quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O alfaiate dos toureiros


Manuel Marques faz casacas para cavaleiros tauromáquicos há quase meio século. Ele é um exemplo vivo de uma tradição que teima em manter-se


Com uma infinidade de reflexos ao sabor da luz, as casacas de cetim bordadas a fios de ouro e prata evocam os cavalos correndo de melenas ao vento pela lezíria. Biscainho não é o centro do mundo, sequer do Ribatejo, mas esta aldeia per­to de Coruche acolhe, numa das suas ruas, um pequeno atelier que abriga um tesouro de sapiên­cia. Uma alfaiataria que há 40 anos é conhecida até nos continentes mais longínquos. Ali se ves­tem os cavaleiros da corrida à portuguesa. Além do ritual de vestir, entre provas, supersti­ções e preparação, há o momento em que o ca­valeiro exige elegância e agilidade para facilitar o espectáculo que se quer perfeito. Esta arte de vestir toureiros teme, no entanto, o fim, pois os 75 anos já pesam a Manuel Marques, que ainda garante continuar a costura "até o corpo deixar". Depois dele não se sabe. Não tem aprendiz nem quem queira aprender.
Neste quase meio século, pela sua casa passaram quase todos os cavaleiros portugueses. Só um não entrou lá: Paulo Caetano, "porque ele tinha um cunhado que era estilista e lhe fazia as casacas". Manuel Marques tem grande admiração pelos cavaleiros, fez bons amigos nos muitos anos de relacionamento profissional, conhece as suas vidas e sofrimentos, sabe que muitas delas se escreveram com sangue, suor e lágrimas. Diz que, "ao contrário do que muita gente ima­gina", o meio dos cavaleiros é pobre. "Gastam aquilo que não deviam, os cavalos, o vestuário, é tudo caro", portanto, é preciso fazer magia, à semelhança da história do touro azul: "É comer e beber e trazer o lanche todo para casa." Apesar disso, a vida dos homens que se dedicam à cria­ção de gado não é um rol de choros e lamenta­ções porque a simplicidade e a esperança são partes marcantes do seu carácter.
Se um dia as touradas acabarem? "Pode acon­tecer. Não pelo gosto mas pelo fim das ganada­rias. Aquele animal de arena existe em condi­ções únicas. Não se pode sequer classificá-lo como carne. É bravio." As castas foram-se aper­feiçoando até se alcançar o touro de lide. "Aca­bando as ganadarias, acabam-se as touradas. Sem um animal com um instinto de vida ou de morte não há corrida." Foi para a festa brava que Manuel Marques trabalhou 40 anos entre cetins, tesouras e bor­dados. Homem simples e bastante comunicativo, o alfaiate já foi várias vezes alvo de prémios e condecorações. Na parede do atelier tem emol­durado o Prémio Nacional de Artesanato Tradi­cional, referente a uma menção honrosa por um casaco de cavaleiro tauromáquico. "Foi em Julho de 1993. Daquela vez não ganhei o primeiro prémio por não ter lá o traje com­pleto", explica.
Nasceu no Biscainho, em 1933. Filho de agri­cultores, quando chegou a uma idade em que a grande maioria dos meninos começava uma vida dura no campo, Manuel Marques, com 12 anos, sentiu a vocação de acordeonista. Chegou aos 17 não profissionalizado mas a fa­zer profissão da música. Quis o destino cruzar «o seu caminho um mestre do acordeão que também era alfaiate. "Pelas dificuldades, talvez a luta ou por ser uma profissão muito picuinhas, achei muita graça", afirma com um certo brilho nos olhos. E nesse tempo, sem frequentar colégio nem universi­dade, viu na costura "uma maneira de sobres­sair e subir um bocadinho na vida". Foi aprender para alfaiate com as dificuldades inerentes à profissão "porque não havia quem quisesse ensinar. Hoje é diferente: quer-se en­sinar e não querem aprender". O professor era muito pouco sabido, mas foi dessa forma que Manuel percebeu a fadiga de uma profissão aparente­mente fácil, vista por quem está de fora. Isso não o esmo­receu. Partiu para Lisboa rumo à Academia Maguidal, só para alfaiates, na rua da Palma. "Eram 250 alfaiates... isto nos anos 40", recorda. Estabeleceu-se na terra natal mas não calou o acordeão. O trabalho como alfaiate começou por desenvolver-se no trivial - nos trajes tradi­cionais usados no Ribatejo - sempre com ten­dências e com vontade de aprender. Quando viu que tinha muitos lavores, fez uma escolha para que os ensaios musicais não o roubassem ao corte e costura.
Sem esperar, o alfaiate que na época vestia os toureiros, Alberto Armindo - há 50 anos na Rua Augusta, em Lisboa -, atingiu uma idade muito avançada e abandonou a arte. Vivendo perto da Herdade da Torrinha, "os Ribeiro Telles começa­ram a influenciar-me para aprender e aproveitei a deixa", conta. A curiosidade nasceu e Manuel Marques deixou a vontade falar mais alto. Voltou à Academia para procurar a ciência do corte da casaca. Com a característica garra das gentes ribatejanas, entregou-se de corpo e alma à função e pouco tempo depois a sua determi­nação dava frutos. "Arranjei as bordadeiras em Coruche e iniciei a primeira casaca para o João Telles", vermelha, estreada numa corrida em Algés. "Os nervos eram mais que muitos e a experiência nula, desconhecia os produtos e cal­hei desastradamente a fazer uma mancha na casaca, pensei que era o fim da minha vida." A solução que encontrou naquela ocasião passou por "molhá-la e ficou toda igual... mas nessa noite não dormi, era uma pressão desgraçada". O desaire não manchou a sorte e a casaca "foi um sucesso", numa vida que os juntou e uma amizade que os uniu. Ficou "com tudo na mão"; como alfaiate dos cavaleiros da corrida à portuguesa. Essa primeira casaca custou 25 contos. Hoje um trabalho daqueles custa mais de 1500 euros, e se for bordada a canotiIho - bordado feito em fino arame dourado - pode chegar aos três mil euros.

