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domingo, 21 de setembro de 2014

Alfaiataria e Costura - Arte por Medida

        O giz de sabão desliza pelo pano deixando atrás de si a marca que orientará a mão que guia a tesoura. Desenhos dignos de arquitectura têxtil medidos a preceito numa fazenda nua aberta sobre a mesa dão início a um processo que terminará numa peça de roupa que vestirá um corpo á sua medida, ao seu feitio, ao seu gosto.
        Desde criança que Fernando Andrade foi inserido no mundo da alfaiataria. Mesmo quando frequentava a escola primária, aprendia em casa a arte que o seu pai já tinha aprendido com o seu avô e este com o seu bisavô. Ser alfaiate estava escrito no seu destino, mas mais do que ser o seu legado familiar, era a sua vontade, a sua vocação.
       Aos vinte e poucos anos de idade surge a paixão. Fernando conhece Maria dos Anjos Santos que morava no concelho vizinho. Além de todas as outras fórmulas e raízes quadradas em que o amor se soma, no cálculo desta relação havia ainda um algoritmo coincidente, a jovem que conhecera tinha ela também uma apetência para a aritmética da costura. Nunca as parcelas tinham acertado tanto num quociente.
      O namoro... O casamento... Os filhos...
          Mais de trinta anos juntos e três filhos depois, este casal de artesãos do têxtil partilham o seu espaço de trabalho num atelier de costura em sua casa. Mais de trinta anos ao serviço de uma arte em vias de extinção e que nesta família termina nesta geração.
     Ao entrarmos no atelier damos de caras com a velhinha máquina de costura Oliva que continua afinada como nunca. Para quê motor eléctrico quando o pedal permite um melhor controlo sobre a peça de roupa em confecção?  Na parede à esquerda prateleiras sustentam fazendas dos mais variados padrões e tons. A parede em frente ostenta dois varões na horizontal onde estão pendurados calças, casacos e outras peças de roupa acabadas ou por acabar, como podemos reparar nos casacos sem mangas alinhavados geometricamente. Há mais máquinas por ali. Há ainda três mesas de madeira, uma das quais cinquentenária, onde começa todo o processo de confecção de uma peça de vestuário e se desenrolam muitas fases até ao seu acabamento. Cores, texturas e padrões não faltam naquele local onde flanela, terylene e bombazine harmonizam com cones de linhas, tesouras, agulhas, dedais e fitas métricas. Ferros de engomar lançam nuvens de vapor inexistentes quando Fernando e Maria dos Anjos ainda jovens tinham de vincar e engomar as peças de roupa com os antigos ferros aquecidos a brasas que ainda guardam com carinho. Aqui as bainhas ainda são feitas à mão, as casas para os botões ainda são feitas à mão. Há um todo um processo contínuo na busca da perfeição que nenhuma máquina é capaz de proporcionar.
         A partir do momento em que uma fazenda é aberta sobre a mesa, nela é personificada o seu destinatário. Um nome, medidas e formas fazem da moda por medida uma arte que anda de mãos dadas com as pessoas, que é feita para as pessoas em todas as suas dimensões, que tem a sua assinatura. Uma peça de vestuário personalizada e única no mundo inteiro. A prova da roupa é disso mais um exemplo. Nada pode falhar e nesta fase intermédia ajusta-se a peça ao seu proprietário. Mais riscos de giz, medidas e alfinetes permitem obter um projecto final. Quando a confecção está terminada tira-se a prova dos nove. O corpo recebe a sua nova peça de vestuário.
         A arte de alfaiate teima em terminar tal qual a conhecemos hoje em dia, mais ainda que a arte de costureira. São pessoas como Fernando e Maria dos Anjos que mantêm e manterão estes ofícios vivos enquanto não lhes faltar forças. A preservação da cultura portuguesa depende dos seus cidadãos e quando eles mais que ninguém fazem por isso, então podem erguer a cabeça e dizer: eu compri a minha missão.






























