domingo, 24 de fevereiro de 2008

Mãos de Ouro

Alexandre Oliveira Ferreira é mestre na arte de bem coser e um dos melhores e mais antigos alfaiates do Porto, e, quem sabe, de Portugal. Detentor de uma sabedoria incalculável numa arte que, infelizmente, hoje, se encontra em extinção. Este é um exemplo de 50 anos de sucesso e amor a um ofício de longa data.

O alfaiate é responsável pela confecção da indumentária, é mestre especializado e tido em grande consideração. Possuidor de grande habilidade em talhar, cortar e exe­cutar qualquer peça que lhe seja re­quisitada, é-lhe ainda exigido saber a quantidade de pano necessário para a confecção de cada peça. Pelas mãos do nosso entrevis­tado já passaram um número sem conta de clientes. Em entrevista ao jornal «O Primeiro de Janeiro», Alexandre Oliveira Ferreira conta a história dos anos de actividade no seu oficio. "Comecei a trabalhar como alfaiate aos 13 anos de ida­de, na mesma alfaiataria de que sou proprietário, mas, como emprega­do. Nessa altura era meu patrão Américo Pacheco, que infelizmen­te morreu tinha eu 23 anos. Foi então que tomei a iniciativa de fi­car com o estabelecimento e conti­nuar o ofício", explica o nosso en­trevistado. O «Alexandre alfaiate», já exis­te há 50 anos, sendo essa uma das razões de hoje ser uma casa com nome na cidade do Porto. O nosso interlocutor, durante os anos de actividade, vestiu pessoas de grande importância na Invic­ta. Os alfaiates de renome eram fre­quentados pela classe média alta da sociedade portuense, talvez tam­bém, devido ao facto dos preços pra­ticados para um fato, que impossibi­litavam o acesso a uma classe mais baixa. "A qualidade é algo que não tem preço. Basta o facto de o fato ser feito especificamente para essa pessoa, que lhe vai "cair" de uma forma perfeita, podendo, até, atra­vés das mãos do alfaiate disfarçar alguma incorrecção na postura do cliente", declara Alexandre Olivei­ra Ferreira.
Hoje o estabelecimento já não é tão procurado como há dois anos atrás, esta é uma prática que está cada vez mais a cair em desuso, ou seja, ir ao alfaiate mandar fazer um fato. As razões são duas: uma por­que as pessoas não têm tempo e pre­ferem ir a um pronto-a-vestir, onde podem experimentar e levar logo para casa, a segunda razão pode ser atribuída aos preços, porque a soci­edade portuguesa está a ser afectada por uma crise económica, cor­tando naquilo que atribuem ser mais supérfluo. Como nota de curiosida­de, refira-se, também, que a faixa etária mais jovem nunca foi grande adepta desta arte, preferiram, sem­pre, as práticas calças de ganga "Não digo que perdi os meus clientes, isso não é verdade, apenas noto uma redução no número de fatos que me encomendam por ano, e, noto também que nos dias que cor­rem sou mais requisitado por cli­entes que têm dificuldades em en­contrar no pronto-a-vestir, fatos com os seus números, ou então, também sou procurado por pesso­as que procuram algo de diferen­te, que precisam de uma pessoa como eu para lhes fazer um fato", explica o nosso entrevistado.
O estabelecimento do nosso entrevistado é composto pelo atelier e por uma boutique no rés-do-chão, onde expõe as suas obras de arte e, onde também expõe todo o tipo de acessórios, que possam acompanhar um fato e, ainda as fazendas com que são confeccionados os fatos. O cliente que entre na loja de Alexandre Oliveira Ferreira, encon­tra à sua disposição um catálogo onde pode escolher o feitio que pre­tende e, no mesmo sítio escolher as fazendas que são todas de grande qualidade, pois esse é um requisito imprescindível para a confecção de um bom fato. É, também, impor­tante referir que todos os fatos aqui confeccionados são exclusivos, nun­ca são feitos dois fatos iguais, por outro lado, é de referir que não se consegue, no comércio do pronto a vestir, encontrar fazendas iguais às que o Alexandre... utiliza. "Na mi­nha loja só utilizo fazendas da me­lhor qualidade, só trabalho com fa­zendas inglesas e italianas", comen­ta Alexandre Oliveira Ferreira. Agora com 70 anos, o nosso entrevistado enfrenta as consequên­cias da industrialização, que lhe fez descer as vendas, porque a popula­ção portuguesa prefere ir para o shopping fazer as suas compras, esquecendo-se do comércio tradicional. Esta é também a sua principal concorrente, pelas razões já referi­das atrás. Esta é uma profissão em ex­tinção, porque ninguém a quis se­guir, "para se ser um bom alfaiate são necessários mais anos do aque­les necessários para tirar um curso superior numa faculdade, por essa razão eu lhe atribuo o nome de cur­so superior.Pois para se conseguir executar uma fato na perfeição são necessários seis anos de muito trei­no e dedicação. Esta é uma profis­são como os antigos sapateiros que faziam sapatos por medida e que hoje estão em extinção, como nós", lamenta o nosso entrevistado.
Alexandre Oliveira Ferreira la­menta o facto de não ter consegui­do incutir aos seus filhos o gosto por esta profissão, nem ter conseguido ensinar nenhuma pessoa, que agora podia continuar e preservar a sua arte e os seus segredos.
Para concluir o nosso interlo­cutor deixa uma mensagem aos seus clientes e futuros clientes, "queria desejar a todos os meus clientes um Feliz Natal e boas en­tradas para o ano novo e que tudo lhes corra pelo melhor. São estes os meus votos, e claro, que não deixem de aparecer na minha loja".