Antes dos 30, Manuel Marques conhece o amor, nos olhos de Margarida. Costureira no atelier, o alfaiate fala para a mulher sempre em tom de chalaça. "Hoje só faz o que ela quer", graceja. Sem deixar de referir toda a ajuda e dedica­ção que Margarida lhe tem dado ao longo da sua vida profissional. "Prepara o meu trabalho e tam­bém tenho um alfaiate que me ajuda quando estou atrapalhado nos arreios de cortesia." Cos­turam tudo o que se relaciona com o cavaleiro. Sempre bem-disposto, explica que faz "a casaca, a camisa, o colete, o calção, o tricórnio e os arreios de cortesia. Só não faço as botas e o cava­lo", apesar de também o vestir. A montaria traja os arreios de cortesia: a cobertura, as abas, a rabadilha, a capa de cela e o charel. "É uma obra que demora cem horas, que tem trabalho de correei­ro e leva tanto tecido como uma casaca e mais bordado." Ainda assim, os apetrechos do cavalo custam sempre menos 5OO euros que a casaca. Habitualmente, os cavaleiros ao encomendarem uma casaca pedem também os arreios para que o traje combine na perfeição.
A primeira das tarefas do alfaiate é afiar o giz. Com regra, traça os cetins especiais, normalmen­te estrangeiros e muito caros. Após tirar as medi­das, corta o modelo escolhido pelo cliente, alin­hava a casaca no manequim, manda bordar e entretelar; já montadas as peças, são depois ana­lisadas juntamente com o tricórnio e os arreios, revistas as casas de botão adornadas em soutax prata (um cordão espalmado), faz uma última prova e um mês depois a obra está pronta. Os bordados são à mão ou à máquina, em linhas de várias cores, a ouro ou prata. A memó­ria dos desenhos para bordados está arquivada em cartões antigos, guardados numa estante, tesouros mudos, até serem chamados a desem­penhar uma tarefa. A empreitada hoje já não esta a cargo das mulheres. A comandar as "bordadeiras" na realização de um motivo estão as máquinas e os computado­res. Cada desenho, ou mo­delo, pode ser realizado em três ou quatro jogos de cores diferentes, de forma mais perfeita e mais barata. Nu­ma mistura bizarra entre o arcaico e a alta tecnologia, o atelier está em condições de satisfazer qualquer enco­menda especial, quer em termos de colorido quer de motivo, em lante­joulas, missangas ou a canotilho. "Com as bordadeiras era tudo manual. Hoje temos os com­putadores que fazem os trabalhos com um software que permite novidades", explica Manuel. No tempo em que a mão-de-obra era barata, eram bordados até em Espanha pelas freiras, mas tudo isso acabou. "Agora para bordar a canotilho são pessoas com muita idade e nem paga o trabalho", garante.