Texto
    e           Bruno Andrade
Fotos

Portugal Aqui Tão Perto

sábado, 20 de setembro de 2014

Como se Tornar um(a) Alfaiate

O alfaiate é o profissional especializado que exerce o ofício da alfaiataria, uma arte que consiste na criação e reparação de roupas, na forma artesanal e sob medida, ou seja, exclusivamente de acordo com as medidas e preferências de cada pessoa, sem o uso padronizado de numeração preexistente. Outras funções atribuídas ao alfaiate são: a de estilista, ou seja, o feitio de roupas femininas e de talhe masculino (como fantasias, paletós, terninhos, tailleurs, etc.) e a de figurinista, na criação e organização de figurinos. Para se tornar um(a) alfaiate, portanto, você deverá saber como costurar, juntar, reforçar e dar acabamento em suas criações (roupas). Os pré-requisitos para tornar-se um(a) alfaiate não são muito exigentes, muito embora demandem habilidade caso você queira atingir uma carreira de sucesso neste campo. Continue lendo abaixo para obter mais informações.


Método 1 de 3: Aprendizagem Técnica e Criativa



1  Tenha um diploma do ensino médio. Não há requisitos educacionais oficiais/formais para se tornar um(a) alfaiate. Como regra geral, porém, você deve ter pelo menos um diploma de colegial, especialmente se você pretende exercer o ofício em uma grande empresa de moda.
Verifique se seu atual curso de graduação oferece disciplinas que possam revelar-se relevantes para o campo da alfaiataria. No mínimo, você deve tentar fazer um curso de economia doméstica. Algumas escolas podem até ter cursos de costura, e podem lhe ensinar sobre design de moda, costura à mão, e até mesmo costura industrial.
Tome aulas eletivas de arte para ajudá-lo (a) a desenvolver um melhor gosto estético, de modo que você esteja mais preparado(a) para trabalhar com cor, estilo e criatividade.
Certifique-se que as aulas também ajudem a desenvolver habilidades matemáticas básicas para que você não tenha nenhum problema em trabalhar com medições.
Aulas sobre gestão empresarial também podem ajudar se você estiver pensando em se tornar um (a) alfaiate autônomo(a).
Cursos e workshops também podem ser benéficos, uma vez que os instrutores podem se tornar - além de amigos - possíveis contatos no mundo da moda.



2   Faça cursos de nível universitário. Mesmo que você não precise ter um diploma universitário, pode-se tirar proveito de algumas das aulas de moda e design oferecidas na faculdade.
Além de ser benéfico para o seu próprio aperfeiçoamento, ter um curso universitário ou um diploma universitário pode fazer com que seu empregador seja mais propenso a considerar aquela promoção, sabe? Você pode também, caso queira, até mesmo trabalhar em sua carreira para estar a cargo de outros alfaiates, como um supervisor.
Verifique em faculdades comunitárias ou escolas técnicas, a possibilidade de cursar costura, design ou moda. Aulas avulsas em um colégio comunitário ou escola técnica também podem ser mais baratos.
Procure escolas que oferecem uma variedade de cursos (não só para profissionais com experiência) como também voltados para o iniciante e o leigo.
Estude assuntos relacionados à construção de vestuário, padrões geométricos, indústria têxtil, acabamentos e detalhamento.
O ideal é que as disciplinas forneçam informações sobre livros didáticos interessantes e exercícios práticos de costura.

3   Considere tomar aulas gestão empresarial e negócios. Muitos alfaiates acabam por trabalhar por conta própria. Embora não seja estritamente necessário, você pode achar benéfico tomar algumas aulas de gestão empresarial e negócios, bem como cursos de finanças (de nível superior) com o objetivo de se preparar para as responsabilidades e deveres envolvidos na execução de seu próprio estúdio.
Procure por aulas desta temática em colégios comunitários em sua região. Preste muita atenção às aulas de finanças para negócios. Busque lições e casos práticos de empreendedorismo, aulas de marketing e qualquer outra disciplina que possa tratar a temática das pequenas empresas.



4   Refine suas habilidades por conta própria. A formação profissional pode ajudar, mas se você quer se tornar um (a) excelente alfaiate, nada lhe impedirá de praticar em casa, no seu tempo livre. Se você estiver pensando em ser independente, a auto formação pode até ser suficiente para você começar seu próprio negócio.
Você pode buscar boas leituras em uma loja de livros e de manuais que possam ensinar novas técnicas de costura, ou mesmo obter mais informações sobre diferentes tipos de tecido, design de moda, e outros temas relacionados.
Você também pode olhar demonstrações em vídeo, na internet, para aprender sobre as diferentes técnicas de costura, muitas vezes ensinadas passo-a-passo e bastante acessíveis.