In Primeiro de Janeiro

O Grupo Scabal

A Scabal é geralmente vista como líder mundial no que respeita a tecidos de prestígio para homem e está representada em 65 países. Além de fornecer os seus ercelentes tecidos aos principais alfaiates e estilistas mundiais, a Scabal também propõe uma colecção de acessórios e pronto-a-vestir.
Fundada em 1938 na cidade de Bruxelas, Bélgica, a Scabal está envolvida no design, fabricação e venda de tecidos, pronto-a-vestir (Ready-to-Wear) e roupa por medida (Made-to-Measure), permitindo aos seus clientes aperfeiçoar a sua própria arte de expressão, através da forma de vestir. Todos os tecidos são produzidos exclusivamente no Reino Unido ou Itália e mencionam o nome Scabal na ourela como prova de autenticidade e qualidade. A capacidade de produção Scabal está dividida entre uma fábrica de tecidos em Yorkshire, Reino Unido, e uma confecção de vestuário em Saarbrúcken, Alemanha.
Os tecidos Scabal, sin
ónimo de prestígio e requinte, são utilizados pelos melhores alfaiates e estilistas mundiais, e usados por personalidades distintas e famosas incluindo políticos, empresários, reis, desportistas e actores como Robert De Niro, Jack Nicholson, Tom Cruise, Michael Jordan,....
Nos Estados Unidos, uma grande parte das vendas s
ão direccionadas para os estúdios de filmagens em Hollywood, os tecidos Scabal têm sido usados em muitos filmes da actualidade incluindo "O Alfaiate do Panamá" (The Tailor of Panamá), Titanic", "Casino", "007 - Golden Eye", "MIB - Homens de Negro" (Man In Black), "Os Intocáveis" (77?e Intouchables), "Apoio 13", "Batman Forevef e "Batman Returns", "Dracula", "A Família Adams" (The Adams Family), "A Firma" (The Firm). A Scabal também forneceu tecido para os filmes "Wall Streef, "A Máfia" (The Mob) e toda a saga de "O Padrinho" (Godfather).
O Ready-to-Wear Scabal est
á disponível por toda a Europa e é complementado pelo sistema Made-to-Measure. Este sistema permite que um fato seja personalizado de acordo com as especificações e desejos do cliente, dando-lhe a oportunidade de escolher o seu tecido Scabal perante uma vasta colecção, nunca inferior a 5000 artigos diferentes (desde o Super 100'S ao Super 250'S, lã, caxemira, seda, etc.), bem como o modelo que melhor lhe assente. Todos os fatos Made-to-Measure são disponibilizados em apenas 3 semanas. Se desejado, até o nome do cliente pode ser bordado no interior do fato.
A Scabal foi pioneira no desenvolvimento do conceito Made-to-Measure h
á 25 anos atrás e é ainda uma das empresas lideres no que respeita a fatos por medida personalizados.
A Scabal, com sede em Bruxelas, em pleno cora
ção da Europa, emprega 600 pessoas. É uma empresa privada com presença na maioria dos países europeus bem como noutros grandes centros em todo o mundo. Existem lojas Scabal em Bruxelas, Londres, Milão, Paris, Atenas, Amesterdão, Genebra, Dusseldorf, Istambul, Estados Unidos, Japão, Hong Kong...
Em1996, a Scabal lan
çou uma linha de acessórios, uma exclusiva colecção de produtos que inclui camisas, gravatas, malhas e cintos, para que os clientes Scabal se possam vestir como um Gentleman da cabeça aos pés. Os acessórios são fabricados em Itália pelos melhores artífices e, tal como os tecidos, são produzidos com recurso a materiais de elevada qualidade. A Scabal tornou-se uma marca reconhecida internacionalmente, por representar o melhor vestuário para homem, seja pelo tecido para um fato por medida, pelo Ready-to-Wear ou pelos acessórios.

