque aos seus contornos. Foi nesta altura que ganharam importância os mestres alfaiates.
O i encontrou alguns daqueles que resistiram ao fabrico de roupa em série e fornecem ao seu cliente um produto personalizado, adaptado ao seu estilo e ao seu corpo. Procurado essencialmente por homens de classe média-alta, o fato - calças e blazer - continua a ser a peça mais pedida. No entanto, a maior parte dos alfaiates tem maior oferta que antigamente. Camisas, gravatas e até sapatos fazem parte daquilo que têm à disposição das pessoas que os procuram.
Apesar de, por tradição, ser uma arte geralmente mais procurada por homens, alguns alfaiates também oferecem roupas para mulheres e crianças. Há ainda quem faça fardas, trajes e bordados a pedido do cliente.
Talvez por ser um serviço personalizado e por a maior parte das casas utilizar tecidos de primeira qualidade, o serviço destes profissionais não sai barato, podendo os preços chegar aos milhares de euros. Também por essa razão as pessoas que os procuram são sobretudo homens de famílias ricas e importantes, políticos e empresários com os mais altos cargos.
Se é uma pessoa que gosta de tradição e ainda não se rendeu totalmente à moda em série, se gosta de serviços personalizado e de qualidade, siga os conselhos do i e contacte uma destas casas. Com certeza não se vai arrepender.



1 A. GONÇALVES ALFAIATES
 Onde: Porto. Rua Galeria de Paris
Características: Estabelecida no Porto desde 1973, aposta numa confecção 100% natural.
Tem como objectivo conservar uma cultura de bom gosto, perfeição e respeito pela tradição.

2 AVELINO e CARLOS FERREIRA
 Onde: Viseu. Av. Emídio Navarro
Características: Trabalham há cerca de 50 anos, utilizando as técnicas mais avançadas e tecidos de alta qualidade. É o cliente que escolhe o tecido e determina o estilo.

3 ROSA & TEIXEIRA
 Onde: Lisboa. Av. da Liberdade
Características: Uma das casas mais antigas de Lisboa, tem acompanhado a evolução da moda sem perder a sua personalidade particular. Confecção conhecida e valorizada internacionalmente.

4 ALEXANDRE ALFAIATE
 Onde: Porto. Praça Coronel Pacheco
Características: Casa que conta já com 80 anos. Clientes maioritariamente de classe média-alta. Cada fato ronda os 900 euros.

5 NUNES CORREA
 Onde: Lisboa. Rua Augusta
Características: Fundada em 1856. Oferece produtos a preços acessíveis e competitivos. Também produz sapatos.

6 ALFAIATARIA RIBATEJO
Onde: Santarém. Rua Alexandre Herculano
Características: Desde 1950 que procura distinguir-se pela oferta de produtos de grande qualidade. Faz fardamentos, trajes, fatos por medida e bordados.

7 AUGUSTO SALDANHA
Onde: Porto. Rua Trindade Coelho
Características: Alfaiate há 45  anos, veste clientes de classe média-alta. É ele que faz os fatos de Paulo Portas.



Joana Refoios Martins
In Jornal I

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O alfaiate



 Um dos últimos trabalhos do italiano Giovanni Battista Moroni (1520/4 - 1579), Il Tagliapanni foi pintado entre 1565 e 1570 e é, na minha opinião, uma das joias do acervo da National Gallery. A beleza do modelo fica ainda mais marcante pela posição da cabeça e pelo jeito como ele encara o espectador. Nunca tinha ouvido falar em Moroni até dar de cara com essa tela em um dos passeios pelo museu. Um gênio do retrato.

Fonte:  blog SpaceMelato


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

34° Congresso Mundial de Mestres Alfaiates



  "34 º Congresso Mundial 
       de Mestre Alfaiates"
 

De 5 a 09 de Agosto de 2011, Roma  torna-se a Capital da Alfaiataria Mundial. Os mestres alfaiates de todo o mundo reúnem-se em Roma para o seu Congresso Mundial, que desde 1910 se realiza a cada dois anos em diferentes cidades ao redor do mundo, unidos na sua diversidade, adaptando uma história rica.
Roma e Itália respondem plenamente a essas características, com milhares de oficinas de costura espalhadas por todo o país, cuja capital é o coração, batendo por causa de maior representação da sua história, grande prestígio adquirido e presença nas mais importantes instituições sectoriais.

Congresso, que também coincide com a presidência da Federação Mundial de mestres alfaiates confiada ao italiano Mario Napolitano.
A comissão organizadora do Congresso é formada pela Federmoda CNA, pela Academia Nacional de Alfaiates e Costureiras e Federação
Mundial de Mestres Alfaiates, que representa  a excelência da Alfaiataria e têm como primeiro dever  proteger e transmitir este antigo e nobre ofício para as gerações futuras.
O 34 º Congresso Mundial de Alfaiates Mestre tem uma agenda muito exigente. As autoridades máximas nacionais e locais estarão presentes para dar as boas-vindas mais de 400 mestres alfaiates, que chegarão a Roma, de todo o mundo. Estes países já confirmaram sua participação: Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Japão, Malásia, Países Baixos, Portugal, Suécia, Suíça, Tailândia. 


1910-2010: História do Congresso Mundial de Mestres Alfaiates 

 
O Congresso Mundial de Mestres Alfaiates  é um evento de prestígio que ocorre com a participação activa dos alfaiates, artesãos de todo o mundo.
A sua primeira edição teve lugar em Bruxelas, em 1910, com a participação de 250 mestres alfaiates de  15 países diferentes. Durante o congresso foi criado o Comité Executivo da Federação Internacional de  Mestres Alfaiates, presidido pelo seu fundador, Jacques Frickx, presidente eleito da Federação, e é estabelecida a cadência de dois anos para cada Congresso; no entanto, nos primeiros anos não foi cumprida por causa da  1ª Guerra Mundial e a recessão económica geral que resultou.
As nomeações
seguintes foram Paris em 1937, com a presença de centenas de alfaiates em Zurique em 1939 e Londres em 1950, onde ocorreu o 4º Congresso Mundial de Mestres Alfaiates. A partir desse momento, o Congresso continuou seu caminho seguindo a bienal estabelecida durante o seu primeiro ano, recolhendo sempre mais sucesso e mantendo um papel fundamental no panorama de eventos envolvendo o mundo da alfaiataria.
Durante  a realização, as belas cidades que já sediaram o Congresso tornaram-se a ocasião para a encruzilhada de moda e cultura, proporcionando um magnífico pano de fundo para a pista onde foi possível admirar as criações de alfaiataria de elevada categoria, criações únicas, feitas por mestres alfaiates de vários países, cada um com a sua cultura, unidos na sua diversidade a partir de uma das mais antigas profissões do mundo. 


Gabinete de Imprensa para a comissão organizadora:  

Flavia Salinetto para Roma srl tel. 339.4838869  e-mail: @ flavia.salinetti inwind.it  
Francesco Caruso Litrico tel. 3334682892 e-mail: fralit@alice.it
Congresso website: www.wfmt2011.org
Organização do Congresso Roma Srl, Via Cicerone 49-00193 Roma  

Tel Fax 06.96526644 06.97255730
E-mail: romae@ferrettistudio.com