A costura já não é tão exigente como antiga­mente, as novas tecnologias facilitam o tempo e as mãos, que manejam menos horas a agulha em riste. Mesmo assim, a vida de alfaiate não é para qualquer um, é preciso ter vocação, por isso, Manuel está certo que "daqui a 20 anos não há um alfaiate em Portugal". Acredita, contudo, que os processos modernos não deixam nada ficar para trás, diz que outras técnicas virão e por certo será encontrada uma alternativa... Talvez a carência seja motivo de atracção para os cos­tureiros no futuro. No entanto, parece que tal não tem vindo a acontecer.
Nem sempre as casacas de uma corrida à por­tuguesa tiveram a actual configuração. Na pri­meira geração, os cavaleiros toureavam com uma casaca solta, um traje Luís XV, que desde então sofreu modificações. Actualmente tem dois machos atrás, é uma obra de silhueta com borda­dos imaginados pelo ante­cessor de Alberto Armindo, o alfaiate Rosado e Pires. Am­bos antecessores de Manuel Marques, conceberam dese­nhos que se enquadravam na personalidade portuguesa mais tradicional. Pelo contrá­rio, "os bordados espanhóis não possuem uma sequência tão completa". O colete - que também é bordado - possui o mesmo desenho da casaca ou variado. A mo­dernidade trouxe mais liberdade à expressão artística e já nada é tão formal. Contudo, a tradi­ção das rendas nos punhos da camisa e no bolso direito do colete permanece. Atrás, a casaca tem um laço preto que vem do tempo do marquês de Marialva, que impôs algumas regras no século XVIII, proibindo a morte das reses na arena. Dizia-se que o laço negro na casaca do cavaleiro era em sinal de luto pela atitude do marquês, mas Manuel Marques garante que não. "Acabou o laço que prendia o cabelo do cavaleiro e veio com Rosado e Pires para a casaca. O cabelo já não se usava empolado mas sim com o tricórnio." Pa­ra o enfeitar aplica-se os brasilhões em canotilho, doutrina do senhor Azevedo, que tinha uma chapelaria na Baixa de Lisboa, e as penas de aves­truz transformadas em belas plumas brancas. E é ao ritmo sabiamente cadenciado da tesoura no cetim que o alfaiate, sentado em frente ao teflon mágico, que não mancha os tecidos, vigia a sua obra, à caça do mínimo defeito, até atingir a perfeição desejada. Tal grau de exigência limi­ta a produção a não mais de uma a duas casacas por mês. Mas a busca da perfeição começa bem antes, quando o cavaleiro escolhe a cor do teci­do, porventura uma cor que lhe tenha dado sorte noutras corridas. Na verdade, as casacas têm cores tradicionais, as mais acentuadas: o verde, o azul, o vermelho e o bordeaux. Só que a modernidade chegou também à paleta das cores e a variedade já inclui tons pastel. Na arte de bem vestir na arena está ainda a camisa. Essa peça tem um plastron - tipo de gravata com umas presilhas - inspirado nas usadas pelas famílias burguesas. Por ser pouco confortável, os alfaiates modificaram a camisa optando por um colarinho forrado a piqué com a dita gravata com o mesmo ponto, mais fun­cional. Basta-lhe pregar um alfinete dourado e está pronta para a lide.
Manuel Marques usa um segredo nas suas casa­cas que não revela - diz apenas que aprendeu com um amigo em Saragoça. "É alfaiate do ape­ado que conhece o segredo das chaquetillas e das luces. Aplico-o nas casacas e nas jaquetas." Mais não faz, os toureiros a pé portugueses são por isso obrigados a ir comprar os fatos a Espanha. Por cá, cavaleiros como António Ribeiro Telles, Rui Salvador, Ana Batista, Sônia Matias ou Luís Rouxinol preferiram, e ainda preferem, a expe­riência e elegância que Manuel Marques passa para as suas obras.
"No campo da alfaiataria, o trivial está morto." Entre uma parafernália de cores e tecidos, fora da época das touradas, Manuel aplica-se nas jaquetas e nos fatos à portuguesa usados nos festivais e na feira da Golegã. Às vezes aparecem trabalhos diferentes. "Há tempos costurei as capas para a Confraria do Torricado de Samora Correia." Um hábito que pegou. •

PAULA MOURATO
GONÇALO BORGES DIAS


In "Notícias de Sábado"


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Trabalho minucioso à sua medida

Carlos Sousa dedicou toda a sua vida a uma arte que poucos conhecem. Desde que se lembra que queria ser alfaiate e começou a concretizar este sonho aos 14 anos. Hoje é um dos melhores a nível nacional e internacional, estando neste momento a trabalhar para outros países. Para além disso, tem uma boutique onde encontra todos os acessórios necessários para se vestir bem, com a qualidade de uma reconhecida marca italiana