Método 2 de 3: Experiência



1  Trabalhe como aprendiz. Uma das melhores coisas que você pode fazer - ao se formar como alfaiate profissional - é tirar proveito de um aprendizado com um alfaiate que já esteja estabelecido no negócio há muito mais tempo que você. Tal aprendizado irá treiná-lo(a) nas habilidades primordiais do negócio, além da experiência que vai figurar em seu currículo.
Você pode ser capaz de encontrar um programa de estágio em alfaiataria em sua região, portanto, faça sua pesquisa. Escolha um programa de horas condizente com suas condições de tempo e interesse.
O(a) alfaiate aprendiz lidará com tarefas simples relacionadas à costura, emenda e alteração de roupas. Tudo isto sempre supervisionado (a) pelo seu mentor ou mentora, claro. Caso você demonstre mais habilidade e compreensão do ofício, podem lhe ser direcionadas tarefas mais complexas.

2   Opte por uma formação informal, se necessário for. Algumas vezes estágios específicos podem ser difíceis de encontrar. Por isso, você também pode obter um pouco de treinamento e experiência simplesmente trabalhando informalmente ou eventualmente com um alfaiate, ou em uma loja de concertos de roupas, fazendo tarefas que não estejam diretamente relacionadas com o trabalho de alfaiataria.
Mesmo que você não trabalhe com habilidades estritamente relacionadas com o ofício do alfaiate, você pode tomar dicas e informações de seu mentor ou interessado. Atender telefones, marcar compromissos, dentre outras tarefas operacionais, vão com toda certeza fazer com que você ganhe algum conhecimento acerca de qual é a atmosfera deste campo de negócio.

3   Pratique trabalhando em lojas de varejo. Trabalhe com o público, praticando a arte de vender e atender clientes. Isto será benéfico para você em longo prazo. Além disso, ter experiência de trabalho em varejo realmente pode ficar bem em seu currículo, se você decidir se candidatar a um emprego como um alfaiate profissional ou mesmo em uma grande empresa de moda.
Você precisa desenvolver habilidades de comunicação e conhecimentos interpessoais para que os clientes se sintam confortáveis com você, ao tomar medidas e discutir as melhores maneiras de se melhorar suas vestes.
Saiba que um emprego no varejo vai lhe dar alguma experiência em trabalhar com o público, mas alguns postos de trabalho podem se demonstrar melhores do que outros. Afinal de contas seu interesse é pela alfaiataria, não é mesmo? Procure então por postos correlatos. Postos de trabalho em tempo parcial em lojas de departamento, lojas de roupas, lojas de calçados e lojas especializadas em acessórios são preferíveis a um estágio numa franquia de fast food ou restaurante de shopping. Você deve se acostumar, portanto, com o ambiente de varejo do universo da moda ao invés de qualquer outro ambiente de varejo genérico. Empregos em pet shops, lojas de conveniência e supermercados, portanto, também não são boas ideias.



5   Domine as ferramentas do ofício. Não importa como você optou por receber sua formação e experiência de trabalho: antes de iniciar sua carreira como um (a) alfaiate, você deve se certificar de que possui bastante experiência com as ferramentas atuais utilizadas nesse tipo de trabalho.
Você deve ser proficiente no uso de uma fita métrica de pano, bem como no emprego de outros instrumentos de medição. A fita métrica é normalmente utilizada para tomar as medidas do corpo, para o espaçamento de botões e demais medidas de comprimento. Réguas e a “curva francesa” podem ajudar a trabalhar com linhas de costura em diversos ângulos.
Você também precisa trabalhar com máquinas de costura em nível profissional e overloques. Aprender a operar os diferentes tipos de máquinas, diferentes tipos de agulhas, e diferentes tipos de linhas também.
Use toda variedade de ferramentas de corte à disposição, incluindo a tesoura de costura e lâminas rotativas. Saiba quando usar cada uma e para que finalidade.