João Vaz

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Scabal


No Tortosendo, Covilhã, uma empresa importadora de tecidos para alfaiataria apostou nas mais luxuosas fibras e na qualidade dos seus profissionais para se lançar no mercado. O resultado é o sucesso num mercado nacional onde há o interesse por produtos de qualida­de e de personalização. Com uma filosofia centrada na qualidade, inovação e criati­vidade e um serviço personaliza­do, a J. Vaz & Irmão, Lda tem se destacado no mercado português.
Esta empresa localizada em Tortosendo, Covilhã, representa a marca internacional Scabal, funda­da em Bruxelas, em 1938. Inicial­mente a Scabal era uma empresa que fabricava vestuário destinado aos operários; porém, ao longo dos tempos, esta pequena empresa transformou-se na "empresa-mãe" de várias fábricas de alta qualida­de, com os desenhadores mais prestigiados e com um negócio têx­til alargado a todo o Mundo. De início a empresa tinha seis trabalhadores. Neste momento, a Scabal emprega 600 funcionários em todo o Mundo. A evolução da multinacional passou pela introdução do prêt-a-porter, permitindo que os clientes expressassem a sua personalidade através do que vestiam. Esta cria­ção do vestuário feito à medida há 25 anos atrás, ainda hoje se reper­cute no sucesso da empresa nesta área. Constantemente empenhada na procura das mais luxuosas fi­bras, a Scabal através dos seus re presentantes, procura prestar o mesmo nível de qualidade de aten­dimento. A J. Vaz & Irmão, Lda é a presença deste requinte em Por­tugal, representante do tecido da multinacional e responsável pela distribuição deste tecido no País.
Corria o ano de 1992, quan­do foi realizada a fundação da em­presa J. Vaz & Irmão, Lda. Esta ocorreu após o primeiro contacto do representante da multinacional Scabal com Jorge Vaz. A empresa iniciou a distribuição de tecidos a metro para alfaiates. Pouco a pou­co a empresa foi crescendo e alar­gando o seu público-alvo. Neste momento, as zonas do Grande Porto, Lisboa e Coimbra represen­tam os pontos de venda mais im­portantes desta empresa. Quanto aos seus principais clientes, estes são alfaiates, lojas de pronto-a-vestir e particulares. Os tecidos que são apresentados pela J. Vaz & Ir­mão, Lda são constituídos por caxemira e também por cem cento lã. Jorge Vaz mostra optimismo quanto ao mercado, porque "mui­tas pessoas procuram tecidos de boa qualidade". Contudo, há tam­bém uma perspectiva pessimista da parte de Jorge Vaz, visto que ao número de clientes tende cada vez mais a diminuir, o que nos obriga a inovar e procurar alternativas*.

In "O Primeiro de Janeiro"

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Mãos de Tesoura

OS HOMENS "DE BERÇO" CONTINUAM A ENCOMENDAR OS SEUS FATOS POR MEDIDA. DAS GRANDES FAMÍLIAS TRADICIONAIS, A POLÍTICOS E EMPRESÁRIOS, A TRADIÇÃO É A PALAVRA DE ORDEM. EM NOME DA ELEGÂNCIA. UMA VIAGEM PELOS "ATELIERS" DE LISBOA E PORTO QUE INSISTEM EM DESENHAR OS CORPOS.





O pudor aristocrático de Augusto Saldanha impede-o de falar de dinheiro.
" Os
botões de um bom fato por medida podem ser mais caros do que um mau fato"

"O gabinete de provas é um confessionário." Augusto Saldanha, o autor da frase, é alfaiate esta­belecido no Porto, na Rua de Trindade Coelho, perto da Estação de S. Bento. "As pessoas contam--me muitos problemas da vida, aqui." Augusto Saldanha, nascido em Freixo de Espada à Cinta, 54 anos, alfaiate desde os 12, é um homem das Arábias. Pequeno, agitado, repete vezes sem conta: "Orgulho-me do meu trabalho." Sente orgulho dos fatos feitos por medida, em que as golas dos casacos não dependem de cortes--padrão, os botões das mangas têm casas reais e não fingidas, os pespontos evitam aquele ar industrial do pronto-a-vestir, as riscas ou os quadrados da fazenda acertam nos ombros e nos bolsos. Orgulha-se também de ver os clientes pas­sarem na rua bem vestidos. Orgulha-se ainda dos nomes sonantes para quem corta os fatos: Pessanhas, Pinheiros Torres, famílias consideradas do Porto: "Encomendam pouco, mas bom. São gente de berço e tratam-me bem." Há três anos conquistou um novo cliente, o ex--ministro da Defesa e ex-presidente do CDS-PP: Paulo Portas. Nem precisa de afirmar o orgulho que sente nesta aquisição; uma fotografia do político e do alfaiate, ambos sorridentes, tirada no Forte de S. Julião da Barra, reina numa estante da sala de provas, imagem que ele não deixou repro­duzir. "Trabalho com ele e com pessoas amigas dele." O que mudou na imagem de Portas nestes últimos três anos ele recusa dizê-lo, com humil­dade formal: "Isso são vocês, jornalistas, que devem notar." Mas adianta que nunca mais se viu o antigo ministro com casacos de três botões (limitam-se a dois) ou de ombros largos. Em contrapartida, cada manga passou a andar com a última casa desabotoada para transmitir um ar casual. E os forros podem ir do azul-psicadélico ao vermelho-comunista: "Chamei-lhe a atenção, mas o dr. Portas respondeu-me que o sangue de Cristo também era vermelho..."