Se se deslocar até ao Porto, vai encontrar um local diferente, que não está habituado a ver regular­mente. Falamos do Carlos Sousa Alfaiate, onde a arte da alfaiataria continua em prática, aliada ainda a uma boutique de alta gama, onde encontrará peças de uma marca ita­liana. Carlos Sousa começou a trabalhar como alfaiate ainda antes de completar l4 anos de idade em Vila Meã, terra onde nasceu. Costuma­va passar pela casa do seu primo, que praticava esta profissão, enquanto ainda era estudante, e costumava dizer-lhe que era esta arte que que­ria fazer no futuro. "Vim depois para o Porto e trabalhei com vári­os alfaiates, com quem aprendi bastante. O primeiro lugar foi em Sá da Bandeira e depois fui per­correndo outros espaços", começa por contar o entrevistado. Depois de cumprir o serviço militar obrigató­rio, voltou ao Porto onde ficou res­ponsável por um outro espaço, "estava responsável pelo corte, pelas provas e pelo atendimento ao cli­ente e, passada um ano, tornei-me sócio de uma empresa ligada à área".
No entanto, foi há quatro anos que Carlos Sousa decidiu que esta­va na altura de ter um espaço só seu, que se divide em duas áreas distin­tas: alfaiataria e boutique. Nesta se­gunda área, o cliente pode encon­trar todas as peças necessárias para sair vestido "dos pés à cabeça". A marca, essa, é italiana, uma vez que a qualidade é um dos parâmetros es­senciais para o sucesso. Já o calçado provém de um espaço localizado perto da loja, existindo uma parce­ria entre este alfaiate e a proprietária da loja de calçado. "Aqui estamos direccionados para uma classe média alta. Verificamos que cá existem bastantes casas que têm oferta para as outras classes sociais e, por isso, era importante para mim po­der disponibilizar algo acima da média. Para além disso, não existem muitos locais com o apoio de um alfaiate", afirma o entrevistado. Segundo Carlos Sousa, acaba por não existir concorrência neste sector, uma vez que poucos são aqueles que ainda aprendem este oficio, Aliás este alfaiate faz parte de uma geração que começou a aprender muito cedo esta arte, já que na maior parte dos casos, depois de se completar o quarto ano de escolaridade, homens e mulheres começavam a trabalhar, o que faz com que o interlocutor conte já com mais de 30 anos de experiência. "Esta não é uma arte fácil de aprender, é extre­mamente minuciosa, exige empe­nho e vontade de aprender. Tem que se gostar muito disto para en­veredar por este ramo de activida­de e são cada vez menos os alfaia­tes em todo o país. Os jovens de hoje não se interessam por esta pro­fissão porque querem algo que possam aprender mais rapidamen­te", sublinha o entrevistado. Desta forma, concorrência não é um vocábulo que faça parte dos dicionários dos alfaiates que existem no nosso país, uma vez que já são muito poucos aqueles que sabem trabalhar nesta área, que poderá es­tar em vias de extinção daqui a al­guns anos. "No entanto, ainda exis­tem mesmo muitas pessoas que gostam de mandar fazer um fato por medida, notei muito isso quando abri este espaço.

Apesar de ter fatos por medida, também execu­tados manualmente e de uma gran­de marca italiana, a verdade é que muitos são aqueles que preferem mandar fazer de raiz e acabam por acompanhar todo o processo com as provas. Aliás, por vezes tenho que pedir auxilio a alguns colegas alfaiates, porque as encomendas são cada vez maiores", refere. E se não se puder deslocar até este espaço, não se acanhe, até por­que o profissionalismo é, tal como as peças, da mais alta gama. Como tal, Carlos Sousa desloca-se, sem­pre que necessário, até junto do cliente, seja em Portugal ou no estrangeiro. "Neste momento estou tam­bém a trabalhar para alguns mi­nistros estrangeiros com bastante regularidade, recebo também bas­tantes encomendas,. Para além dis­so, há a possibilidade de me expan­dir para outros países em breve", conclui este alfaiate que recebe cada cliente com a sua simpatia e a sua arte, à qual dedicou toda uma vida.

In "O Primeiro de Janeiro"



quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A alta qualidade aliada ao respeito pela tradição


Há quem diga que os alfaiates são coisa do passado, mas ainda há quem tenha muito trabalho para satisfazer os seus clientes como é o caso da Alfaiataria A. Gonçalves.