Método 3 de 3: Encontrando Trabalho
1  Decida se você pretende trabalhar para si mesmo ou para outra pessoa (ou empresa). Há prós e contras em ambas as opções, é claro, assim, você deve revê-los antes de tomar sua decisão. Prepare-se para ambos os caminhos e dê à sua carreira mais versatilidade. Se quiser, concentre seus esforços no caminho que você deseja.
Trabalhar para alguém limita a quantidade de responsabilidade e preocupação que você precisa ter sobre a gestão ou marketing da empresa. A desvantagem, no entanto, é que você terá menos liberdade sobre o trabalho desempenhado e não vai colher todos os ganhos de seu trabalho (pois seu chefe ou sua chefe precisará pagar os custos do empreendimento).
Por outra via, se você trabalhar por conta própria você terá que gastar tempo em marketing e tarefas administrativas: muito porém, você terá o próprio horário e demais condições, além de também poder manter todo o lucro da empresa.
Estima-se que 44 por cento dos alfaiates são autônomos, enquanto 26 por cento são empregados no pequeno comércio. Os 30 por cento restantes trabalham para outros serviços e grandes indústrias.

2   Encontre trabalho com um alfaiate profissional. Alfaiates profissionais são muitas vezes contratados por lojas de departamento, boutiques de noivas e fabricantes que precisam de alguém para fazer alterações nas peças.
Se você pretende trabalhar para alguém, procure por vagas de emprego na indústria têxtil e de confecções, lojas de departamento e tinturarias. Qualquer loja ou fabricante que trabalhe na indústria da moda e indumentária pode ser uma possibilidade. Você também pode verificar com alfaiatarias existentes para ver se eles precisam de alguma ajuda adicional.

3  Comece o seu próprio negócio. Iniciar seu próprio negócio como um (a) alfaiate pode ser uma tarefa difícil, mas isso pode dar-lhe mais controle sobre o trabalho. Ademais, tendo tudo que é preciso você pode começar imediatamente, sem a necessidade de ser avaliado (a) ou entrevistado (a) por potenciais empregadores.
Veja os requisitos legais e financeiros para iniciar o seu próprio negócio. Certifique-se de que a sua empresa seja registrada e que ela pague devidamente seus impostos.



4   Desenvolva um portfolio. Seu portfólio - ou álbum de trabalhos - deve incluir fotografias e amostras relacionados ao seu ofício na alfaiataria - o trabalho que você tem feito, incluindo suas concepções em alterações de peças e design. Um bom portfólio pode ser um recurso valioso quando você se candidatar a algum emprego ou encontrar potenciais clientes.
Você deve incluir fotografias de roupas que você alterou, bom como peças projetadas por você. Inclua também quaisquer esboços de projeto que você tenha.
Tente incluir amostras de uma variedade de estilos, do casual ao formal, para homens e para mulheres. Isto demonstrará a beleza e a versatilidade de seu trabalho.

5  Junte-se a uma organização profissional. As organizações profissionais, normalmente vinculadas aos sindicatos, podem lhe proporcionar apoio e recursos educacionais adicionais. Isso pode beneficiar você, não importando qual carreira você tomar, mas é especialmente útil se você decidir entrar no negócio por si mesmo, autonomamente.
Pesquise na internet algumas organizações profissionais que valem a pena conferir em sua região.
As organizações profissionais podem ser um meio mais fácil para os indivíduos ingressarem em cursos de educação continuada. Elas também podem fornecer aos alfaiates oportunidades de participarem em redes de contatos e de empregos.
6   Atraia clientes. A menos que você trabalhe para uma loja de departamentos que só permita que você faça trabalho para os clientes dela, saber como atrair seus próprios consumidores é uma parte importante do processo de deslanchar na carreira.
Faça uso de anúncios de jornal e anúncios digitais, como contas de mídia social e sites de negócios. Além disso, você nunca deve subestimar o poder do "boca a boca" e das propagandas.

7   Saiba pelo que esperar. Se você tem paixão e talento necessários para este trabalho, ele pode ser muito gratificante, mas, no entanto, saiba que este campo tem relativamente baixo crescimento de emprego. Você não deve esperar se tornar muito rico (a) fazendo isso.
Um alfaiate pode receber menos do que a média de salário de profissionais de formação superior.
Em 2010, os EUA coletaram uma estimativa de cerca de 57.500 postos de trabalho de alfaiataria.
As mesmas pesquisas antecipam apenas o crescimento de 1 por cento em oportunidades de emprego para alfaiates de 2010 a 2020.
Aspectos que afetam a falta de demanda por alfaiates incluem o fato de que a maioria das roupas é agora produzida a baixo custo em outros países (e em grande escala). Ademais, a demanda por roupas personalizadas continua a diminuir.

