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sábado, 5 de maio de 2018

O alfaiate que vestiu as estrelas de “Dallas”

Resultado de imagem para joão carlos ganhãoJosé Carlos Ganhão trabalhou durante anos para os actores da série televisiva norte-americana que fez furor nos anos 80. Reformado e à distância de quase quarenta anos, na sua casa em Salvaterra de Magos, conta-nos algumas histórias desses tempos.


Durante anos José Carlos Ganhão conviveu com duas das principais estrelas da série norte-americana “Dallas”, que prendeu várias gerações de portugueses ao pequeno ecrã nos anos 80. Hoje, o alfaiate ribatejano já não cria o vestuário das personagens J.R. (Larry Hagman) e Bobby (Patrick Duffy) e é do sofá da sua casa em Salvaterra de Magos, na companhia da esposa, Maria Luísa Almeida, que vai seguindo as novas andanças da saga da família Ewing, entretanto relançada. 
Passados 20 anos de ter regressado dos Estados Unidos da América onde esteve emigrado durante 40 anos, já com um rosto marcado pelo tempo e alguns cabelos brancos pelo meio, o alfaiate natural de Salvaterra de Magos ainda se recorda bem de alguns momentos hilariantes passados com os actores.
Uma vez Larry Hagman, que fazia de vilão, apareceu embriagado na sala de prova de roupas. “Vesti-lhe um casaco e comecei a fazer a prova. Só que, como ele estava todo torto para um dos lados, tive de lhe dizer para ir beber mais uns copos ao bar para se endireitar. E não é que ele foi? Depois, regressou e vesti-lhe outra vez o casaco. Foi quando ele arrancou uma das mangas que lhe disse para voltar noutro dia. Não podia ser de outra maneira”, conta.
Extrovertido e desenrascado, o alfaiate de 82 anos arranjou amizade facilmente com os actores da série americana. “Não estávamos autorizados pela empresa onde trabalhava, a Neuman Marcus, a dar confiança aos famosos, mas como português que sou sempre gostei de conversar”, conta José Carlos Ganhão, dizendo que foi assim que ficou amigo de Larry Hagman. O actor apareceu para provar umas roupas e o alfaiate, apesar de só “arranhar” o inglês, começou a falar com ele. Foi quando se apercebeu que ele falava português. “Os pais dele tinham comprado um rancho no Brasil e foi aí que aprendeu a falar a língua de Camões”, diz.
O sonho americano
Apaixonado por grandes cidades (viveu em Nova Iorque, Dallas e Washington), o alfaiate reformado conta que os primeiros tempos em terras do Tio Sam não foram fáceis. As saudades da família, a língua e as temperaturas extremas foram as maiores dificuldades que sentiu mas que rapidamente ultrapassou. “Estava com o amor da minha vida, a concretizar o meu sonho e num país de sonho. Não podia pedir mais nada”, admite José Carlos Ganhão mostrando a única peça de que ainda não se desfez: a tesoura que sempre usou para cortar os tecidos nos Estados Unidos da América.
Hoje, arrependido de não ter filhos, confessa que ele e a sua esposa souberam gozar os 40 anos que estiveram emigrados, mas também houve oportunidade para pouparem. Pé-de-meia providencial para José Carlos Ganhão combater o cancro da próstata. “Foi durante um exame numa consulta de medicina de trabalho que descobriram. Depois fiz uma cirurgia, vendi tudo e regressei à minha terra”, conta com lágrimas no rosto. “Para morrer, mais valia ser na minha terra”, diz.
Os fatos para Américo Tomás
José Carlos Ganhão sempre quis ser jornalista, mas as dificuldades económicas da sua família fez com que abraçasse a arte da alfaiataria. “A minha mãe trabalhava no campo e o meu pai fazia charretes e carroças. Éramos uma família pobre e tive de me fazer muito cedo à vida”, explica ao mesmo tempo que olha para uma fotografia da sua mocidade.
Aos 13 anos decidiu ser alfaiate porque o seu pai não queria que ele trabalhasse no campo. “Fui para Lisboa aprender o ofício na alfaiataria Lourenço e Santos, no centro da capital portuguesa”, conta, dizendo que foi aí que conheceu Maria Luísa Almeida, a costureira com quem viria a casar.
Ainda esteve nessa loja durante dois anos até que o amigo José Luís Rosa convidou-o para ir trabalhar com ele e aceitou. Ainda lá esteve um ano até que o convidaram para trabalhar numa alfaiataria de Coruche. Aí, adianta, fez as fardas do corpo diplomático quando a Rainha de Inglaterra, Isabel II, veio a Portugal e os fatos do ex-Presidente da República, Américo Tomás, na sua visita a Angola.
José Carlos Ganhão ainda se manteve alguns anos em Coruche até que, aos 20 anos, a Embaixada Americana convidou-o para ir para trabalhar para os Estados Unidos. “É que, na altura, tinham uma carência muito grande de alfaiates”, explica. Ainda trabalhou numa lavandaria, junto à fronteira com o Canadá, mas foi em Nova Iorque, na empresa francesa Guy Laroche, e mais tarde na empresa Neinam Marcus, em Dallas e em Washington, que a sua carreira ganhou asas. Regressou passados 40 anos.
Modelos nuas quanto baste
Uma das partes que mais detestava do seu ofício na empresa americana Neuman Marcus era a passagem de modelos. “Aquilo era tudo uma paneleirice”, revela o alfaiate de Salvaterra de Magos enquanto olha para uma das suas últimas fotos que guarda religiosamente com o actor Larry Hagman. Ainda assim, diz, “valia por ver as modelos nuas enquanto ia dando os últimos ajustes às roupas”.
Manicure diária
Homem que é homem não faz manicure, mas José Carlos Ganhão passou a ser obrigado a fazê-lo todos os dias logo de manhã quando entrou na empresa Neuman Marcus. “Era uma mariquice, mas se não tratasse das unhas era logo chamado a atenção”, conta. E se com as unhas havia sempre muito rigor, também na roupa havia exigências. Diariamente o alfaiate tinha de vestir um fato diferente e andar sempre aprumado. “E se não respeitasse estava o caldo entornado”, garante.
Natal era para viajar
Natal é sinónimo de família, mas, para o alfaiate, durante os 40 anos que esteve emigrado, foi de solidão. Longe do seu país e de outros familiares, José Carlos Ganhão e a sua esposa nunca celebravam essa festividade. Preferiam antes viajar e conhecer novos locais. É que assim, explica, “não nos doía tanto”.