O ambiente do Rosa & Teixeira é altamente fotogénico, misturando o requinte da faia, da brecha da Arrábida, com o luxo dos tecidos naturais

A empresa de alfaiataria Rosa & Teixeira trans­formou-se num ícone nacional. As instalações principais estão hoje na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e há também uma loja no Porto. Para roupa por medida, os clientes devem deslocar-se, porém, à capital. A história desta casa é já cen­tenária. No século XIX, Manuel Amieiro aper­feiçoa a sua arte na parisiense Rue Royale - então centro mundial da moda - e regressa a Lisboa. O rei D. Carlos e os infantes foram seus clientes, tal como o conde de Paris, pretendente à coroa de França. O seu discípulo Francisco Rosa associa-se ao genro António Teixeira. Estava encontrado o nome da firma. Agora, a empresa - com loja de porta aberta para a rua onde se vende também pronto-a-vestir de luxo - pertence a José João de Castro, antigo gerente do Pestana & Brito, que ficou dono absoluto depois da saída voluntária da família do sócio Miguel Ribeiro. De remodelação em remodelação - 1981, 1985, 1996 -, a casa foi afinando o seu cenário de alta costura: tornou as instalações mais clássicas onde era necessário e preservou o que estava bem, como o fantástico gabinete de provas. O 'atelier', composto por 15 costureiras, 20 ofi­ciais e um mestre, é chefiado por Eugênio Fernandes Gomes, 61 anos, homem simpático e tímido. Nascido na freguesia de Ribeira Dio, concelho de Oliveira de Frades, foi chamado para a profissão por um tio que vivia no Seixal. Nunca mais parou. Dono de oficina própria, levou para o Rosa & Teixeira as suas empregadas. Entende-se: Gomes é sensível e fica transtornado quando se lhe pergunta porque deixou a sua oficina para trabalhar por conta de outrem: "Ainda nem perce­bi bem. Não gosto de falar disso' Comove-se. Rosa & Teixeira dispõe ainda de outra oficina, com sete pessoas, para acertos em fatos de pronto--a-vestir. O ambiente é altamente fotogénico, mis­turando o requinte da faia, da brecha da Arrábida, do latão, com o luxo dos tecidos naturais: seda pura lã, linho. Na retaguarda, estruturas do ar condicionado que combatem o calor do pesadís­simo ferro-de-engomar; condutas que libertam o ar do pó das fazendas; rolinhos contendo os moldes e as medidas de cada freguês, com os nomes destes colados dão ao canto de uma sala um vago ar japonês. "Quando engordam ou ema­grecem, chamamo-los cá para rectificar medidas", explica Eugênio Gomes. Nem toda a gente se permite um fato por medida no Rosa & Teixeira. Os preços, pendurados nos cortes de fazenda e nas peças de pronto-a-vestir da loja, são vertiginosos. "Os melhores clientes têm bom gosto e podem usufruir desse bom gosto. Trazem os filhos quando eles fazem o primeiro fato. Promovem a cultura de bem--vestir", comenta Maria do Carmo, relações públicas e há 23 anos na casa. No Porto, Augusto Saldanha navega nas mesmas águas: "Um bom fato por medida pode ficar mais barato do que um bom fato de confecção industrial. Os botões de um bom fato por medida podem ser mais caros do que um mau fato de confecção inteiro/' Uma espécie de pudor aristocrático impede que se fale de dinheiro.



A Labrador tem um clientela selecta de administradores de bancos, advogados, economistas e políticos. "Também jornalistas", acrescenta José Pinheiro

Durante anos, o pronto-a-vestir roeu o mercado aos alfaiates tradicionais. Muitos abandonaram, reformando-se, ou foram contratados por 'ateliers' industriais. Mas os que resistiram parecem afogados em trabalho. Saldanha - com uma operária fixa e duas colaboradoras em casa - afirma que está melhor: trabalha para o teatro; corta togas para advogados e becas para juizes; responde a encomendas de estilistas; desenha casacas para os bailes de debutantes do Porto. No Rosa & Teixeira, ufanam-se de grande clientela, tanto nacional como de estrangeiros que vivem em Portugal. Mas toda a gente lamenta a crise do sector, provocada sobretudo pela falta de profissionais. Não há pessoal, queixava-se já no século XIX o conde de Gouvarinho, personagem do romance 'Os Maias', Eça de Queirós. No entender dos mestres que restam, faltam aprendizes e não há porque as escolas são escassas e as que existem preparam profissionais para a indústria e não para o artesanato. "O único estabelecimento de ensino que nos pediu para trazer alunos a visitar as oficinas foi a Casa Pia", conta Maria do Carmo. A Labrador - empresa de pronto-a-vestir de quali­dade, com duas lojas em Lisboa, uma no Porto e outra em Madrid - tem oficinas para fazer acertos personalizados na roupa vendida: cortar calças, des- manchar ombros e ilhargas de casacos, refazer os pontos, abrir casas falsas de botões. José Joaquim Pinheiro é o mestre do principal 'atelier', com cinco funcionários, situado num quintal sempre florido nas traseiras da loja, na Rua Braancamp, em Lisboa. Nascido há 66 anos, em Pinhel, começou aos sete como aprendiz. Chegou à Labrador em 1997 e tem saudades de "trabalhar na medida, de levar a obra do princípio ao fim". Casa dirigida às classes médias e altas, não oferece essas alterações (gratuitas) a todos os clientes. "Só a alguns, os mais impor­tantes", sorri José Pinheiro, que propagandeia uma clientela selecta de administradores de bancos, advogados, economistas, como o professor António Borges, e políticos como Correia de Campos, ministro da Saúde. "Também jornalistas", sorri de novo: "Mário Bettencourt Resendes, Luís Delgado."