Criado por Ppaiva
Revisões wikiHow

sábado, 13 de setembro de 2014

"O Alfaiate Através dos Tempos"

Casa da Baía

Mostra de algumas das 18 telas de coleção de pintura de Vítor Gaspar que retrata uma arte milenar que acompanha a história do Homem.





municipiodesetubal 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

SR. NÉU




O manequim de fita ao pescoço espreita pela janela anunciando, de forma orgulhosa, a alfaiataria de Manuel Armada Barbosa, mais conhecido por Néu. A sala de entrada transpira anos de estudo, em livros gastos de tantas vezes folheados: técnicas de corte, traçados para a mais variada indumentária, tudo com uma lógica matemática, transformando-se quase numa ciência exacta! Nesta casa faz-se tudo à medida e nenhum pormenor pode ser deixado ao acaso. Com 60 anos de idade, há muito que as agulhas, a tesoura, o ferro e o giz fazem parte da vida do Sr. Néu que prontamente nos elucida que não se considera um profissional de alfaiataria mas antes um artista de alfaiataria. Aqui faz-se de tudo um pouco e não apenas umas calças e um fato, “nem que seja umas cuecas”, afirma!







A naturalidade com que fala connosco enquanto manuseia os tecidos com uma destreza incrível, em movimentos bem definidos e suaves, realça os anos de experiência deste alfaiate de quarta geração que, com apenas 10 anos, vinha da escola para aprender o ofício com o avô, a quem seguiu as pegadas. Mais tarde estudou na Academia de Corte Maguidal, na Rua da Palma em Lisboa, onde aprofundou a arte e aprendeu as mais recentes técnicas de corte. O entusiasmo com que nos recebe e as histórias que nos conta envolvem-nos num universo com muito mais para descobrir do que aparentaria à primeira vista. À semelhança das suas mãos, também as suas histórias fluem freneticamente umas atrás das outras. Explica-nos com orgulho que naquele mesmo lugar nasceram os congressos nacionais de alfaiataria, apesar das dificuldades muitas vezes sentidas em reunir os alfaiates do país.





































A sua casa emana um orgulho sentido e um respeito inegável pela arte. Não se trata apenas de um tecido mas antes de um símbolo, de um protocolo, de uma ética. “Já me recusei a fazer um fato! (…) Pagava-me o fato mas não a má propaganda!” acrescentando, logo de seguida, “e já mandei ir buscar um fato a casa”, (para que pudesse ser corrigido): “o cliente estava satisfeito mas eu não!”. No final diz-nos, com uma sinceridade espelhada nos olhos, “Gosto de vir à janela, logo de manhã, de fita ao pescoço. Que feliz eu sou em ser alfaiate!”.



Alfaiataria Moderna - Largo da Misericórdia - Ponte da Barca


P. Ponte - Texto
Sónia Silva - Fotos



segunda-feira, 10 de março de 2014

Os barões do corta e cose


É um ofício em vias de extinção, um luxo ao alcance de poucos e uma arte que muitos tentam dominar. Uma coisa é certa: alfaiate é quem faz um fato, mas no mundo da moda masculina por medida, a tradição é cada vez menos aquilo que era.
Quais resistentes do corte e da modelagem, contam-se pelos dedos das mãos os mestres alfaiates que ainda hoje vestem a preceito os seus clientes. Chegaram em força numa época em que o pronto-a-vestir era a excepção, para fazer do assentar impecável de um casaco nos ombros uma das regras mais sagradas entre cavalheiros. Apagados do quotidiano da maioria, e com pouco a dizer sobre moda e tendências em pleno século XXI, os alfaiates guardam uma arte em vias de extinção que está ao alcance de poucos e, regra geral, à distância de um lance de escadas e de uma campainha. Pelo menos, este é o trajecto que qualquer velho cliente da Alfaiataria Piccadilly consegue fazer de olhos fechados. Durante décadas, foi casa de primeira linha no comércio elitista do Chiado até que, a oito anos do centenário (em 2012), João Ribeiro tomou conta do negócio, abdicou da vitrine e recolheu ao atelier, onde actualmente é o mestre de serviço.
“Para se ser um alfaiate acima da média, é preciso ter bom gosto, sensibilidade e jeito. Ainda hoje faço tudo de forma artesanal, coso à mão e dou pontos como aprendi há 50 e tal anos”, conta, aos 64. Com 11 foi apresentado às tesouras, veio para Lisboa pouco tempo depois e ainda estava nos trintas quando o nome João Ribeiro já era bem conhecido pelas alfaiatarias da Baixa e pela clientela da altura. Hoje, reconhece que além de gosto, da sensibilidade e do jeito, saber lidar com os clientes faz parte do segredo para o sucesso, sucesso esse que começa em proporcionar-lhes exclusividade e discrição. “Normalmente, atendo por marcação, sobretudo pessoas mais conhecidas que não gostam de estar a escolher com outras a ver. No caso dos políticos, é habitual pedirem para vir ao sábado à tarde, às vezes ao domingo de manhã, quando têm a certeza que não vai estar mais ninguém”, conta.
De secretários de estado e outros membros do actual governo a diplomatas, que em tempos passaram pelo país, mas que continuam a voltar sempre que precisam de um fato novo, esta carteira de clientes tem tanto de abastada como de exigente. Os advogados continuam a representar a maior fatia, embora nem só de fatos se faça o trabalho deste alfaiate. Na lista de desafios de João Ribeiro estão também sobretudos (alguns também para senhoras) e gabardines, uma dor de cabeça para quem não quer falhar um ponto.
Não há dinheiro que pague a tradição