­­­­­­A. Gonçalves é uma alfaiataria de tradição familiar situada no centro do Porto desde 1973. Uma empresa de sucesso num tempo em que esta arte se desmorona a cada dia que passa. A. Gonçalves marca pela diferença ao nível da qualidade e de implementação de novas tecnologias de futuro. Em entrevista ao nosso jornal Victor Gonçalves fala-nos sobre a empresa e o início da sua actividade como alfaiate: "a loja é do meu pai. Estou aqui há alguns anos, o meu irmão também de vez em quando está cá e tentamos dar continuidade ao negócio de família". Victor Gonçalves seguiu os passos do pai desde miúdo, "O meu pai é alfaiate, e como eu era um menino rebel­de, para ter controlo sobre mim obrigava-me a estar sempre a seu lado. Comecei a ver o que ele fazia e a ganhar gosto pela arte­". Alfaiataria A. Gonçalves sen­do uma empresa muito conceitua­da no Grande Porto oferece servi­ços de alta qualidade pautada pela constante evolução. As principais actividades desenvolvidas pela em­presa são a confecção de roupa exterior, principalmente para homem, e a manutenção da roupa que produzem. Ao contrário do que se pensa, muitos clientes de Víctor Gonçalves são jovens oriundos das classes mé­dias altas. A qualidade é a palavra de ordem desta empresa "Nesta loja temos um nível de qualidade muito bom. No que diz respeito a tecidos, nada de misturas com ­fibras artificiais. Isto é um nível muito elevado em relação a qual­quer pronto-a-vestir com qualida­de. Quando se faz um fato na alfaiataria geralmente dura bastan­te tempo, apesar das lavandarias estragarem muito a roupa. Não é só o tecido em si, mas o que está dentro dele que permite resistir ao tempo e às lavagens". Devido à quase extinção des­te sector de actividade no nosso país a concorrência é quase nula, "­não há concorrência. Somos tão poucos que não nos podemos comparar. Não há concorrência, antes houvesse, assim a gente evoluía. No entanto não pode­mos parar, temos que evoluir, e nos últimos dois anos temos evoluído bastante­". Nesta empresa existe a necessidade da evolução constante nos métodos de fabrico e adaptação a novas tecnologias. Victor Gonçalves criou um site na internet e um blog, promovendo assim a empresa de que faz parte c implementando uma interactividade com outros profissionais da área. "­Estamos sempre a par das últimas tendências. Na matéria-prima há muita coisa actual, há muita coisa que evolui. A nível de tecidos são de fábricas tradicionais e conceituadas: Dormeuil, Ermenegildo Zegna, Holland & Sherry, Scabal­ entre outras. São empresas de alta qualidade, muito antigas e que evoluíram bastante­ ". Interrogado acerca do crescente desaparecimento de "seguidores" Victor Gonçalves não tem dúvi­das: "­­­Vai acabar. Poderá continu­ar com pessoas que tenham jeito para esta actividade mas sem serem profissionais na área. Por outro lado, poderia aumentar se, eventualmente, a cultura de vestir mudasse, seja por razões económicas, ou por razões culturais. Se as pessoas se mentalizarem ou começarem a aprender, seja por influencia dos pais ou família, se começarem a ter cultura de vestir, se souberem escolher, ver as coisas com outros olhos que não seja por um certo exibicionismo, talvez aí esta profissão ganhe outro fôlego". Actualmente as pessoas ligam mais à imagem do que à qualidade dos produtos, mostrando-se por vezes mais do que são. Curiosamente neste sector de actividade não existe formação profissional, sendo que a prática e os sítios onde trabalhou é que faz do alfaiate o que é hoje. Se­gundo Victor Gonçalves, "qual­quer alfaiate vai tentar, acima de tudo, ser perfeito naquilo que faz; independentemente do tra­balho que possa ter, vai tentar ser perfeito". Numa mensagem aos nossos leitores e tendo em conta o futuro desta empresa, Victor Gonçalves termina esta entrevista apelando ao bom gosto das pessoas: "Tra­balhar, fazer o melhor que puder­mos e soubermos e esperar que as pessoas tenham bom gosto e que aprendam a ver as diferenças de qualidade. Se as pessoas ganha­rem algum conhecimento e algu­ma cultura talvez esta actividade, de forte tradição, ganhe forças e volte a ser o que era".

In "O Primeiro de Janeiro"

domingo, 4 de janeiro de 2009

A Casa do Fato



Um dos
últimos alfaiates lisboe­tas de grandes tradições. É aqui que o noivo pro­cura o fato para usar naquele dia e os clientes fiéis encontram a mesma elegância de sempre, feita à medida de cada um. Uma reserva de bom-gosto, na Nunes Corrêa.


1
. Os reis e o artesanato
Esta casa no início até fazia as fardas para os reis irem casar. Mas, hoje em dia, estas casas tão específicas de alfaiataria estão em via de extinção, está tudo virado para o pronto-a--vestir e nós fazemos quase «artesanato».

2. Ir à Baixa fazer o fato
Abriu ao fundo da Rua Augusta em 1856 com Jacinto Nunes Corrêa, depois passou para es­te número 250 e, em 1958, o meu patrão ficou com a casa: era o Sr. Leão, o meu patrão desde 1959, uma pessoa fora de série. Ele criou aqui uma famí­lia entre nós, conhecia muito bem as pessoas e as situações. Dizia-nos: «Nós temos sempre de dar razão ao cliente mas o cliente pode não ter sempre ra­zão, é uma pessoa como nós, é nossa obrigação compreendê-lo e saber dar-lhe a volta!". De­pois trabalhei com o filho e agora com o neto! E a família tem sido muito unida no senti­do de conservar esta casa, ape­sar de as coisas estarem difíceis para este negócio de tradição.