Herança - Os mestres devem estar atentos a todos os pormenores. O perfeccionismo é a sua arma. Carlos Mendes, uma espécie de sindicalista da classe, gostava que a arte perdurasse com os filhos. «Talvez seja utópico»

Regresso ao artesanato. Carlos Mendes, 56 anos, natural de Pampilhosa da Serra, é uma espécie de sindicalista dos mestres alfaiates. Lamenta a inexistência de escolas, o autodidactismo da classe, a loucura dos impostos: "Esta firma, que é minha e da minha mulher, paga impostos como se fosse uma indústria." Segundo Carlos Mendes, a alfaiataria deveria ser taxada como arte­sanato. Com uma loja na Praça da Alegria, em Lisboa, onde emprega duas costureiras, chegou a Lisboa como aprendiz, em 1965. Oriundo de uma família de alfaiates - pai e irmão mais velho -, o des­tino estava traçado: "Acabada a instrução primária, não havia outro futuro." Estabeleceu-se por conta própria em 1971. Lembra-se de quando aprendizes e oficiais eram muitíssimo mal remunerados, o que afastou gente da profissão, por isso os impostos deveriam baixar para que ele lhes pudesse pagar melhor. "Talvez seja utópico." Utopia que o leva a participar como presidente da assembleia geral da Comissão de Melhoramentos da sua aldeia natal, Lomba do Barco, junto ao Zêzere: "Sou regionalista. O interior do País está a ficar deserto." Como deserta está a profissão. Todos estes mestres alfaiates - nascidos na província, em famílias pobres - têm filhos. Nenhum quis seguir a arte dos pais.

ns

Texto -Torcato Sepúlveda

Fotos - Dora Nogueira



domingo, 27 de janeiro de 2008

Homenagem


Alfaiate à moda antiga resiste no Porto

Vitorino Sampaio Lei­te, alfaiate de profis­são, enternece-nos quando fala da seu pequeno atelier, como se fosse uma casa de bonecas onde perma­necesse desde a adolescência, por gosto de confeccionar as vestes dos senhores do seu imaginário. Também disfarça um já pouco comum amor à arte, preferindo perder a ga­nhar se o cliente questiona o seu trabalho, que por vezes habilmente molda a um cor­po já sem medidas ou sem modelos fabricados nas redes comerciais.

Entregue ao mister des­de 1958, e há 33 anos instalado na Avenida Bra­sil, à Foz do Douro, o artífice é simplesmente des­conhecido de parte das ge­rações mais recentes, que ignoram haver ainda fatos de homem que se fazem por medida, que se provam duas e três vezes para as­sentar bem as costuras ou para combater a teimosia de uma ruga persistente.

«Gosto da profissão mas poucas vezes me agra­da o que faço», exterioriza, deixando a impressão da exigência com que constrói as suas peças, desde as indumentárias normais até à chamada «obra de cinta» (smoking ou casaca), acolitado por dois ou três colaboradores que resistiram a um trabalho praticamente em extinção. Apesar de tudo, obra não lhe falta, embora a procura venha apenas do pequeno estrato que fez frente ao pronto-a-vestir ou que não se imagina com outro traje senão um clássico «blaser» ou um paletó confeccionado em puro algodão do Egipto. O custo não é exagerado se avaliar­mos o preço que hoje atinge qualquer insignificância «hand made», ou os fatos italianos «prêt-à-porter» que proliferam nas lojas da especialidade. Já não haverá muitas alfaiatarias do género no Porto a quem o cliente possa confiar um bom corte de fato. As roupas de marca quase que lançaram este pequeno grupo de artífices num beco sem saída, apesar de o rigor e qualidade que teimam oferecer permita manter ainda um lote de perduráveis apreciadores.

«Os clientes é que fazem a casa»

«Os clientes é que fazem a casa, embora as mãos também tenham o seu va­lor», constata Vitorino Lei­te, segurando no braço direito um casaco alinha­vado sem mangas. O traba­lho, como é fácil perceber, tem muito que se lhe diga, sendo sujeito a vários tes­tes: na primeira prova, fa­zenda e forros são molda­dos ao corpo do cliente, sendo posteriormente testa­dos de novo, mas já com as frentes elaboradas. Nor­malmente recorre-se a uma terceira prova, com manga e gola alinhavada, antes de se concluir a peça, que finalmente é rematada e engomada. Antes a fazenda é sujeita ao chamado «ressoo», sendo só depois cortada e preparada para as provas. Uma tarefa delicada, mas que é acompanhada de um saudável convívio com clientes, que o artista aproveita para pôr a conversa em dia e contar as últimas novidades.

O alfaiate tem três cola­boradores - profissionais que o acompanham há dé­cadas, sempre fiéis, «uma equipa maravilhosa», como o próprio a define, reconhe­cendo que dificilmente en­contraria gente nova para trabalhar à sua maneira. «São profissionais excelen­tes, e merecem tudo porque me acompanham há muitos anos».