Se, para alguns, uma ida ao alfaiate é uma extravagância cometida uma vez na vida, outros parecem estar predestinados a provar fatos feitos de raiz. Que o diga Joaquim Barbosa, prestes a comemorar 50 anos à frente do seu próprio atelier. Já tirou as medidas a pais, filhos e netos mas, actualmente, o difícil é aceitar novos clientes. Cada fato chega a exigir 70 horas de trabalho, daí que as encomendas da clientela mais fiel já lhe dêem pano para mangas. “O rico é sempre rico e, além disso, há pessoas que, em vez de mandarem fazer dez fatos, agora mandam fazer só um. Mas os clientes não se queixam, nós é que já não damos vazão”, afirma o mestre de alfaiataria, já septuagenário, denunciando uma espécie de crise de sucessão com que todos os alfaiates se deparam.
Mauro Gonçalves
Público
life&stylemoda


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O mais jovem alfaiate de Bragança tem 60 anos

Tem 60 anos o mais jovem alfaiate de Bragança, no que explica a razão de ser uma das profissões ameaçadas de extinção. António Francisco é, no entanto, um caso de sucesso de quem soube direcionar a clientela para se manter no mercado.



RTP1Patrícia Lopes/ Nuno Miguel Fernandes02 Nov, 2013

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Meu nome é Tony Miranda

Como um aprendiz de alfaiate das Beiras fez a diferença em Paris. E hoje não desiste de talhar fatos de alta costura em Portugal.



Desafia-se o mais empedernido dos citadinos a concentrar-se nalguma outra coisa quando há melros por perto a debicarem nos frutos de uma enorme amoreira de um jardim em Lisboa. Não sabemos se existiam árvores destas em Torrados no tempo em que António Miranda ali cresceu, último de cinco irmãos, filho de uma costureira e de um sapateiro que era bom a fazer botas. Mas melros havia com certeza na pequena aldeia beirã do concelho de Felgueiras, e se calhar tantos quantos os habitantes, recorda ele que nem duzentos nos anos cinquenta.
Quando não estava entretido a ver a mãe a coser, quando não se sentava nos seus joelhos enquanto ela se punha a fazer quilómetros na máquina de costura, António gostava de andar pelos campos. Hoje diz que a "obsessão pelos trapos" vem desde que nasceu mas foi preciso o padre da aldeia instalar um televisor no salão paroquial para acontecer a grande epifania da sua vida. Era a primeira vez que via televisão e logo nessa primeira vez havia de passar um desfile do francês Christian Dior. Chegou a casa e a mãe ouviu-lhe: "Tenho de ir a Paris para fazer aquilo que vi hoje."
Tinha quase 14 anos e sabia umas coisas de costura. Desde os 12 que trabalhava noites e fins de semana num alfaiate da terra e já fizera o seu primeiro fato completo para um noivo. Saiu a salto perto de Chaves como se usava na altura, com dinheiro emprestado pelo antigo patrão e por dois dos irmãos mais velhos. Fê-lo às escondidas porque o pai estava contra - queria-o sapateiro como ele e não era homem de aventuras.
Quase cinquenta anos depois é aos campos que António volta sempre que cria uma nova coleção de alta costura. Quando põe nos chariots os vestidos ("Todos vestíveis") que vai apresentar no próximo dia 26, no Hotel Ritz, em Lisboa, vê um jardim onde acaba por colocar alguma flor, nem que seja bordada. Só escapam os fatos smoking, uma linha que o acompanha sempre porque a sua formação principal foram os fatos de homem.
Tudo à mão
Se estiver bom tempo o desfile L'Art de la perfection será no jardim do hotel e terminará ao som de La vie en rose, cantada por Gilbert Bécaud. António vestiu-o muitas vezes quando trabalhou em Paris com o criador Ted Lapidus, entre as décadas de sessenta e setenta. A lista de famosos seria imensa porque ia lá quase toda a Paris, mais uns chefes de Estado africanos e muita realeza das Arábias. António tem os nomes dos clientes bem presentes, de alguns até recorda as medidas, exigências, pequenas manias.
Vinte e cinco anos depois de regressar a Portugal são alguns desses clientes que mantêm a laborar o seu ateliê em Guimarães.