3.Provadores e elevadores

A elegância comprova-se nos provadores do primeiro andar, simplicidade na decoração. E ainda assim a D. Isaura suspi­ra pelos tectos "lindíssimos, com pinturas feitas à mão», agora tapados pela sóbria ma­deira. Mas para visitar o atelier onde o alfaiate guarda a sua ar­te, o melhor é usar o elevador ao lado dos provadores para su­bir três andares. É um antigo elevador também bonito e em madeira, onde, certamente há muitas décadas, os clientes que sobem para as medidas e ava-­
liação do alfaiate ficam ainda mais seguros da qualidade da casa com o diploma exposto:
«Estados Unidos do Brasil - Ex­posição Nacional de 1908 - Rio de Janeiro - O júri superior con­feriu o Grande Prémio a Nunes Corrêa & Cia, Lisboa»...

4/5. o fato de casamento
É isso que o jovem procura aqui, uma coisa especial para esse dia. Hoje há uma oferta muito grande, com os centros comerciais e tudo, quem vem para a Baixa às compras são aquelas pessoas que gostam mesmo de cá vir. É unia clien­tela tradicional, vinha o avô, veio o filho e agora vem o neto, mas o neto às vezes acha tudo muito clássico e prefere o pronto-a-vestir. Também temos, claro. E temos também aqui os sapatos da Leão & Leão, sapa­tos clássicos e de qualidade, o mais vendido aqui na casa.

6. Vestir o noivo

Podemos vestir o noivo de cima a baixo: da camisa à casaca, da gravata (ou plastron, largo e preso com alfinete) ao cinto, do colete aos sapatos - o sapato tem de ser preto, sempre, pois o fato só pode ser cinza, antra­cite ou azul-escuro, e, claro, a meia também tem de ser preta. Aqui só ainda não temos a roupa interior, mas também vai chegar em breve, garante D. Isaura. O Bernardo, que já cá está há vinte anos, é que sabe melhor, ele é que veste os noi­vos.«Ah, mas o noivo veste-se como quer! O que nós aqui ves­timos ao noivo é o fraque ou o fato tradicional, que a maioria prefere, sempre preferiu. E tam­bém temos o pronto-a-vestir, claro, tivemos de nos adaptar ao mercado, mas não tem nada a ver com o fato feito à medida. E todas as adaptações, os ajus­tes, são sempre feitos pelo al­faiate!»

7. Provar e vestir

«O cliente só tem de dizer como quer, depois faz as provas e só vê o fato quando lho entregamos já pronto». O artista, o contrames­tre, é o Sr. Gomes, que sabe o que fica bem a cada corpo e per­cebe de cortes e medidas - e há meia dúzia de anos actualizou novos moldes pela melhor al­faiataria italiana. Mas os porme­nores - como assentar um fato na perfeição mesmo se o clien­te tem o ombro descaído - não se aprendem nos moldes: só a experiência faz um cliente ele­gante. E o Sr. Gomes tem a dis­crição necessária para dizer e fa­zer o que convém a cada um.

8.Quem vai à Baixa?

Quem nos manda fazer os fa­tos são clientes quase todos já de meia idade. Mas por esta ca­sa passaram todos os homens de negócios, todos os políticos, desde o Mário Soares ao Sá Car­neiro, conheci essa gente toda. E tínhamos aqui um ambiente como uma família, todos os empregados e os patrões. E eu era a mais novinha deles todos quando entrei, faça as contas, já tenho 63 anos... estou aqui há 45! Se Deus quiser para o ano reformo-me. E aqui até conheci o meu marido, aqui ti­ve o meu filho, já nasceu o meu neto... Mesmo sem querer, is­to faz parte de mim. Hoje é di­ferente, já não se trabalha as­sim, mudam os tempos, os clientes...


9. Alfaiate,espécie em extinção
O Sr. Gomes trabalha há 48 anos neste ofício, começou a aprender ainda na província aos 15 anos, «tive de pagar pa­ra aprender e só depois come­cei a ganhar dez tostões por dia». Veio para Lisboa, em 1959, trabalhar para uma das muitas alfaiatarias que exis­tiam na época, quando cada qual gostava do fato feito à sua forma e medida (curiosamen­te esse é também o ano em que a D. Isaura começou a trabalhar nesta casa). Esteve em vários sítios e aprendeu com vários contramestres, grandes mestres da arte da alfaiataria. Há três anos, este «maravilho­so alfaiate, um dos últimos desta arte em extinção», como é descrito nas palavras de D. Isaura, veio para a Nunes Corrêa. Porte distinto e reser­vado, o mestre apenas se queixa de não haver ninguém inte­ressado em aprender a arte. «é moroso, leva muito tempo a aprender, nesta profissão não se ganha dinheiro fácil», mas não se importa de nos ajudar a preparar fatos e manequins para a fotografia.