Vitorino Leite não pare­ce ser daqueles profissionais que leva os problemas para casa, que dorme com eles em cima do travesseiro, mas preocupa-o atrasar a obra e o cliente apressado que lhe deixa à porta a mensagem que todos bem conhecemos: «Preciso deste fato para sexta-feira, sem falta».

Da sua clientela diz ser «gente de princípios que gosta de vestir bem» (o artista aprecia enaltecer as pessoas que o procuram, que considera «a razão de ser da sua alfaiataria»), possuindo também um rol de «amigos da casa» que com ele se aconselharam e depois acabaram por gostar do seu trabalho. O alfaiate orgulha-se de ter em cartei­ra «gente de grande exigên­cia», constando do seu fi­cheiro desde comandantes de navio até conceituados ídolos da canção, como o saudoso Tony de Matos.

Especialista em corte clássico, Vitorino Leite mol­da-se ao gosto de qualquer pessoa, mostrando-se capaz de executar desde o modelo mais ligeiro até aos fatos de linha italiana exclusivos das afamadas catedrais da mo­da. «Executo qualquer tra­balho, clássico ou moderno, só que o cliente tem que me dizer bem o que quer», explica.

Alfaiataria ocupa a casa onde morreu António Nobre

A alfaiataria funciona como qualquer casa vulgar do ramo. Aliás, o cliente pode comprar ali os forros, tecido e até botões, tudo das melhores origens. Em maté­ria de fazendas o artista prefere não arriscar, pos­suindo padrões para todos os gostos, desde as peças nacionais até aos consagra­dos fios italianos e ingleses.

No Inverno, como é natural, o trabalho aperta e o tempo escasseia à medi­da que o Natal se aproxima. A alfaiataria confecciona entre dois a três fatos de homem por semana, poden­do até satisfazer mais clien­tes que lhe encomendam peças soltas. «Os alfaiates têm fama de demorar muito graceja, embora nos garan­ta que nunca deixou ficar um cliente desprevenido. «Fui sempre pontualíssimo, sempre muito direitinho. Nesse aspecto não tenho histórias para contar».

De resto, Vitorino Leite parece nada ter a recear. E é vê-lo, pouco depois do meio-dia, conversador, a pisar sossegadamente o pas­seio da Avenida Brasil, em direcção a casa. A alfaiata­ria ocupa o rés-do-chão do edifício onde morreu Antó­nio Nobre, uma antiga casa de praia de que Vitorino se orgulha e que parece não querer abandonar por nada deste mundo, apesar das propostas que já lhe chega­ram às mãos. No entanto, já com mais de sessenta anos de idade, o alfaiate não deixará continuadores no ofício.

Mas o artista, para já, não pensa nisso, preferindo recordar os tempos em que se decidiu pela profissão, ensaiando os primeiros gol­pes de agulha e os precoces alinhavos, e lembrando o rigor que sempre dedicou ao seu mister: «No começo nunca me agradou o meu trabalho, queria aprender sem deslizes; quando corria mal, sem dar a entender a alguém, afastava-me e cho­rava».

Manuel Morato (texto)

Angela Velhote (foto)


segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Alfaiates de Lisboa com pouco pano a medir