 Texto: Rosa Ruela
  Foto: Luís Barra

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Anuário de Alfaiataria 2013



No âmbito dos projetos de investigação do IPAM Lab Aveiro surgiu o  projeto denominado: “Alfaiataria: Um estilo de vida? Experiências e  serviço nas alfaiatarias portuguesas” enquadrado na área  científica  do  “Marketing de luxo”. 
O projeto, orientado para a compreensão e mapeamento das práticas  adotadas na alfaiataria portuguesa, decorreu de outubro de 2012 até  maio de 2013, com uma equipa de investigadores composta por quarto  elementos: Profª Cidália Neves (líder do projeto), Dr.ª Mariana Teixeira,  Prof. Gonçalo Caetano Alves e Profª Irina Saur-Amaral (investigadores  afetos ao projeto). 
As principais atividades do projeto envolveram uma revisão bibliográfica e desenvolvimento de um modelo de análise  que engloba as principais  dimensões do luxo (perspetiva do serviço e do consumo), seguidas por entrevistas com  alfaiates e clientes de alfaiates para melhorar este modelo e compreender melhor as particularidades da profissão. 
O projeto permitiu ir ao e encontro  de 18 alfaiates, localizados no Porto,  Aveiro e Lisboa, de várias gerações e níveis de preço e serviço mas que  trabalham para uma clientela com características muito peculiares e  semelhantes entre si. 
A realização do anuário da alfaiataria como forma de homenagear a profissão resume algumas das conclusões do projeto, mas sobretudo abre  portas para trabalhos futuros relacionados com a alfaiataria.  As próximas  páginas permitirão descobrir mais…
Em suma, foi uma experiência inesquecível para a equipa de projeto, que  mergulhou no mundo da alfaiataria, deixando-se cativar pela sua  distinção.


Para adquirir a versão digital do Anuário, pode fazê-lo através da página da Bubok. Se preferir a versão em papel por 29,99 €, deverá solicitá-lo para um dos seguintes emails: andrevieira@ipam.pt ou irina.amaral@ipam.pt.


terça-feira, 28 de maio de 2013

“Queremos criar a marca ‘Alfaiate de Portugal’”


Depois de ter feito um mapeamento da alfaiataria em Portugal, IPAM Lab quer ser parceiro na criação da marca “Alfaiate de Portugal


Ser-se alfaiate é uma actividade de risco ou uma oportunidade? A resposta não é óbvia e precisamente por isso, o IPAM LAb de Aveiro lançou “mãos à obra” e decidiu mapear a profissão. O projecto científico, iniciado em Outubro do ano passado, pretendia, explica Irina Saur-Amaral (directora do IPAM LAb Aveiro), “perceber como funcionam os alfaiates” e a conclusão a que chegaram foi a de que não se trata de um sector “parado no tempo”, antes tem no mercado de luxo um “aliado de peso”. “Há um nicho de mercado, é um serviço direccionado, sobretudo, para a classe média e média/alta, tendo várias profissões a ele associadas, principalmente advocacia e política”, acrescenta Mariana Teixeira, investigadora do projecto. Não obstante este mercado, que permite alguma sustentabilidade da profissão, as opiniões recolhidas pelo estudo, permitem concluir que a falta de formação técnica e especialista existente pode ser um factor que determine a sua extinção. “As opiniões que vamos recolhendo dos alfaiates, estes acham que é uma profissão em vias de extinção, devido à falta de formação”, argumenta Mariana Teixeira que, com o avançar do projecto, concluiu, com alguma surpresa, que se trata de uma profissão com alguns jovens.