O Mirante

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

XXVIII Encontro Nacional de Mestres Alfaiates

MESTRES ALFAIATES DE TODO O PAÍS VISITAM CONCELHO

28º Encontro nacional decorreu com várias iniciativas concentradas em Aguiar da Beira, Dornelas e na Quinta de S. Estevão.




O dia começou por entre nuvens e tímidos raios de sol a espreitar. Em frente à Câmara Municipal começava a fazer-se sentir o burburinho de cada vez mais pessoas a chegar vindas de todos os recantos do país. Era o XXVIII Encontro Nacional de Mestres Alfaiates, que no dia 28 de Maio deste ano teve lugar em Dornelas e Aguiar da Beira. Por volta das dez horas da manhã já com todas as pessoas reunidas, alfaiates e famílias, todos foram recebidos no Salão Nobre da Câmara Municipal pelo presidente da câmara Joaquim Bonifácio, pelo presidente da mesa da assembleia Virgílio Cunha e pelo casal organizador do evento, Fernando Andrade e Maria dos Anjos Santos. 






Prosseguiu então envolvida nos tons de luz suaves deste salão os discursos de boas vindas, com o Presidente da Câmara a lembrar a importância de tal evento para o concelho, a importância da profissão homenageada, em particular para um concelho que já viu muitos dos seus homens a tirar medidas e a coser roupa para muitos, resistindo agora apenas um, e no geral para o país, que vê esta forma de arte cada vez mais em vias de extinção. Houve ainda tempo para apresentar o concelho e relembrar todas as suas potencialidades e recursos, sendo sempre o enfoque principal, as suas gentes.












 Depois das boas vindas dadas, e de um coffe break ainda na câmara municipal, os participantes dirigiam-se para Dornelas onde começaram por fazer uma visita ao atelier de costura Brudipex, propriedade dos organizadores e que abriu as suas portas às dezenas de pessoas para compreenderem também um pouco da dinâmica que a costura vive por estes lados. 












Já em direção à Igreja Matriz de São Sebastião, com o dia já pleno de sol e uma natureza primaveril que os brindava, os participantes foram recebidos por um grupo de cantares composto por dornelenses, junto à igreja. A missa, realizada para o efeito, quase encheu os bancos do templo. Para acompanhar a beleza dos seus altares, colunas em talha dourada e arranjos florais, um coro entoou as canções que acompanharam a eucaristia.












 Dita a missa, o grupo dirigiu-se para um dos locais históricos da freguesia, a Fonte Velha. Aí, enquanto ouviam o filho da terra Francisco Fernandes a contar algumas das histórias sem fim associadas aquele lugar centenário, foram degustando alguns petiscos tradicionais feitos pela Sra. Rosa Seixas, regados com vinho da terra ou água da fonte. Foram fundamentais também para a preparação do local, o Sr. António e a Sra. Fernanda, casal morador na Fonte Velha. 






Chegou então a hora de rumar ao restaurante onde iria continuar o convívio. Chegados à Quinta de Santo Estevão, rodeados pelas serras adjacentes, habitantes dos quatro cantos do país tiveram a oportunidade de degustar o que de melhor a gastronomia aguiarense tem. O convívio continuou e a inevitável troca de experiências também. Com uma predominância de pessoas mais velhas, há uma esperança para a profissão com base nos poucos jovens alfaiates que se encontravam, sendo esta partilha e convívio intergeracional fundamental também para a solidificação da profissão, e uma demonstração da união que se vive e dedicação ao serviço de fazer o melhor possível pelo outro. 






O grupo de música tradicional aguiarense Raízes da Terra deu um toque especial ao convívio que culminou com o partir do bolo comemorativo do evento, à qual se seguiu a entrega dos diplomas de participação a todos os Alfaiates presentes. 










A organização fica desde já muito agradecida à Câmara Municipal de Aguiar da Beira pela sua envolvência e parte fundamental na organização e à Junta de Freguesia de Dornelas.

 Uma grande palavra de apreço e agradecimento também a todos os dornelenses que se envolveram neste dia, tornando-o memorável. 



Texto e fotos: Bruno Andrade