sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Alfaiates não resistem à moda do pronto-a-vestir

                        
  
        Contam-se pelos dedos de uma mão os mestres com porta aberta na cidade.
 
   Quatro a cinco mestres de alfaiataria, dois em actividade regular, tentam resistir em Viseu, à crise ditada pela moda do pronto a vestir. Uma moda que ganhou novo fôlego a partir da década de setenta e que, aos poucos, vai obrigando muitos a fechar as portas por falta de clientela.
    "O Governo tem de aproveitar os artistas ainda no activo para incutir nos jovens o gosto por esta actividade. Uma tarefa que terá de passar pela atribuição de incentivos financeiros que viabilizem a planificação de acções de formação", sugere Avelino Ferreira, um dos alfaiates da cidade, que promete resistir enquanto as forças não o abandonarem.
    Natural de Vale de Cambra, no distrito de Aveiro, Avelino Ferreira, 63 anos, passou quase toda a sua vida entre Portugal e Luanda (Angola), a confeccionar fatos por medida. Alturas houve, em anos recuados, em que chegou a produzir dez por mês. "Agora se fizer 20 por ano já é uma boa média", diz com tristeza.
       300 euros por fato
      Apesar da crise que afecta o sector, Avelino Ferreira consegue ver uma luz ao "fundo do túnel": "Tenho um filho, licenciado em Gestão de Empresas, que decidiu pôr o canudo de lado e abraçar esta belíssima profissão. Está em Londres a fazer formação", partilha com visível orgulho.
     A exemplo de outros colegas, Avelino Ferreira acredita que os alfaiates ainda têm futuro. "Os fatos feitos por medida terão sempre mercado" garante o empresário, que elenca três segmentos de clientes fiéis: as pessoas que exigem qualidade no talho, na confecção, nos tecidos e acessórios; os que têm dificuldade em encontrar no pronto a vestir fatos que  lhes fique bem e os portadores de deficiência.
    Um fato feito por medida podia custar, há algumas décadas, 300 escudos. " Hoje aquele dinheiro daria para comprar um botão. Um fato razoável não custa menos de 300 euros. E se o tecido for de muita qualidade pode ir aos mil euros e mais", declara Avelino Ferreira.


Centena e meia no país
Avelino Ferreira calcula que o número de
        alfaiates no activo não ultrapasse, actualmente, 
a centena e meia em todo o país.
Cerca de metade estarão hoje em Viseu,
         com as respectivas famílias, para participar no 
XVIII Encontro dos Mestres Alfaiates.
Um momento de convívio, entre artesões 
              do mesmo ofício, e de troca de experiências sobre 
os avanços no sector.
          Um momento cultural no Museu de Grão Vasco,
      servirá de "aperitivo", para o almoço regional,
      num restaurante da periferia. "Somos poucos. 
                Temos de estar unidos.Estes encontros ultrapassam, 
    de longe,  o mero convívio.Recordamos os 
primeiros tempos da nossa profissão,
as primeiras máquinas que compramos, 
os clientes famosos que não prescindiam
- e muitos continuam a não prescindir- 
do nosso trabalho.
           Um fato feito à medida é garantia de bem vestir.
Acredito que os bons velhos tempos 
              acabarão por regresssar", vaticina Avelino Ferreira.

 Teresa Cardoso
 in JN

terça-feira, 21 de setembro de 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"O alfaiate é como o barbeiro. Se servir bem, é para a vida"

Maria de Lurdes Almeida, braço direito do marido, Fernando Almeida, na alfaiataria de Aveiro


Diz-se que não há nada como um fato executado a partir de um modelo real. O i falou com os mestres nacionais na arte do corte e costura e tirou a prova de que estão cá para ficar.

Hoje em dia é fácil encontrar fatos por medida em lojas como a Massimo Dutti ou a Hugo Boss, mas se procura o real deal o melhor é ir à origem da confecção. Na década de 30 eram os alfaiates os responsáveis pelo trajar clássico da alta roda nacional. Em 2010 são os filhos desses mesmos artesãos a dar continuidade a uma arte em vias de extinção. A escassez de técnicos especializados é hoje o elefante na sala de qualquer ateliê. São por isso os habitués (e jovens com sentido estético apurado) - que não abdicam de ter no armário peças únicas e personalizadas - que dão alento à sobrevivência do corte e costura por medida. "Quer um fato bem feito? Vá a um alfaiate!", diz João Teodósio, que sabe do que fala.