In: Diário de Aveiro
Jornalista: 
Ana Sofia Pinheiro

Autor da Imagem: 
Paulo Ramos

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Alfaiates sobrevivem à crise, clientes pagam até 20 mil euros por fato

                                ©José Coelho/Lusa

A crise baixou as encomendas aos alfaiates do Porto, mas os fatos costurados à mão e por medida continuam a ajustar-se aos corpos de médicos, políticos, empresários, advogados, cônsules e noivos que pagam até 20 mil euros pela indumentária.

“Os nossos fatos podem ir dos dois mil euros aos 15 ou 20 mil euros”, admitiu o alfaiate português Ayres Gonçalo, que aos 30 anos já tinha costurado fatiotas para o príncipe Carlos e Gordon Brown.
Com ateliê montado há um ano na Praça Dona Filipa de Lencastre, no centro do Porto, Ayres Gonçalo rema contra a maré da crise e da Troika e assegura que as medidas de austeridade lhe passam “ao lado”, porque 90% da sua produção voa para Luanda, (Angola), Bruxelas (Bélgica), Nova Iorque (EUA) e S. Paulo (Brasil).
Ayres é neto de um dos alfaiates mais antigos do Porto, que cortou os dianteiros, os traseiros, as mangas, e a gola para o último fato de Oliveira Salazar e que em apenas seis horas executou um fato para o empresário Belmiro de Azevedo.
O avô e o neto Ayres acreditam que a arte da alfaiataria veio para ficar e não está em vias de extinção porque há aprendizes. 

A crença é partilhada também pelo costureiro Alexandre Ferreira, que aos 78 anos ainda corta e costura para o “ministro da Guerra”, referindo ao ministro Aguiar Branco.
“Faço fatos de 900 euros até 2.500. Tenho clientes ainda que fazem fatos para 2.500 euros”, confessa, sublinhando que um fato feito por medida ao corpo do cliente “fica outra coisa”.
Recordando com saudade a Rua de Santa Catarina, a artéria mais comercial da cidade do Porto, quando “era um viveiro de alfaiates”, Alexandre Alfaiate afirma que houve uma quebra “bastante grande”.
“Nos tempos áureos chegava a fazer 300 fatos por ano”, mas hoje, Alexandre já não consegue fazer média nenhuma de quantos fatos executa. “Talvez um por semana”, lança, incrédulo nas suas próprias previsões.

E se Alexandre Alfaiate defende que aquela arte só vai resistir para uma clientela muito reduzida”, o colega de profissão Augusto Saldanha, com atelier junto à Rua das Flores, acredita que a profissão de alfaiate não está em vias de extinção.
“Eu sou dos que ainda mantenho que o alfaiate nunca há de acabar. Já há menos e cada vez vai haver menos, mas acabar, acabar …, nunca chega a acabar”, acredita Augusto Saldanha, o alfaiate do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, e do eurodeputado Paulo Rangel.
O alfaiate conta que “trabalha para quem se sabe vestir” e “para quem quer vestir” e para “quem pode vestir”, mas não gosta de falar de preços. “Nem a minha mulher, que dorme comigo na cama, sabe o preço dos meus fatos”.
A obra fica mais barata do que a aquela que anda aí na boa confecção e “não é tão cara, como muita gente julga”, garante Augusto Saldanha, sublinhando que um fato seu é para o usar no dia-a-dia, não sendo um traje domingueiro ou para festas.
”Estas pessoas fazem pouco e estimam muito a roupa. Cada peça que eu lhes faço é uma jóia que compram. Não compram por comprar, nem compram e deitam fora. Ao contrário do que muita gente julga, estas pessoas estimam a roupa, não a deitam fora e recuperam-na muitas das vezes”, explica.

Os artistas do dedal, agulha, linha e tesoura vão continuar a ajustar-se aos desejos dos cliente da alta sociedade, que ainda são o melhor cartão-de-visita para não deixar morrer a profissão.

por Cecília Malheiro, da Agência Lusa
Lusa/SOL