10.Mãos de fada

A palavra costureira, costureirinha, faz lembrar velhas co­médias a preto e branco com Beatriz Costa. Mas não são tão antigas as costureiras da Nu­nes Corrêa: faz este mês 17 anos que a D. Lurdes trabalha neste quarto andar da Baixa pombalina. Alinhava, costura e dá assistência ao trabalho do alfaiate juntamente com as co­legas, a D. Luísa - que apesar de trabalhar em costura há quarenta anos só no ano pas­sado veio para aqui - e a se­gunda pessoa mais antiga na casa, a D. Céu -«sou a mãe de­las todas, trabalho aqui há 37 anos».

11. As máquinas e as pessoas
Mas são quase desse tempo a preto e branco as máquinas e os ferros com que nesta casa se mantém a tradição. Mas o difí­cil seria substituir estas máqui­nas por novas que trabalhas­sem tão bem... E o que dizer das pessoas!"

In "Notícias Magazine"

Texto: Sandra Oliveira
Fotos: Neni Glock

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

CARINHOS PARA A SUA CAMISA

Na década de 1950, as camisas eram engomadas para permitir que se usassem mais tempo. Desde o aparecimento da máquina de lavar, as camisas podiam ser lavadas diariamente e não havia necessidade de as engomar. Era frequentemente aconselhado que se pusesse a camisa numa capa de almofada ou se virasse do avesso antes de ser lavada, para que se protegesse o tecido, mas nem esse ritual é agora necessário. Uma camisa de qualidade pode – sem tratamento especial – ser lavada semanalmente por cinco ou sei anos antes que as primeiras marcas de uso sejam visíveis. No entanto, é sempre importante respeitar as instruções de lavagem.

É preferível remover a camisa do estendal ainda húmida para que se consiga passar a ferro mais facilmente. Porém, se estiver muito seca, deve humedecê-la com um spray e deixá-la num saco plástico durante 30 minutos.

Comece por passar a ferro as mangas, é sempre melhor fazê-lo numa mesa própria para mangas. Passe desde o centro da manga, termine nos punhos. Depois, ponha as costas da camisa na mesa de passar, com o interior virado para cima e passe, tenha atenção às dobras. Repita no outro lado. Passe para o colarinho, começando pelas pontas em direcção ao meio para evitar rugas. Vire o colarinho ao contrário e passe de novo, inserindo depois as clavículas. Último passo – passar os dois painéis frontais, cuidado com os botões. Camisas passadas a ferro ficam melhor penduradas em cabides.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Exemplo de uma antiga agremiação dos mestres

No Porto, os tanoeiros tinham Santo António como padroeiro; Santa Ana presidia à confraria dos botoeiros; os pedreiros reuniam-se sob a protecção de Santa Luzia; S. José e S. Brás eram os patronos dos carpintei­ros. Os alfaiates tinham a sede da sua agremiação na capela de Nossa Senhora de Agosto, que até aos idos de quarenta esteve em frente à entrada prin­cipal da Sé, onde funcionava sob a protecção daquela imagem e de São Bom Homem. A capela, por albergar a sede da referida corporação, era popularmente conhecida por Capela dos Alfaiates. As corporações profissionais constituíam-se em confrarias sempre sob o patrocí­nio de um santo e com sede numa capela. A Confraria dos Alfaiates foi das mais importan­tes e influentes na cidade. No curto espaço de uma crónica não é possível abordar toda a sua rica e longa história. Convi­dam-se, no entanto, os leitores interessados por estas minudências a consultar os estatutos da corporação existentes, por exemplo, na nossa Biblioteca Pública Municipal. A leitura desse documento permite a quem o consultar ficar a saber mais sobre a origem da confra­ria, sua organização e fins, elementos directivos e adminis­trativos, suas funções, encargos e obrigações para com os aprendizes e benefícios para os membros da Confraria que caíam doentes ou ficavam impossibilitados de trabalhar.

In "À Descoberta do Porto"