João Milheiro Teodósio. A falta de mão-de-obra contribuiu para o encerramento da alfaiataria com o mesmo nome. "Trabalho não falta, já não há é pessoal." Aos 73 anos está reformado, mas por "amor à profissão" - a única que conhece desde os 11 anos - mantém o ateliê em casa. A clientela, "homens nos 50 anos, porque a mocidade já não liga a estas coisas", é seleccionada, mas deixa saudades dos tempos em que bastava passar nos Pastéis de Belém, perguntar pelo "João alfaiate e toda a gente sabia onde era". João promete executar um fato clássico, "à antiga, feitinho à mão", em duas semanas. Mas só porque está sozinho, porque antes ele e a mulher, "a melhor costureira de Lisboa", eram a "dupla temível" da alfaiataria nacional. Rápidos, eficientes e perfeitos.

Travessa de Santo António, 23, Lisboa;
Tel: 213 625 280. Preço: 500€

Camisaria Pitta. "Somos a camisaria mais antiga da Península Ibérica, com 123 anos de existência." Quem o diz é o Sr. Vasco, responsável pela loja desde 1977 e defensor da ideia de que "um bom fato é como um quadro", sendo o alfaiate o artista por excelência. Excelência é, aliás, o fio condutor da imagem da casa. A oficina tem um leque completo de serviços: tiradas as medidas, resta escolher a fazenda disponível no catálogo da loja e, se for o caso, levar uma camisa que faça pendant. Depois é esperar um mês e meio para conhecer o resultado. E como a história da moda é feita de regressos à origem, nesta alfaiataria o "clássico" é transversal a todas as épocas: "Os fatos que se vendem nas lojas saem de moda rapidamente. Aqui não. Confeccionamos os fatos de sempre e para sempre."

Rua Augusta, 193 2.º, Lisboa;
Tel: 213 427 526; Preço: 2000€

Américo Gonçalves. Américo, o pai, abriu o ateliê em 1973. Hoje são os filhos a dar continuidade ao negócio. Víctor, 52 anos, é um dos mais novos mestres portugueses na arte da costura. Lembra com orgulho uma das páginas do livro de honra da Casa Gonçalves, na qual um rapaz de 19 anos descreveu o seu primeiro fato por medida como uma "experiência fabulosa". Apesar de não impor o seu gosto pessoal aos clientes, admite que prefere que a roupa fique com um aspecto "fofo", fugindo à traça quase exclusivamente clássica da concorrência. Ao contrário de outros colegas de profissão, a procura é de tal forma heterogénea que não lhe permite definir um cliente-tipo. "É que os alfaiates são como os barbeiros. Se servirem bem, é para vida."

Rua Galeria de Paris, 36-1.º Esq. Porto;
Tel: 222 059 695. Preço: 800€

Lourenço & Santos, Lda. Em Outubro, a loja celebra o primeiro centenário. A gerência mudou há uns anos, mas o nome ficou para sempre. Agora, sob a alçada do grupo Diniz & Cruz, é Paula Cruz a dar a cara pela marca. Situada no coração da Baixa lisboeta, pela porta entram diariamente "executivos, bancários e até jogadores de futebol" da nossa praça. O método tradicional (de confecção artesanal) continua a dar cartas nas vendas, mas o semitradicional (com algumas entretelas coladas) é o mais indicado para os clientes apressados. É a diferença entre esperar uma semana e um mês pela execução de um fato por medida. Por enquanto o target é masculino, mas Paula admite "vir a alargar o leque de vendas à roupa feminina por medida". Mas não há pressa. É que a Diniz & Cruz já está no mercado de pronto-a-vestir para mulheres, representada pela marca Dalmata.

Praça dos Restauradores, 47-A e B, Lisboa;
Tel: 213 462 570. Preço: 500€

Fernando Martins Almeida. Aprendeu a ser alfaiate durante a escola primária, mas só depois do serviço militar é que se especializou na confecção industrial para outras marcas. Hoje, aos 60 anos, trabalha em parceria com a mulher, Maria de Lurdes. "Tiro as medidas, faço as provas, o corte e os acertos. Depois a minha mulher fica responsável pela confecção." Homem de dois ofícios, relata com entusiasmo a viagem, há dois anos, a Basileia "para tirar medidas à selecção suíça de hipismo". Trabalha com tecidos importados de Inglaterra e Itália e até tem em stock alguns catálogos "da marca que fornece os tecidos à Casa Branca".