"Daqui a dez anos, a cidade contará pelos dedos" os últimos profissionais. São poucos, e ainda menos os bons, mas ainda se po­dem encontrar em Lisboa. Dedicados a uma clientela cada vez mais seleccionada, os alfaiates que restam na capital debatem-se com a falta de profissionais capa­zes, a quem gostariam de passar o testemunho, mas não acreditam nos estilistas. Ao pronto-a-vestir resisti­rão os melhores. lr ao alfaiate não é hoje tão vulgar como era há 30 anos. A indústria têxtil cresceu e pôs no mercado um sem-número de artigos e, por outro lado, os alfaiates estão a desaparecer a olhos vistos. E a cidade nem dá por isso. Reformam-se, morrem, desistem e deixam uma herança que ninguém quer, um trabalho que ninguém continua. Existem hoje na Grande Lisboa, segundo números da Associação Portuguesa dos In­dustriais de Vestuário (APIV) — aproximados, porque não há dados recentes e nem todos os elementos deste ofício estão ins­critos —, entre três e quatro centenas de alfaiates. Na lista telefónica encontram-se refe­rências à actividade, mas muitas não são mais que um nome e um número na lista, havendo "alfaiatarias" que não contam nos seus quadros com um único alfaiate.Para se perceber como se chegou a esta situação e preciso recuar no tempo. Segundo o Mi­nistério do Emprego, na década de 50, um por cento da popula­ção jovem activa estava entregue aos afazeres da alfaiataria, o que significava que cerca de 5700 portugueses, entre os 10 e os 19 anos estava, na época, a aprender a medir, cortar, pas­sar, coser, como viam fazer o pai, o tio ou qualquer outro membro ou amigo da família. O sr. Baptista foi um dos que, por volta dos 12 anos, co­meçou a aprender o ofício. Co­mo a grande maioria dos alfaia­tes de Lisboa, só mais tarde veio para a capital, onde estavam os melhores da profissão. Os primeiros passos, deu-os em Viana do Castelo. Considera que os al­faiates que iniciavam a aprendi­zagem na província ficavam mais bem preparados, pois do­minavam todas as fases da cria­ção de um fato—cortar, passar, pontear, coser, tudo passava pe­las suas mãos. Em Lisboa, foi para um pri­meiro andar da Rua da Prata. Era uma das quase duas deze­nas de pessoas que lá trabalha­vam. "Nesse tempo havia traba­lho para todos. Quando ouvia a campainha da porta, o patrão dizia logo 'oxalá não seja mais um freguês para escolher um modelo'. Hoje, dizemos exacta­mente o contrário..." O patrão morreu e o sr. Baptista conti­nuou o trabalho, até hoje, mas por apenas mais dois anos. Tra­balha com uma costureira e não tem ninguém a quem passar testemunho. Desde há muito que não sabe o que é ter um aprendiz.Um outro alfaiate, também estabelecido num velho edifício da Rua da Prata, prepara-se pa­ra o adeus aos clientes, no fim do ano. Completaria 53 anos de profissão no início de 1992, mas não vai lá chegar. O problema é também não ter quem continue o trabalho. "Os jovens de hoje não estão para isto. Hoje só que­rem tirar um cursinho e arran­jar um emprego, mas não um trabalho", diz. Mas reconhece que é preciso "muita arte, muito saber, muita paciência, para es­tar todo o dia num terceiro an­dar a trabalhar a sério".
Hábitos mudaram em 74
Os alfaiates apontam geral­mente o ano de 1974 como o iní­cio do declínio da profissão, o que explicam pela "mudança nos hábitos da população, que passou a vestir roupa mais prá­tica, acompanhada pela dimi­nuição do pessoal das alfaiata­rias". E. Gomes dá o exemplo da casa onde trabalha, que, tendo já contado com mais de 60 pes­soas, emprega hoje 12. Na opinião do vice-presidente da APIV, Armindo Bártolo, ele próprio alfaiate, "assiste-se a um processo de selecção, e só os melhores vão aguentar o embate com o pronto-a-vestir". Habituados a um modo de vida e de trabalho muito virado para si próprios, os alfaiates tendem a valorizar a aprendizagem tra­dicional, extensiva, apologista do "faz como eu faço", em detrimento de escolas e cursos, que ainda olham com muitas sus­peitas. O primeiro passo para uma nova vaga de alfaiates, capazes de produzir mais e melhor, foi dado pelo Centro de Formação Profissional dos Industriais de Vestuário e Confecção, que chegou a promover, não há muito tempo, um curso. No en­tanto, um pormenor deitou por terra todos os planos : a inexis­tência de candidatos... Em paí­ses como a Áustria ou a Holanda, porém, tem sido possível atrair os jovens para a alfaiata­ria, com cursos cuja qualidade é unanimemente reconhecida em Portugal. "Por este andar", afirma o sr. Baptista, "daqui a dez anos, Lisboa contará pelos dedos os seus alfaiates." Para amostra, vão ficar al­guns, ou porque são muito bons (e muito caros) ou porque estão bem organizados, nomeada­mente em estabelecimentos de pronto-a-vestir e que não deixa­rão escapar o elemento de dis­tinção que é ter uma secção de alfaiataria. Daqui resultará que esta actividade se torne cada vez mais elitista, com um mer­cado concentrado em três gran­des grupos: os que, pelas suas características físicas, não en­contram roupa no pronto-a-ves­tir; aqueles a quem a posição so­cial exija um grande cuidado na apresentação, e os que simples­mente não se "revêem" na rou­pa industrial, mas apenas na­quela feita à sua medida, perso­nalizada. Este é, de resto, um mundo todo ele personalizado. São-no os artigos vendidos, como as re­lações entre artesão e cliente. O alfaiate tem, normalmente, amigos para quem trabalha, o que é diferente de trabalhar pa­ra "simples fregueses". Uma amizade cimentada em muitos anos, muitos fatos, muitas con­fidências. O cliente da casa, nor­malmente, volta sempre, pelo que é difícil voltar-lhe as costas e fechar o negócio... Os novos estilistas portu­gueses não são considerados co­mo fazendo parte do mesmo mundo. "Só sabem desenhar", considera E. Gomes. "Não têm qualquer relação com a alfaiata­ria. Dedicam-se à moda feminina, ao contrário, por exemplo, dos estilistas espanhóis, que também se dedicam à roupa masculina", afirma um vende­dor de uma das antigas alfaiata­rias da Baixa, hoje ligada ao pronto-a-vestir. •

Filipe Costa

domingo, 30 de dezembro de 2007




Ser alfaiate é hoje uma profissão em vias de extinção. Se pegar numa lista telefónica vai constatar, com facilidade, que na cidade do Porto existem apenas meia dúzia, a maioria rondando os 60 anos. Já não há "seguidores" desta actividade, o que entristece António Saldanha, um dos poucos que ainda hoje se mantém activo na baixa do Porto