Germano Silva

JN 24-08-2008


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Opinião


ALFAIATES
Por José Andrade

Não vou aqui falar numa freguesia do concelho do Sabugal nem de uma graciosa ave migradora com um bico esquisito, tipo sovela de sapateiro, mas sim de uma profissão que, segundo li há pouco tempo num jornal, se extinguirá dentro de vinte anos, o que eu acho optimismo exagerado. Com efeito, a arte de alfaiate, muito popular em Condeixa há meio século, está praticamente extinta. Haveria para aí, dentro da vila, cerca de uma vintena de indivíduos exercendo essa arte, já com a categoria de mestre. Aprendizes, semioficiais e oficiais - era esta a hierarquia dentro da profissão – talvez houvesse para aí o dobro dos que já se tinham alcandorado ao topo da arte. Era mestre quem sabia tomar medidas e talhar.
Hoje, o único sobrevivente de uma arte que aqui foi muito florescente, está com oitenta anos mas ainda mantém intacta a sua oficina . Embora já não se aventurando a manufacturar obra de responsabilidade ainda constitui um “pronto-socorro” para quem precise de apertar ou alargar um casaco ou umas calças, subir ou descer bainhas ou mangas e se for “bem conversado” ainda confecciona um bom par de calças para ambos os sexos. É o Joaquim Barrico, toda a vida mais conhecido pelo Quim Manoco que desde muito novo foi um alfaiate de sucesso. Desejo a este Amigo mais uns anitos com boa qualidade de vida.
Até aos anos cinquenta, era rara a peça de vestuário que não fosse feita por medida. Quando um fato era adquirido nalguma loja de pronto a vestir, o que acontecia quase somente nas cidades, qualquer alfaiate comentava desdenhosamente que se tratava de “obra de fancaria” isto é vendida por fanqueiros (estou a lembrar-me de uma rua da nossa capital, com este nome).
O freguês entregava o tecido na alfaiataria, submetendo-se desde logo a tomada de medidas pelo mestre alfaiate cuja fita métrica estava ordinariamente suspensa sobre o seu pescoço A fazenda era molhada para posteriormente não encolher. A obra iniciava-se com o esboço do fato feito com giz próprio, seguindo-se o corte e depois todas as operações de confecção que incluía uma ou duas provas. Um terno (casaco, colete e calças) exigia trabalho mais aprimorado e era feito geralmente de tecido de qualidade que só os mais abastados tinham possibilidades de adquirir. Para os de menos posses havia o cotim, a ganga e a saragoça que não exigiam confecção muito apurada, dispensava forros e por isso era menos onerosa.
Recordo-me da intensa azáfama que reinava nas alfaiatarias de Condeixa nas semanas que precediam as épocas festivas, designadamente a Páscoa o Natal e também o dia da procissão do Senhor dos Passos.
O Domingo de Páscoa e o 25 de Dezembro eram, principalmente, os dias em que muitos desejavam estrear fatiota nova e então, o trabalho nas oficinas de alfaiate desenrolava-se com frenesim fora do comum nas vésperas de tão importantes celebrações. Não havia horários e os serões prolongavam-se até às tantas. Também não havia folgas e era apertado o tempo dispensado às refeições e ao descanso. Cortar, (talhar) alinhavar, coser à máquina e à mão, provar, casear, pregar botões e passar a ferro eram operações que se sucediam com celeridade mas quase sempre sem prejuízo do apuramento da obra pois também estava em jogo o prestígio dos artífices, não estando também excluída uma natural rivalidade entre essa classe de artesãos . Os janotas queriam exibir-se, e os alfaiates, na mira de proventos que os compensassem de épocas mais brandas, davam o máximo.
Alguns alfaiates da minha terra tinham a sua freguesia disseminada nos meios ferroviários mais próximos – Granja do Ulmeiro, Santo Varão, Formoselha e Pereira do Campo. Nas suas oficinas predominava o tecido de cor castanha , tonalidade usada para os fardamentos dos funcionários da CP, designadamente factores e revisores. Ao Domingo, lá iam eles montados nas suas bicicletas com a trouxa dos fatos muito bem acondicionada na “bagageira” do velocípede, afrontando por vezes resignada e estoicamente a chuva impertinente ou a impiedosa canícula. Antes de terem bicicleta, alguns aproveitavam a boleia de moleiros que faziam o seu carreto para aquelas bandas. Regressavam já de noite, depois de terem percorrido mais de três dezenas de quilómetros muitas vezes com os bolsos sem a quentura do dinheirinho por que tanto almejavam e que só era mais certo nos dias de pagamento dos servidores daquela empresa ferroviária. Partilhei intensamente, até à altura de ir para Coimbra tirar o meu modesto curso comercial, esta atribulada vida de alfaiate. Meu Pai era um deles e levou sempre, como tantos outros, uma vida de sacrifício pois nesta terra, tirando um ou dois alfaiates bem afreguesados, todos os demais estavam longe de viver desafogadamente.
Os alfaiates estão pois, em vias de extinção irreversível. As lojas de “pronto a vestir”, ultimamente com forte concorrência dos ciganos nas feiras, foi gradualmente acabando com eles. Nas grandes cidades ainda vão subsistindo os melhores, que são procurados por executivos ou gente da alta que embora pagando caro, ainda preferem um fato que se molde bem ao seu corpo ou então que, pela sua corpulência ou defeito físico, não encontrem naqueles estabelecimentos coisa que lhes assente bem. Mas a verdade é que a confecção de obra personalizada está a passar à história.

26.06.08

CW: Zilda Monteiro

In "O Despertar"