Rua Dias Cainarim, 15, Esgueira, Aveiro;
Tel: 234 311 528 Preço: 700€

Nelma Viana
in Jornal i

domingo, 4 de julho de 2010

sábado, 5 de junho de 2010

XXI Encontro Nacional dos Mestres Alfaiates


A mestria dos alfaiates 

Carrazeda de Ansiães ­recebeu o XXI encontro que reuniu cerca de 53 artesãos oriundos de diversos pontos do País


A arte de fazer trajes por medida tem perdido força, mas os mestres que dão vida a esta profissão continuam mostrar a perfeição e o bom gosto dos fatos que são confeccionados nas típicas alfaiatarias portugueses.
No distrito de Bragança, esta arte tem os dias contados, visto que não há jovens a aprender esta profissão, que foi passando de geração em geração.
Para conviverem e trocarem experiências sobre o negócio, alfaiates de todo o País reúnem-se, anualmente, numa cidade portuguesa. Anteontem, Carrazeda de Ansiães foi o palco do XXI Encontro Nacional dos Mestres Alfaiates, onde estiveram reunidos mais de meia centena de artesãos, oriundos de diferentes ponto do País.
“Já somos uma família. Quem vem uma vez, faz questão de participar sempre”, realça Luís Moutinho, um alfaiate de Carrazeda de Ansiães, que participou na organização do evento.
Aprendeu a arte aos 14 anos e desde então tem-se mantido fiel ao corte e costura à moda artesanal. As técnicas são antigas, mas a evolução dos tempos obrigaram os alfaiates a moldarem-se aos pedidos e, nos dias que correm, tanto costuram para homem, como para mulher. “Antes, o trabalho dos alfaiates era mais para homens, mas, actualmente, tanto faço fatos para homens como para senhoras. Temos que fazer o que aparece”, confessa o artesão.
Também Durbal Carvalho, de 72 anos, afirma, com orgulho, que é ele que veste a mulher, mas lamenta a quebra no volume de encomendas. “Hoje a maioria das pessoas já compra a roupa feita. Nas lojas compra-se um fato por 100 ou 125 euros, eu tenho que levar 150 ou 200 euros, porque faço tudo de forma artesanal e por medida”, realça o alfaiate.
Alfaiates são cada vez mais solicitados para fazer os ajustes à roupa comprada no pronto-a-vestir
A quebra no negócio ronda os 50 por cento, pelo que estes mestres do corte e costura viram-se obrigados a recorrer aos arranjos da roupa que as pessoas já compram feita. “As pessoas já compram a roupa feita, mas cá está o alfaiate para dar o acerto final. Fazer as bainhas, apertar ou alargar”, salienta Luís Moutinho.
Mesmo assim, há clientes fiéis à alfaiataria, que perduram no tempo. “Tenho pessoas que solicitam os meus serviços desde o tempo do meu falecido patrão, ou seja, há mais de 39 anos”, recorda o alfaiate.

Por: Teresa Batista




segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ao Arsénio Alfaiate

Com tanto pronto-a-vestir
Há quem teime em resistir
No limiar do milénio
Numa quase extinta arte
O Arsénio Alfaiate
Bem pode chamar-se um génio.

Junto à praça das palmeiras
Homem de finas maneiras
Até botões prega à mão
Calça, colete, casaco
As componentes dum fato
Cuja marca é distinção.

Fita, tesoura, dedal
Linhas, máquinas a pedal
Quanto basta ao artesão
O resto é competência
Dedicação, experiência
E o lema perfeição.

Hoje, fazer fato à mão
É uma rara profissão
Que enobrece quem a tem
Quando acabar este génio
A quem chamamos Arsénio
Não ficará mais ninguém.

Das profissões liberais
É a que respeito mais
Pois requer carinho e arte
Condenada à extinção
Tem no Arsénio um bastião
Um exímio Alfaiate.


António Tavares Chula
www.chuladeagueda.com

terça-feira, 18 de maio de 2010