Os 67 anos de António Saldanha não são visíveis no rosto e postura, do homem que desde os 16 anos é alfaiate, um dos poucos ainda existentes na cidade do Porto. Enquanto fala mantém o sorriso aberto, revelando muita da paixão que sente por aquilo que faz. Não se imagina a reformar-se e ainda hoje faz todas as suas peças de roupa, com excepção de pullovers e camisas. Aprendeu "a sua arte" muito novo, quase criança, tinha onze anos. Foi ao longo de cinco anos que conheceu "todos os segredos" da actividade de alfaiate. A dedicação, o empenho e também o talento valeram-lhe uma fiel clientela que, passados tantos anos, ainda vem encomendar fatos ou simplesmente umas calças ou um casaco. Enquanto conversamos com ele, fomos interrompidos duas vezes, para uma prova e para o registo de uma encomenda de um novo fato. António Saldanha admitiu que o volume de trabalho tem vindo a diminuir, mas que "se consegue viver". Porém, a época de crise deixa as suas marcas.António Saldanha é natural de Freixo de Espada a Cinta onde aprendeu muito novo a profissão de alfaiate, mas foi em Torre de Moncorvo que se especializou. Depois da tropa, em 1965, veio para o Porto trabalhar, primeiro para o "Mário Alfaiate" e posteriormente para a "Casa David" onde rapidamente mostrou as suas potencialidades. O seu profissionalismo e valor foram rapidamente reconhecidos e valeram-lhe a oportunidade de tirar dois cursos de aperfeiçoamento na área técnica para fábricas, confecções e alfaiataria, ou seja, no âmbito da modelagem. Foi o melhor aluno, passando depois a ocupar a parte técnica da alfaiataria onde trabalhava na altura. Sempre quis ter o seu próprio negócio, por isso não ficou de braços cruzados e aproveitou as oportunidades que lhe foram surgindo. Em visita a uma Feira Internacional de Moda, em França, e devido a vários contactos feitos, surgiu a oportunidade de ingressar numa grande empresa de confecções. A hipótese de imigrar pareceu-lhe tentadora, mas ao fim de um ano, com a mulher e filhos em Portugal, e tendo muitas dificuldades para se legalizar, decidiu regressar. Adquiriu uma alfaiataria na rua de Santa Catarina e rapidamente os clientes foram surgindo e aumentando. "Cheguei a ter oito pessoas a trabalhar comigo", refere António Saldanha. Hoje o número de empregados é menor, na medida em que o volume de trabalho também diminuiu, porém salienta que actualmente é complicado arranjar pessoas especializadas nesta área. "É uma das razões para as alfaiatarias tenham os dias contados", diz. A título de exemplo, salienta que se puser um anúncio a pedir aprendizes ou estagiários de alfaiate ninguém responde, o que o entristece. Mas acima de tudo sustenta que, comparativamente aos outros colegas de profissão, é um optimista, pois a sua intuição diz-lhe quê "as coisas vão mudar", e até dá uma sugestão. A ANIVEC poderia dar apoios (suportando os custos do ensino e material gasto) para que os antigos alfaiates da cidade tivessem jovens estagiários a aprender o ofício.

Os seus clientes são os mesmos de sempre. É certo que alguns já morreram ao longo destes 30 anos em que trabalha por conta própria, porém entretanto começaram a vir os filhos e alguns amigos que continuam a encomendar peças de vestuário, embora em menor número. Normalmente vêm ao alfaiate fazer um fato completo, sobretudo ou simplesmente umas calças ou casaco. A justificação para vir ao alfaiate são sempre as mesmas: "fica melhor", "assenta na perfeição", "as peças não ficam deformadas com o uso". Há também algumas mulheres que aparecem, nomeadamente para fazerem o fato completo, ou seja, saia/casaco ou calça/casaco, mas são em número quase residual. Os meses entre Maio e Setembro, altura em que se realizam muitos casamentos, são os períodos em que o fluxo de encomendas aumenta exponencialmente. Se lhe perguntarem qual é a peça que mais gosta de fazer, responde que não tem preferência. É capaz de fazer uma toga, um fraque ou uma casaca do princípio ao fim. Mas usualmente na sua alfaiataria cada trabalhador tem uma função e uma área em que se distingue por aquilo que melhor faz. Actualmente tem três costureiras e é o próprio António Saldanha que tira as medidas, faz o corte das peças e realiza as provas, sendo o restante trabalho feito por elas. Apesar de ter uma ficha actualizada dos clientes, faz sempre duas provas das peças, pois pode haver algum pormenor que queiram alterar. E é fruto da conversa que tem durante essa tarefa que se vai apercebendo de aspectos que podem ser modificados. Na sua opinião, um bom alfaiate é aquele que gosta do que faz e isso revela-se no seu trabalho, nos pormenores. O saber fazer uma prova e marcar bem todos os elementos, desde a localização dos botões e o tamanho da manga é para si "meio caminho andado para executar bem a peça". Considera igualmente que factores como a dedicação e o empenho são igualmente fundamentais para exercer a actividade com o sucesso. Ser-se alfaiate requer amor e dedicação. "Não se pode estar na profissão simplesmente para cumprir horários". E a comprová-lo ainda hoje tem casa aberta e trabalha fora de horas se assim for necessário. Já diz o ditado - salienta -"quem corre por gosto não cansa".
Texto: Carla Nogueira
Fotos: Virgínia Ferreira
In Viva Outubro 2007